Se você também confunde os critérios de Duke com os
critérios de Jones, essa postagem é para você. Ambos são critérios diagnósticos
de doenças estudadas em cardiologia, mas não é por isso que devemos confundi-los,
então vamos diferenciá-los.
Endocardite
infecciosa
A endocardite infecciosa é a infecção da superfície
endocárdica do coração, sendo relacionada geralmente às válvulas cardíacas.
Esse diagnóstico deve ser
suspeitado no paciente que tenha febre e fatores de risco, que são: sexo
masculino, idade mais de 60 anos, uso de droga injetável, dentição pobre ou
infecção dentária; ou comorbidades como doença cardíaca estrutural, doença
valvar, doença cardíaca congênita, válvula cardíaca prostética, história prévia
de endocardite, HIV, paciente dialítico crônico e dispositivo implantado no
coração.
O atraso no diagnóstico e tratamento está associado
com as complicações, como insuficiência valvar, insuficiência cardíaca, eventos
embólicos e sepse.
Para o diagnóstico, antes da antibioticoterapia
empírica, é necessário colher culturas de sangue e realizar uma
ecocardiografia. Aqui entra o critério diagnóstico.
Critérios
modificados de Duke
Critérios modificados de Duke para diagnóstico de endocardite
infecciosa, baseado na tabela Li JS, Sexton DJ, Mick N, et al. Clin Infect Dis 2000; 30:633. Copyright © 2000 University of
Chicago Press.
Critérios maiores:
- Hemocultura positiva (1 dos seguintes);
- Microrganismos
típicos consistentes com endocardite infecciosa em 2 culturas separadas: Staphylococcus aureus, Viridans streptococci, Streptococcus gallolyticus (antigo S. bovis), grupo HACEK (Haemophilus aphrophilus, Actinobacillus actinomycetemcomitans, Cardiobacterium hominis, Eikenella corrodens, Kingella kingae);
- Hemoculturas
persistentemente positivas;
- Hemocultura
única positiva para Coxiella burnetii
ou título de IgG > 1:800.
- Microrganismos
- Evidência de envolvimento endocárdico;
- Ecocardiograma
positivo para endocardite infecciosa, com vegetação (massa intracardíaca
oscilante ou suportada nas estruturas ou em material implantado) ou abscesso ou nova deiscência parcial da valva protética.
- Ecocardiograma
- Nova insuficiência valvar.
Critérios menores:
- Uso de droga intravenosa ou condição cardíaca
predisponente; - Temperatura maior que 38°C;
- Fenômeno vascular, incluindo as lesões de Janeway;
- Fenômeno imunológico, incluindo os nódulos de Osler;
- Evidência microbiológica que não se enquadra no
critério maior ou evidência sorológica de infecção ativa com organismo
consistente com EI.
Febre
reumática
A febre reumática aguda é uma sequela não supurativa
que ocorre duas a quatro semanas após faringoamigdalite causada pelo Streptococcus do grupo A e consiste em
manifestações clínicas divididas em critérios maiores e critérios menores,
usadas para o diagnóstico. Aqui entra o critério de Jones revisado. Os
critérios de Jones foram descritos em 1944 e são utilizados desde então, sendo
revisados ao longo do tempo. A modificação de 2015 divide o diagnóstico em
dois: um para populações de baixo risco de febre reumática e outro para
populações de moderado-alto risco, como o Brasil.
Critérios
maiores:
- Cardites e valvulites clínicas ou subclínicas;
- Artrite, geralmente poliartrite migratória de grandes
articulações, com excelente resposta a antinflamatório não esteroidal; - Coreia de Sydenham – envolvimento do sistema nervoso
central; - Nódulos subcutâneos – nódulos firmes e indolores, geralmente
relacionados à gravidade da cardite; - Eritema marginado – eritema evanescente, sem prurido,
também conhecido como eritema anular, já que a lesão tem o centro com a pele de
aparência normal.
Critérios
menores:
- Artralgia (altamente inespecífica);
- Febre maior ou igual a 38,5°C;
- Elevação de proteínas de fase aguda, como VHS e PCR;
- Prolongamento do intervalo PR no ECG.
Para o diagnóstico, são necessárias 2 manifestações
dos critérios maiores e 2 dos menores, com evidência de infecção estreptocócica
prévia. Se o paciente tem história de febre reumática aguda, ele tem risco
maior de novos episódios com maior chance de envolvimento cardíaco grave. No
caso de recorrência, então, 2 manifestações de critérios maiores, ou 1 maior e
2 menores ou 3 manifestações menores são suficientes para o diagnóstico.
Como toda regra tem sua exceção, o diagnóstico de
febre reumática não seria diferente. Coreia de Sydenham como manifestação única
faz diagnóstico, assim como cardite indolente meses após infecção
estreptocócica e febre reumática recorrente com história de acometimento agudo
sem pericardite ou envolvimento de nova válvula.
Em populações de moderado e alto riso de febre
reumática, são consideradas algumas modificações no diagnóstico que vimos anteriormente,
para não haver subdiagnóstico:
- Monoartrite e poliartralgia são considerados critérios
maiores com a poliartrite. No caso de poliartralgia, apenas se outras causas
forem excluídas; - Monoartralgia segue como critério menor;
- O corte do valor da febre deixa de ser acima de 38,5°C
e passa a ser acima de 38°C; - O valor de VHS passa a ser maior ou igual a 30mm/hora
em vez de maior ou igual a 60mm/hora. O valor de corte do PCR continua sendo
maior ou igual a 30mg/ml.
Lembrando que a confirmação da infecção estreptocócica
não é necessária, mas ajuda muito no diagnóstico de febre reumática aguda e
pode ser obtida por cultura positiva para estreptococo bela-hemolítico do grupo
A na faringe, por teste rápido positivo para antígeno estreptocócico ou então
pelo aumento de títulos do anticorpo anti-estreptocócico, seja o anti-ASLO ou
anti-DNase B.
Julia Maria Machinski
– Médica pela PUCPR
– @juliammachinski