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CID J36: Abscesso periamigdaliano
J36
Abscesso periamigdaliano
Mais informações sobre o tema:
Definição
O abscesso periamigdaliano (APA) é uma infecção supurativa aguda do espaço periamigdaliano, localizado entre a cápsula da amígdala palatina e a fáscia constritora superior da faringe. Caracteriza-se pela formação de uma coleção purulenta, geralmente unilateral, que resulta da extensão de uma amigdalite aguda ou faringite, com disseminação bacteriana através da cápsula amigdaliana. Esta condição representa a infecção profunda de cabeça e pescoço mais comum em adultos, sendo considerada uma emergência otorrinolaringológica devido ao risco de complicações graves, como obstrução das vias aéreas, mediastinite ou trombose séptica do seio cavernoso. Epidemiologicamente, acomete predominantemente adolescentes e adultos jovens, com pico de incidência entre 20 e 40 anos, e está frequentemente associada a episódios recorrentes de amigdalite ou história de amigdalectomia incompleta.
Descrição clínica
O abscesso periamigdaliano manifesta-se classicamente como uma infecção aguda, com início súbito de odinofagia intensa, frequentemente unilateral, disfagia progressiva (dificuldade para deglutir até mesmo saliva), otalgia referida (dor no ouvido ipsilateral), trismo (espasmo dos músculos pterigóideos, limitando a abertura da boca) e voz abafada ("voz de batata quente"). Ao exame físico, observa-se desvio da úvula para o lado contralateral, edema e eritema do pilar amigdaliano anterior, com abaulamento da região periamigdaliana, podendo haver flutuação à palpação. Febre, mal-estar geral e linfadenopatia cervical ipsilateral são comuns. A progressão rápida dos sintomas, com piora em 24-48 horas, diferencia esta condição de uma amigdalite simples.
Quadro clínico
O quadro clínico é agudo, com evolução rápida (2-5 dias). O paciente apresenta dor de garganta intensa, unilateral, que irradia para o ouvido ipsilateral, dificuldade para abrir a boca (trismo), disfagia progressiva (dificuldade para engolir líquidos e sólidos), sialorreia (salivação excessiva), voz abafada e halitose. Febre (38-40°C), calafrios, mal-estar e linfadenopatia cervical dolorosa são frequentes. Ao exame orofaríngeo, observa-se abaulamento assimétrico da região periamigdaliana, com desvio da úvula para o lado oposto, eritema e edema do pilar amigdaliano anterior, e possível flutuação. Em casos avançados, pode haver estridor ou dificuldade respiratória, indicando risco iminente de obstrução das vias aéreas.
Complicações possíveis
Obstrução das vias aéreas
Edema e compressão da faringe podem levar a estridor, dispneia e insuficiência respiratória aguda, requerendo intubação ou traqueostomia de emergência.
Mediastinite
Extensão da infecção para o mediastino através dos espaços fasciais do pescoço, com alta mortalidade se não tratada prontamente.
Trombose séptica do seio cavernoso
Disseminação hematogênica da infecção para o seio cavernoso, causando oftalmoplegia, proptose e alterações do nível de consciência.
Abscesso retrofaríngeo ou parafaríngeo
Extensão da infecção para espaços adjacentes do pescoço, requerendo drenagem cirúrgica mais extensa.
Sepse
Disseminação sistêmica da infecção, com risco de choque séptico e falência de múltiplos órgãos.
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O abscesso periamigdaliano tem uma incidência estimada de 30-40 casos por 100.000 pessoas/ano em países desenvolvidos, sendo mais comum em adolescentes e adultos jovens, com pico entre 20 e 40 anos. Acomete ligeiramente mais homens do que mulheres (razão 1,5:1). Fatores de risco incluem amigdalite recorrente, tabagismo, imunossupressão (ex.: HIV, diabetes mellitus) e má higiene oral. Não há sazonalidade definida, mas pode ser mais frequente em períodos de maior incidência de infecções respiratórias. A incidência diminuiu com o uso de antibioticoterapia adequada para amigdalite, mas permanece uma causa significativa de morbidade em serviços de emergência.
Prognóstico
O prognóstico do abscesso periamigdaliano é geralmente bom com diagnóstico precoce e tratamento adequado, que inclui drenagem do abscesso e antibioticoterapia. A maioria dos pacientes apresenta melhora significativa em 24-48 horas após a drenagem. Complicações graves são raras (<5% dos casos) quando tratadas prontamente, mas a mortalidade pode chegar a 1-2% em casos de mediastinite ou trombose do seio cavernoso. Recorrência ocorre em cerca de 10-15% dos pacientes, especialmente naqueles com história de amigdalite recorrente, sendo indicada amigdalectomia eletiva após resolução do episódio agudo.
Critérios diagnósticos
O diagnóstico do abscesso periamigdaliano é clínico, baseado na história e exame físico característicos. Critérios incluem: 1) Odinofagia unilateral intensa com evolução rápida; 2) Trismo (abertura bucal < 3 cm); 3) Desvio da úvula para o lado contralateral; 4) Abaulamento do pilar amigdaliano anterior ou região periamigdaliana; 5) Febre e sinais sistêmicos de infecção. A confirmação pode ser auxiliada por imagem, como ultrassonografia intraoral ou tomografia computadorizada de pescoço, que demonstram coleção líquida no espaço periamigdaliano. A aspiração por agulha do abscesso, com drenagem de pus, confirma o diagnóstico e é terapêutica.
Diagnóstico diferencial
Condições que devem ser consideradas no diagnóstico diferencial
Amigdalite aguda
Infecção das amígdalas palatinas, bilateral, sem trismo significativo ou desvio da úvula. A dor é menos intensa e a disfagia é menos proeminente.
UpToDate: 'Peritonsillar cellulitis and abscess'
Celulite periamigdaliana
Inflamação do espaço periamigdaliano sem formação de abscesso. Apresenta sintomas semelhantes, mas sem flutuação ou coleção purulenta ao exame ou imagem.
Diretrizes Brasileiras de Otorrinolaringologia
Abscesso retrofaríngeo
Infecção do espaço retrofaríngeo, mais comum em crianças, com dor de garganta, rigidez de nuca e possível massa posterior na faringe. Pode causar obstrução das vias aéreas, mas sem trismo proeminente.
PubMed: 'Deep neck infections: a review'
Epiglotite aguda
Inflamação da epiglote, com dor de garganta, febre, estridor e dificuldade respiratória, mas sem trismo ou abaulamento periamigdaliano. Mais comum em crianças não vacinadas contra Haemophilus influenzae tipo b.
Micromedex: 'Epiglottitis'
Neoplasia de orofaringe
Tumores da região amigdaliana podem simular um abscesso, mas geralmente têm evolução mais lenta, sem febre ou sinais agudos de infecção. Requer biópsia para confirmação.
OMS: Classificação de Tumores da Cabeça e Pescoço
Exames recomendados
Aspiração por agulha
Procedimento diagnóstico e terapêutico, realizado sob anestesia local, para drenagem do pus e confirmação do abscesso.
Confirmar diagnóstico, obter material para cultura e sensibilidade, e aliviar sintomas.
Ultrassonografia intraoral
Exame de imagem não invasivo, realizado com transdutor intraoral, para visualizar coleção líquida no espaço periamigdaliano.
Diferenciar celulite de abscesso, guiar aspiração e avaliar extensão.
Tomografia computadorizada de pescoço com contraste
Exame de imagem de alta resolução, indicado em casos de diagnóstico duvidoso ou suspeita de complicações.
Avaliar extensão do abscesso, descartar outras infecções profundas de pescoço e planejar intervenção cirúrgica.
Hemograma completo
Exame laboratorial para avaliar leucocitose com desvio à esquerda, indicando infecção bacteriana.
Confirmar resposta inflamatória sistêmica e monitorar resposta ao tratamento.
Cultura e antibiograma do material aspirado
Análise microbiológica do pus drenado para identificar patógenos e orientar terapia antimicrobiana.
Direcionar antibioticoterapia empírica e detectar resistências.
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Uso de antibioticoterapia empírica apropriada para amigdalite bacteriana, seguindo diretrizes, para prevenir complicações como APA.
Higiene oral adequada
Escovação dental regular, uso de fio dental e visitas ao dentista para reduzir carga bacteriana oral.
Evitar tabagismo
O tabaco predispõe a infecções respiratórias e piora a resposta inflamatória.
Amigdalectomia em casos selecionados
Indicada para pacientes com amigdalite recorrente ou história de APA, para prevenir episódios futuros.
Vigilância e notificação
O abscesso periamigdaliano não é uma doença de notificação compulsória nacional no Brasil, conforme Portaria GM/MS nº 204/2016. No entanto, casos com complicações graves, como sepse ou surtos associados a patógenos específicos (ex.: Streptococcus pyogenes), podem ser notificados como eventos de saúde pública local. A vigilância é realizada por meio de sistemas de informação hospitalar (ex.: SIH-SUS) e vigilância de infecções relacionadas à assistência à saúde (IRAS) em serviços que realizam procedimentos invasivos. Recomenda-se monitorar tendências epidemiológicas e padrões de resistência antimicrobiana em serviços de referência.
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O abscesso periamigdaliano é uma complicação supurativa da amigdalite, caracterizada por formação de pus no espaço periamigdaliano, com sintomas mais graves como trismo, desvio da úvula e risco de obstrução das vias aéreas, enquanto a amigdalite é uma inflamação das amígdalas, geralmente bilateral e sem essas complicações.
O tratamento envolve drenagem do abscesso (por aspiração ou incisão) e antibioticoterapia intravenosa de amplo espectro (ex.: penicilina G cristalina com ou sem metronidazol), seguida de antibioticoterapia oral. Suporte com hidratação, analgesia e monitorização das vias aéreas é essencial.
As complicações mais graves incluem obstrução das vias aéreas, mediastinite, trombose séptica do seio cavernoso e sepse, que podem ser fatais se não tratadas prontamente.
Não, o abscesso em si não é contagioso, mas os patógenos bacterianos subjacentes (ex.: Streptococcus pyogenes) podem ser transmitidos por gotículas respiratórias, podendo causar amigdalite ou faringite em contatos próximos.
A amigdalectomia está indicada eletivamente, geralmente 4-6 semanas após a resolução do episódio agudo, em pacientes com história de amigdalite recorrente, múltiplos episódios de abscesso ou complicações graves, para prevenir recorrências.
Editorial Sanarmed
Este conteúdo foi desenvolvido pela equipe médica e editorial da Sanar, plataforma líder em educação médica no Brasil. Nosso compromisso é fornecer informações médicas precisas, atualizadas e baseadas em evidências.
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