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ILAE atualiza classificação das crises epilépticas: o que muda na prática clínica em 2025

Imagem de ressonâncias magnéticas do encéfalo exibidas em uma tela, destacando estruturas cerebrais relevantes para o diagnóstico de epilepsia.

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A International League Against Epilepsy (ILAE) publicou, neste ano de 2025, uma nova versão da classificação operacional das crises epilépticas, atualizando o modelo de 2017. A revisão busca tornar o sistema mais funcional, claro e aplicável globalmente — desde contextos com poucos recursos até centros especializados em epilepsia e neurofisiologia. Além disso, o documento reflete uma preocupação crescente com a padronização internacional.

Embora não represente uma ruptura estrutural, o documento introduz ajustes conceituais e terminológicos que refletem avanços científicos e necessidades práticas da neurologia contemporânea, muito importante para a prática clínica.

Como evoluiu a classificação das crises epilépticas até a ILAE 2025?

A classificação das crises epilépticas sempre foi dinâmica, acompanhando o avanço da neurociência e das tecnologias diagnósticas. Portanto, cada revisão historicamente buscou maior clareza e precisão.

  • Década de 1980: A ILAE estruturou as primeiras classificações amplamente aceitas, baseadas sobretudo na observação clínica e no EEG interictal. Termos como parcial, generalizada e não classificada predominavam.
  • 2001–2010: Começa uma revisão conceitual influenciada pela neuroimagem, pelo entendimento das redes neuronais e pela necessidade de padronização internacional.
  • 2017: Surge a primeira “classificação operacional”, incluindo o termo focal no lugar de parcial, introduzindo descritores motores/não motores e incorporando o conceito de consciência (“awareness”) como classificador.
  • 2025: A nova versão (ILAE 2025) corrige limitações percebidas na adoção prática da classificação anterior e incorpora a evolução do entendimento semiológico e eletrofisiológico das crises. Portanto, busca corrigir inconsistências, aumentar aplicabilidade clínica e padronizar linguagem global.

Assim, a classificação de 2025 não apenas atualiza nomenclaturas, mas reflete um processo histórico contínuo de busca por precisão e aplicabilidade clínica.

Por que a atualização foi necessária?

O novo texto surge oito anos após a versão anterior, intervalo considerado adequado segundo padrões internacionais. Além disso, a revisão da ILAE 2025 responde a pontos-chave:

  • Dificuldades na implementação clínica da versão de 2017;
  • Problemas de tradução de termos técnicos, como awareness, para idiomas como português, espanhol e árabe;
  • Necessidade crescente de aplicabilidade em avaliação pré-cirúrgica, na qual a sequência semiológica tem valor crítico;
  • Demanda por maior clareza para médicos generalistas e profissionais de contextos primários.

Dessa forma, a atualização foi conduzida por um grupo internacional diverso, seguindo metodologia Delphi e incluindo ampla participação de revisores e contribuições públicas. Consequentemente, aproximadamente metade da força-tarefa foi renovada, garantindo pluralidade de perspectivas.

O que muda na nova classificação?

1. Consciência redefinida com base em responsividade

O termo consciência continua sendo um classificador essencial das crises focais e de origem desconhecida, mas agora passa a ser definido operacionalmente pela capacidade de resposta e lembrança durante o evento. Assim, o conceito torna-se mais objetivo.

2. Fim da dicotomia motor/não motor

A divisão entre manifestações motoras e não motoras foi retirada. A classificação passa a priorizar a presença ou ausência de manifestações observáveis — abordagem mais prática em cenários sem EEG. Entretanto, alguns profissionais relatam receio de perda de clareza inicial.

3. Maior ênfase na sequência semiológica

A classificação avançada considera a sequência temporal dos sinais ictais, e não apenas o primeiro sintoma. Isso é especialmente útil na epilepsia refratária e na seleção de candidatos à cirurgia. Portanto, a prática clínica tende a se beneficiar diretamente.

4. Redução e reorganização dos tipos de crise

O número total de categorias foi reduzido de 63 para 21, em uma estrutura mais lógica, hierárquica e adequada ao ensino e aos bancos de dados clínicos. Desse modo, a documentação ganha maior clareza e padronização.

5. Harmonização terminológica

A nova versão não introduz termos inéditos. A intenção é facilitar a adesão global e reduzir ambiguidades. Dessa forma, a comunicação entre profissionais ganha mais uniformidade.

Continuidade e adaptação

A estrutura geral permanece alinhada ao modelo anterior, garantindo transição suave para centros que já utilizavam a classificação das crise epilépticas de 2017. Além disso, a versão básica continua indicada para cenários de baixa complexidade, enquanto a avançada permite maior precisão diagnóstica em centros especializados.
Materiais educacionais adicionais serão publicados na Epileptic Disorders e na plataforma ILAE Academy. Assim, os profissionais terão suporte contínuo para adaptação.

Aplicabilidade prática para neurologistas: o que realmente muda no consultório e no hospital

1. Anamnese e descrição semiológica mais estruturada

A ênfase na sequência ictal incentiva o neurologista a perguntar de forma mais detalhada a ordem dos sintomas: início, progressão e manifestações tardias. Isso melhora a correlação topográfica (ex.: início somatossensorial → propagação motora → automatismos).

2. Relatórios mais claros para encaminhamento e referenciação

A nova classificação facilita a comunicação entre clínicos gerais, neurologistas e epileptologistas, especialmente em contextos com pouco acesso a EEG ou vídeo-EEG. Assim, descrever “crise focal com alteração da responsividade e manifestações observáveis” torna-se mais operacional do que termos antigos e ambíguos.

3. Maior acurácia na avaliação pré-cirúrgica

Para centros que fazem vídeo-EEG, a valorização da sequência semiológica melhora a identificação de redes epileptogênicas. Além disso, a reorganização em 21 tipos de crise facilita codificação em sistemas como REDCap ou bancos de dados de epilepsia.

4. Educação do paciente e da família

Termos mais intuitivos e menos técnicos favorecem explicações compreensíveis. Como resultado, isso impacta adesão ao tratamento, percepção de risco e manejo das expectativas sobre cirurgia.

5. Impacto na escolha terapêutica

Embora a classificação não determine tratamento, ela aprimora a caracterização do tipo de crise — especialmente útil para identificar crises focais de rápida generalização, crises psicomotoras mal definidas e eventos com responsividade preservada que poderiam ser confundidos com distúrbios não epilépticos.

6. Melhor padronização na documentação clínica

Centros com grande volume de atendimentos (ambulatórios, pronto-socorro e enfermarias) se beneficiam de uma linguagem mais objetiva para evoluções, prontuários e laudos.

Críticas à nova classificação de 2025

Embora bem recebida, a atualização gerou debates entre epileptologistas, neurologistas e clínicos gerais. As principais críticas incluem:

1. Ambiguidade persistente em torno do conceito de “consciência”

Mesmo com a tentativa de operacionalizar o termo, muitos especialistas argumentam que:

  • Responsividade não equivale à consciência — pacientes podem estar responsivos, mas com consciência alterada, e vice-versa;
  • Não há definição neurobiológica precisa;
  • O conceito ainda depende da observação subjetiva do examinador.

Crítica recorrente: A ILAE tentou corrigir o problema, mas manteve um termo conceitualmente difícil e de baixa reprodutibilidade.

2. Preocupação com a remoção dos descritores motor / não motor

Muitos neurologistas consideravam a distinção útil, especialmente na educação médica e na comunicação rápida em emergências.

Argumentos contrários à mudança:

  • A dicotomia auxiliava no raciocínio clínico inicial;
  • Sua remoção pode dificultar ensino para estudantes e generalistas;
  • Centros sem vídeo-EEG frequentemente se baseiam justamente na presença ou ausência de manifestações motoras.

3. Maior complexidade para não especialistas

Apesar da promessa de simplificação, alguns profissionais afirmam que:

  • A ênfase na sequência semiológica pode ser difícil de aplicar em pronto-socorros e unidades com alta demanda;
  • Coleta de detalhes finos da semiologia exige tempo e experiência;
  • O modelo avançado pode afastar clínicos gerais por parecer muito técnico.

4. Redução do número de categorias: ganhos e perdas

Embora a simplificação seja bem-vinda, alguns epileptologistas consideram que:

  • Crises de apresentação rara ficaram mais difíceis de classificar;
  • Alguns perfis semiológicos sutis podem ser agrupados em categorias excessivamente amplas;
  • A redução pode comprometer a precisão para fins de pesquisa.

5. Dúvidas sobre aplicabilidade em crianças

Pediatras levantaram preocupações:

  • Crianças pequenas frequentemente não são capazes de relatar memória ou responsividade;
  • Muitas manifestações ictais pediátricas são sutis, o que dificulta a aplicação do critério “observável ou não observável”.

6. Dados limitados de validação

Alguns centros destacaram que a classificação foi revisada antes que houvesse validação robusta da versão 2017. Assim, teme-se repetir o ciclo de revisões sucessivas sem base empírica suficiente.

Conclusão

A classificação de crises epilépticas da ILAE 2025 representa um esforço de refinamento técnico, harmonização terminológica e pragmatismo clínico. Com foco em clareza, globalidade e usabilidade, a nova versão aproxima especialistas e generalistas, facilita o planejamento terapêutico e contribui para diagnósticos mais precisos especialmente quando integrada à educação continuada e ao aprimoramento da prática semiológica.

Referências

  1. Beniczky S, Trinka E, Wirrell E, et al. Updated classification of epileptic seizures: Position paper of the International League Against Epilepsy. Epilepsia. 2025;00:1–20.
  2. Beniczky S, Trinka E, Wirrell E, et al. Updating the ILAE seizure classification: Commentary. Epilepsia. 2025;00:1–3.








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