Confira neste artigo tudo o que você precisa saber sobre como manejar um caso de automutilação na emergência!
A automutilação tem impacto significativo na vida dos indivíduos. Isso ocorre porque podemos caracterizá-la como uma doença crônica grave, que pode ocasionar riscos físicos, sociais e educacionais aos indivíduos.
Assim, de acordo com dados científicos, países como Inglaterra e País de Gales já têm mais de 140.000 casos anuais de automutilação. No Brasil, segundo site da Fiocruz, a taxa de suicídios entre jovens aumentou 6% durante o período de 2011 a 2022
O que é automutilação?
A automutilação consiste em uma forma que o indivíduo busca para se punir, de forma consciente ou inconsciente. Sendo assim, é um comportamento de autodestruição em que a agressividade é voltada para o próprio paciente. Essa prática costuma ser repetitiva e pode ocorrer mais de 50 atos em um mesmo indivíduo.
As formas mais frequentes de automutilação são:
- Cortes superficiais;
- Queimaduras;
- Arranhões;
- Mordidas;
- Bater partes do corpo contra parede; e
- Cutucar ferimentos.
É importante salientar que pode não haver intenção consciente de suicídio por parte desses indivíduos. Assim, entre o público mais afetado por essa patologia, estão as crianças e adolescentes, podendo o comportamento perdurar até a fase adulta.
A explicação dessa faixa etária ser a mais atingida está na dificuldade de pedir ajuda. Dessa forma, compreende que essa dificuldade deixa os jovens mais vulneráveis ao sofrimento psíquico.
Sendo assim, desde 2019, foi instituída a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, a partir da Lei n° 13.819/2019. Desse modo, essa Lei busca ampliar a notificação compulsória e devem ser computados casos que chegam nos:
- Serviços de saúde;
- Estabelecimentos de ensino públicos e privados; e
- Conselhos tutelares.
Além disso, está proposto que as instituições informem e treinem seus profissionais, visto que é uma patologia que está em crescimento.
Tipos de automutilação na emergência
A automutilação é dividida em quatro categorias, baseadas em critérios clínicos. São elas:
- Automutilação do tipo Estereotipado: comportamentos repetitivos, com lesões com o mesmo padrão. Pode variar de ferimentos leves a graves;
- Automutilação do tipo grave: lesões que colocam a vida do paciente em risco;
- Mutilação do tipo compulsivo: ocorre várias vezes durante o mesmo dia e diariamente; e
- Automutilação do tipo impulsivo: atos agressivos que incluem não só corte da própria pele, como se queimar e se bater.
Fatores de risco para automutilação
Alguns estudos mostram fatores de risco para automutilação, dentre os principais estão:
- Experiências traumáticas;
- Características pessoais como: insegurança, instabilidade emocional e impulsividade;
- Transtornos psiquiátricos: transtorno de personalidade Boderline, ansiedade, depressão e transtornos alimentares;
- Problemas relacionados à infância.
Como diagnosticar um caso de automutilação?
Existem comportamentos que indicam a prática de automutilação e o médico deve estar preparado para identificá-los. Para isso, o profissional da saúde também poderá contar com a ajuda de familiares. Assim, é necessário identificar se o paciente tem o hábito de vestir calças e blusas de manga compridas, mesmo durante o verão. Além disso, observar se há presença de cicatrizes sem causa aparente.
Dessa forma, esses indivíduos também podem apresentar alterações psicossociais, preferência por isolamento social, cenários de impulsividade, irritabilidade, autocrítica e diminuição da higiene pessoal.
O livro “Psiquiatria, Saúde Mental e a Clínica da Impulsividade”, publicado em 2015, mostra 6 perguntas imprescindíveis que auxiliam durante a investigação:
- Alguma vez você cortou ou fez vários pequenos cortes na sua pele?
- Alguma vez você se feriu de alguma forma e desejou esse ferimento?
- Quando fez alguns dos atos, você estava tentando se matar?
- Você sente algum tipo de alívio quando provoca esses ferimentos?
- Você costuma ter esse tipo de comportamento diante das pessoas com quem convive?
- Quanto tempo você gasta pensando em fazer esse ato antes de realmente executá-lo?
Protocolo para casos de automutilação na emergência
Ao identificar um paciente com a prática da automutilação, o médico deverá realizar uma notificação sobre o caso. O primeiro passo será realizar o tratamento das lesões para que aquele paciente não corra risco de vida.
Além disso, é necessário criar um ambiente acolhedor para esse indivíduo, para que não haja negligência das dores psicológicas do paciente.
Dessa forma, será possível estabelecer uma relação de confiança e afetividade, buscando dialogar continuamente.
É importante também demonstrar ao paciente que os problemas podem ser solucionados. Desse modo, caso o médico do atendimento inicial não seja psiquiatra, é indicado que haja uma referência para esse profissional especializado em saúde mental.

Referência bibliográfica
- SCIVOLETTO, S. Automutilação: características clínicas e comparação com pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5142/tde-03102013-113540/publico/JackelineSuzieGiusti.pdf>. Acesso em 09 de Agosto de 2022.
- CONSELHO REGIONAL DE PSICOLOGIA DO DF. Orientações para a atuação profissional frente a situações de suicídio e automutilação. Disponível em: <http://conselho.saude.gov.br/images/CRPDF-Orientacoes_atuacao_profissional.pdf>. Acesso em 09 de Agosto de 2022.