Introdução
Passado um ano do início da pandemia de COVID-19, muito já se descobriu a respeito da doença, porém, estamos longe de saber todos os mecanismos, todas as repercussões clínicas provocadas por ela e todas as sequelas que alguns indivíduos poderão apresentar.
A COVID-19 tem por agente etiológico o SARS-COV-2, vírus de RNA com alta capacidade de replicação e mutação, que adentra a célula se utilizando do receptor da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE2). Sendo assim, uma doença sistêmica, que se mostrou altamente infectante, exatamente por essa alta e constante taxa de infecção, variantes do vírus vêm sendo identificas em diversos pontos do planeta, sendo algumas como as variantes P1 e D614G.
Essas variantes se mostram com mutações em proteína Spike, sendo elas capazes de aumentar sua ligação e entrada celular. Tem-se detectado variantes com mutação genética conformacional em que a proteína Spike tem uma maior afinidade de ligação sendo ainda mais infectante do que a primeira cepa surgida em Wuhan no ano de 2019.
Os vírus da família Coronavírus são vírus causadores de infecções respiratórias, e foi um vírus dessa família que, no ano de 2002, foi responsável pelos inúmeros casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave, recebendo assim o nome de SARS-COV, infectou uma média de oito mil pessoas, sendo oitocentas levadas a óbito. Apesar de termos tido alguns casos no Brasil, a epidemia se manteve em território asiático. Em 2012 foi a vez do MERS-COV, causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio, que se manteve em Península Arábica, os casos fora da Península se reservaram a pessoas que viajaram para lá, teve um impacto ainda menor do que o SARS-COV. Quando em 2019 foram detectados os primeiros casos de infecção pelo SARS-COV-2, já se sabia de sua capacidade de levar à Síndrome Respiratória, como os demais vírus de sua família, porém, ainda não se tinha conhecimento de sua alta transmissibilidade e sua capacidade de atingir de forma tão agressiva os demais sistemas.

O coração e suas funções
Orgão motriz do sistema circulatório, que por sua vez, é responsável por levar o oxigênio aos tecidos e trazer o CO2 aos pulmões, possibilitando assim a troca gasosa, responsável pela circulação de nutrientes, comunicação celular e muito importante ao sistema imune, pois, através da circulação sanguínea as células de defesa chegarão ao local afetado, dentre outras funções vitais. O coração, enquanto centro vital de todo esse processo, necessita estar íntegro, rítmico, sem nenhuma alteração em qualquer uma de suas funções.

Covid-19 e o comprometimento de diversos sistemas
Diversos sistemas são lesionados, principalmente em formas graves da COVID-19. Como visto em diversos estudos e comprovado ao longo da pandemia na observação da evolução clínica dos pacientes, o vírus SARS-COV-2, além de se ligar ao receptor ACE2, levando a entrada do vírus nos diversos tecidos, inclusive células cardíacas, pode levar a formação de microtrombos em diversas regiões.
Devido à junção de ação viral e resposta exacerbada do sistema imune, o paciente pode apresentar um quadro de hiperinflamação, disfunção endotelial, hiperativação plaquetária e hipercoagulabilidade, levando assim à predisposição a um quadro de tromboses venosas e arteriais. Por sua vez, esses microtrombos podem levar à obstrução comprometendo assim o sistema circulatório e isquemia em diversos tecidos, levando a um risco elevado de acidente vascular cerebral isquêmico e infarto do miocárdio.


Complicações pós-COVID-19
Biomarcadores cardíacos anormais são comuns durante a COVID-19, seja pela própria entrada do vírus nos cardiomiócitos, seja pela lesão tecidual causada pela resposta inflamatória.
A patogenicidade do SARS-COV-2 pode aumentar a chance de danos ao miocárdio, com prevalência em pacientes com a forma grave da doença, sobretudo, os que necessitaram de cuidados intensivos. Dados sugerem, lesão cardíaca aguda (7,2%), choque (8,7%) e arritmia (16,7%).
Em se tratando da COVID-19, seja a insuficiência cardíaca nova ou já existente, apresenta grandes desafios que complicam em sua apresentação, manejo e prognóstico, pois, apresenta consideráveis implicações diagnósticas e hemodinâmicas. A fisiopatologia das lesões em miocárdio se associa ao fato do SARS-COV-2 se utilizar do receptor da Enzima Conversora da Angiotensina 2, alvo da proteína S, sendo várias as vias existentes para a lesão em miocárdio, dentre elas, infarto agudo do miocárdio, miocardite, vasculite ou outros mecanismos relacionados a estresse, trombose ou inflamação.
Em estudo feito por pesquisadores da Alemanha, em julho de 2020, e publicado na revista Jama Cardiology, 100 pacientes pós-COVID-19 foram acompanhados e submetidos a exame de Ressonância Magnética, 60 deles apresentavam indícios de miocardite e um número ainda maior apresentava níveis elevados de troponina, 3 deles apresentaram lesões graves e foram submetidos à biópsia, onde foi detectada inflamação ativa em cardiomiócitos. Os pacientes eram relativamente jovens (média de 49 anos de idade), sendo que muitos deles tiveram sintomas leves e alguns foram assintomáticos para a doença.


Conclusão
Estudos apontam que pacientes pós-COVID-19, mesmo com sintomas leves ou assintomáticos, podem vir a apresentar níveis elevados de troponina e lesões em miocárdio, cujos diagnósticos podem ocorrer até meses após a infecção.
Cristiane Medeiros
@cris_.med
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