A comunicação entre o médico e o paciente é a principal interação social na qual o médico está inserido em seu ambiente de trabalho, dela é possível extrair valiosas informações para o diagnóstico ideal e, portanto, conseguir cuidar devidamente do paciente
Introdução
A comunicação entre médico e seu paciente consiste na primeira parte de uma consulta médica, a anamnese, mas medeia todas as etapas do tratamento, sendo fundamental para o sucesso do diagnóstico e exige os atualmente conhecidos como soft skills, ou em português, habilidades interpessoais.
Tais habilidades são: saber ouvir, observar, compreender, possuir uma fala clara, objetiva e empática, saber se portar devidamente e criar um ambiente confortável para o paciente ser aberto. Com estas é possível transmitir ao paciente que o médico está ali porque se importa com sua saúde e não apenas cumprindo carga horária. É imprescindível e inegociável a percepção do indivíduo como um todo, com sentimentos, hábitos, debilidades, cultura e condições de vida diferentes para fornecer um serviço médico que o atenda com dignidade.
Formas de se comunicar
Quando é mencionado o termo: “interação médico-paciente” é comum vir à mente a ideia da comunicação verbalizada, o que não deixa de ser correto, mas se torna um erro quando limitado apenas a isso. A comunicação não falada, em muitos casos dizem mais que as palavras, muitas vezes o médico pode ficar quieto mas seu corpo fala, suas expressões podem demonstrar medo, tristeza, alegria, nojo, etc.; ter cuidado com a maneira que nosso corpo corresponde aos estímulos visuais e auditivos é importante para tornar coesa a mensagem que precisa ser transmitida.
Dentre as formas de comunicação não falada têm-se a Proxêmica, Cinésica, Tacêsica e a Paralinguagem.
Proxêmica
Consiste no estudo das distâncias físicas que os indivíduos estabelecem entre si durante uma interação social, em outras palavras como se aproximar de um paciente de maneira respeitosa, isto é, sem ser invasivo ou muito distante. Um exemplo de como a proxêmica é utilizada em consultas médicas é vista em um artigo de análise da comunicação proxêmica com pacientes com HIV / AIDS da Universidade de São Paulo, o qual recomenda que, durante a conversa, o médico sente-se na mesma altura do paciente e que olhe diretamente para o rosto afim de evitar que os pacientes se sintam envergonhados, inferiorizados ou discriminados.
Mostrando, assim, como a forma de aproximação do médico pode influenciar na maneira que o paciente vai considerar o atendimento, podendo bloquear o processo de comunicação, provocando no atendido uma expressão limitada e até fingida de seus verdadeiros sentimentos, medos e dúvidas.
Cinésica
Consiste no estudo do significado expressivo dos gestos e dos movimentos corporais como: posturas, expressões faciais, ou seja, estudo da linguagem corporal. Uma pesquisa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, feito para correlacionar a importância da boa prática da cinésica no atendimento geriátrico informou que durante a entrevista é muito importante ser discreto e atencioso, com olhar não invasivo, respeitando sua privacidade, vontade e autonomia, sendo cuidadoso e ético.
Além disso, no artigo é retratado que o paciente idoso busca a expressão dos sentimentos do médico e estão atentos a perceber carinho, nojo e até mesmo pressa. Evidenciando, portanto, que fatores cinésicos afetam o encaminhamento de uma consulta, sendo necessária a coesão entre o que é falado e a maneira que o corpo se comporta, o que significa dizer que para os pacientes apenas palavras positivas não entregam uma imagem positiva, é necessário ter um comportamento alinhado com a fala.
Tacêsica
Consiste no estudo do toque e todas as características que o envolvem como pressão exercida, local onde se toca, entre outros. Em uma situação de debilidade por doença, o paciente encontra-se em vulnerabilidade física e emocional, tornando o toque uma das maneiras mais importantes de demonstrar afeto, segurança, e valorização dele como ser humano. Logo, é essencial que o médico saiba como utilizar deste artifício da comunicação para melhorar a experiência de cura ou tratamento de um indivíduo.
Transparecer sentimentos bons é muito útil na recuperação de um paciente, existem estudos que comprovam que a liberação de endorfina produzidos pela sensação de se sentir acolhido podem diminuir a dor. O contato físico em si não é um acontecimento emocional, mas seus elementos sensoriais provocam alterações neurais, glandulares, musculares e mentais, as quais chamamos emoções. Por isso, muitas vezes o tato não é “sentido” como uma sensação e sim, efetivamente como emoção, pois o desenvolvimento da sensibilidade da pele depende, em grande parte, do tipo de estimulação ambiental recebida.
A tacêsica é uma forma de comunicação tão importante, que um estudo da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, verificou, em pacientes em coma, as reações ao manejo ou toque de profissionais de enfermagem e foi percebido que o paciente produzia reações não verbais e como tais reações poderiam guiar o atendimento, no estudo em questão foi analisado até mesmo uma melhora do quadro de saúde do paciente pelas suas expressões corporais provocadas pelo toque.
Paralinguagem
Consiste no conjunto de tom, timbre, intensidade e ritmo da voz, pausas, tipo de vocalização (riso, bocejos, suspiros, gritos) e até secreções vocais (“huum”, “aham”, “né”) que acompanham a fala e que revelam o estado psicológico e até mesmo o humor do falante. Para alguns autores é considerada comunicação não verbal e para outros se enquadra em uma classificação única, a paraverbal; contudo é consenso de que não se trata de uma comunicação verbal. Um artigo da Universidade Estadual de São Paulo deixa mais claro como a paralinguagem auxilia o atendimento médico, em um estudo no qual foi avaliado como ela influi na comunicação com idosos. Neste foi constatado que é importante o profissional de saúde estar atento para dar respostas não verbais de incentivo para o paciente continuar sua fala, se sentir ouvido e compreendido, até mesmo o silêncio comunicando que a pessoa pode prosseguir e acrescentar informações. Tais pausas ou o uso de interjeições podem parecer detalhes, mas fazem muita diferença no resultado final da comunicação.
Conclusão
É importante perceber o quão cuidada uma pessoa pode se sentir quando bem tratada em momentos de fragilidade, vulnerabilidade e impotência diante da falta de conhecimento para lidar com seus problemas de ordem física, psicológica e emocional, durante uma consulta. Por isso a comunicação, é extremamente importante porque o médico é um canal de boas ou más notícias. Saber transmiti-las através de conhecimento técnico não é o suficiente, saber como transmiti-las é muito importante, contudo, isso não significa dizer que o paciente quer apenas se sentir acolhido emocionalmente, ele quer se sentir seguro nas mãos de um profissional competente.
Larissa Amaral – Estudante de Medicina UNIRIO
Instagram: @lari_amar
Referências:
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- Schimidt, Teresa Cristina Gioia. Paralinguagem como recurso comunicacional com o idoso hospitalizado. Enfermagem Brasil. V. 16. N. 4, 2017. Disponível em <https://portalatlanticaeditora.com.br/index.php/enfermagembrasil/article/view/1257/2382> Acesso em: 12 maio 2021.
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