O transtorno do espectro autista (TEA) é um grupo de transtornos que se caracteriza por alterações nas relações sociais, na comunicação e linguagem e na inflexibilidade do pensamento. Se caracteriza por ser diagnosticado antes dos 36 meses, sendo colocado pelo DSM-V como um transtorno do neurodesenvolvimento.
Dentro dos TEA, podemos identificar 5 entidades diferentes:
- Autismo clássico: Segundo o DSM-V o autismo se caracteriza pelo atraso ou alteração do funcionamento antes dos 36 meses em um ou mais dos seguintes: interação social e comunicação, padrões de comportamento, interesses e atividades restritas, repetitivas e estereotipadas. Esses sintomas causam limitações significativas nas habilidades sociais.
- Síndrome de Asperger: se considera uma forma de autismo onde o paciente tem alteração nas interações sociais e restrição no rango de interesses, porém não tem alterações de linguagem e a inteligência é normal ou superior.
- Síndrome de Heller: também chamada de transtorno desintegrativo da infância, é uma síndrome rara onde a criança se desenvolve normalmente até os 2 anos. A partir dessa idade, começa uma regressão do desenvolvimento, ocasionando danos nas interações sociais, comunicação e desenvolvimento motor, o que leva, inclusive, à perda do controle dos esfíncteres anal e vesical. Essa apresentação tardia da enfermidade levou à muitas teorias de que a vacina causaria autismo, devido à coincidência entre a fase de início dos sintomas e a fase de colocação de vacinas.
- Síndrome de Rett: é um diagnóstico exclusivo do sexo feminino, devido a uma mutação no gene que codifica uma proteína chamada MECP2, a qual participa na expressão e modulação dos genes do cromossomo X. No sexo masculino, essa deficiência no único cromossomo X leva à morte precoce. No sexo feminino o outro cromossomo X compensa. Essa alteração provoca uma regressão do desenvolvimento normal do cérebro no primeiro ano de vida, causando dificuldades na movimentação, na fala e introspecção.
- Transtorno global do desenvolvimento: os pacientes se apresentam com um severo transtorno do desenvolvimento de habilidades sociais de comunicação e interação, comportamento e atividades estereotipada, porém não cumprem os critérios das outras síndromes descritas.
O comportamento estereotipado e a pandemia
Como foi descrito, ainda que sejam entidades diferentes, os TEA possuem pontos em comum, sendo um deles o padrão repetitivo e rígido de comportamento e interesses. Tais pacientes possuem uma adesão excessiva à rotina, transformando-a praticamente em um ritual. Isso quer dizer que as mudanças, ainda que pequenas, acabam gerando ansiedade e medo.
Em 2020 o mundo foi surpreendido por uma pandemia que acabou gerando uma realidade diferente para todos. Tivemos que aprender a trabalhar e estudar dentro de casa, perdemos (ou deveríamos ter perdido), grande parte do convívio social. A rotina foi totalmente transformada e readaptada como uma tentativa de controlar o avanço da contaminação pelo SARS-Cov 2.
Se para pessoas consideradas normais, isso foi um desafio, para os indivíduos com TEA, principalmente as crianças, o impacto foi muito maior. A mudança dos hábitos e costumes gerou repercussão. Responsáveis e cuidadores tiveram que se readaptar e trabalhar a criatividade para manter o interesse das crianças nas atividades escolares remotas. Um estudo feito em Portugal, no ano de 2020, mostrou que durante o isolamento social, as crianças diagnosticadas dentro do espectro demonstraram mudanças no comportamento, problemas com a gestão de emoções e aumento da ansiedade. O aumento dos níveis de ansiedade foi observado principalmente naquelas crianças que não puderam manter a rotina. Outro estudo, feito na Irlanda no ano de 2021, demonstrou que as essas crianças tinham um maior entendimento sobre a problemática do vírus, o que provocou, além da ansiedade, um medo desmedido das consequências da infecção pelo vírus da COVID-19.
O que pode ser feito para atenuar esse impacto
Ainda que seja um processo custoso, o isolamento social é um dos principais meios de conter a pandemia. Para que esse período seja menos desafiador, tanto para a criança portadora do TEA, quanto para seus cuidadores, é possível tomar algumas medidas facilitadoras, como:
- Seguir o máximo possível a rotina que existia antes da pandemia, ou seja, manter horários de atividades escolares, ainda que remotas;
- Manter o contato social que possuía, seja por videochamadas ou chamada de voz;
- Explorar a criatividade da criança com jogos e atividades intelectuais;
- Explicar claramente o cenário atual para a criança, de modo simples e claro, de acordo com o seu nível de compreensão e afastando-as de fake news, de modo que ela se sinta segura com seus familiares ou cuidadores;
- Praticar atividades físicas rotineiramente;
- Ter cuidado com o excesso de uso de celulares, jogos online e televisão, de modo a evitar o exagero;
- Manter os atendimentos necessários para o desenvolvimento da criança, como psicólogos, fonoaudiólogos, psiquiatras, por videochamada, se possível.
Vale lembrar que os profissionais de saúde que acompanham esses pacientes devem ser alicerces e têm o dever de orientar os familiares a respeito da gravidade da pandemia e da importância das medidas de distanciamento, assim como afastar notícias falsas que possam trazer desespero à essas famílias.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais: DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2014.
Autismo e os novos desafios impostos pela pandemia da COVID-19. Disponível em: revistadepediatriasoperj.org.br/detalhe_artigo.asp?id=1098
Crianças com transtorno do espectro autista em tempos de pandemia: contextos de inclusão/exclusão na educação infantil. Disponível em: Crianças com transtorno do espectro autista em tempos de pandemia: contextos de inclusão/exclusão na educação infantil | Zero-a-Seis (ufsc.br)