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Casos Clínicos?: Esteato-Hepatite Não Alcoólica | Ligas

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Apresentação do caso clínico

B.B.B., sexo masculino, de 58 anos, comerciante,
branco, natural e residente de Salvador, encaminhado para a consulta com o
hepatologista por conta de “alterações nos exames do fígado”

Obeso, hipertenso, diabético tipo II e
dislipidêmico misto há mais de 10 anos. Vinha em uso de metformina e
sinvastatina, referindo retirada progressiva por conta própria de
anti-hipertensivos por melhor controle pressórico associada à perda de peso.
Vem apresentando, ainda, astenia, inapetência, e nega outros sintomas. Nega
tabagismo, etilismo e uso de drogas ilícitas. Nega alergia, cirurgias/internações
prévias. Atualmente, não faz uso de medicamento regular. Pai e mãe com passado
de doença cerebrovascular e diabetes tipo 2.

Exame físico geral: REG, lúcido,
hidratado, fácies atípica, anictérico. PA 130x85mmHg, 75bpm, 15ipm. Peso:
112kg. Circunferência Abdominal: 120cm. Altura: 1,75m. Presença de teleangiectasias
nos MMSS, eritema palmar e Acantose Nigricans.

Exame físico de abdome: abdome
globoso, às custas de panículo adiposo, indolor à palpação, sem sinal de
peritonite. RHA preservados. Ausência de sopros. Sinais de ascite negativos.
Hepatimetria: 14cm em LD e 9cm em LE. Fígado palpável 4 cm abaixo do rebordo
costal, indolor. Espaço de Traube livre.

Foi feita a hipótese de doença hepática, e foram
solicitados exames laboratoriais para avaliação de função hepática e
complicações, bem como o diagnóstico etiológico.

Em consulta de retorno, apresentou os seguintes
resultados:

               hemoglobina,
13,1

               hematócrito,
38,6%

               leucócitos,
9.620

               neutrófilos,
7.100

               plaquetas,
110.000

               hemoglobina
glicada, 8,6%

               creatinina,
1,0

               ureia,
36

               AST,
58 (limite superior: 28)

               ALT,
53 (limite superior: 45)

               fosfatase
alcalina, 151 (limite: 120)

               gama-GT,
36 (limite: 29)

               bilirrubina
total, 0,9

               albumina,
4,2

               INR,
1,02

               sorologias
com anti-HCV negativo

               HBsAg
negativo

               Anti-HBc
negativo

               Anti-HBs
positivo (pós-vacinal)

Além dos exames laboratoriais, foi solicitado um USG
de abdome superior com fígado de dimensões aumentadas, ecogenicidade aumentada,
textura heterogênea, superfície nodular.

Diante dos achados, a principal hipótese foi de
esteato-hepatite não alcoólica e iniciada investigação de outras etiologias
possíveis com solicitação de ferritina, ferro, saturação de transferrina,
sorologia para hepatite A e autoanticorpos (FAN, antimúsculo liso, anti-LKM-1).

Questões para orientar a discussão     

1.  O que é doença
hepática Gordurosa Não Alcoólica do Fígado (DHGNA)?

2. Quais as causas e fatores de risco?

3. Quais os possíveis diagnósticos diferenciais?

4. Quais são as indicações de biópsia hepática na DHGNA?

5. Qual o tratamento da doença?

Respostas

1. A Doença Hepática Gordurosa não Alcóolica
(DHGNA) compreende um conjunto de doenças caracterizadas pelo acúmulo de
gordura nas células hepáticas. Esse acúmulo pode tanto estar isolado – o que é
denominado Esteatose Hepática – quanto acompanhado de processo inflamatório,
fibrose e balonização de hepatócitos, chamado, por sua vez, de Esteato-Hepatite
(EHNA) e capaz de evoluir para cirrose e carcinoma hepatocelular. A DHGNA
recebe esse nome já que seu desenvolvimento não está associado ao consumo
excessivo de álcool, surgindo em indivíduos cujo consumo diário é inferior a 20
a 40g. O diagnóstico também é afastado em indivíduos com histórico de exposição
a drogas esteatogênicas, como amiodarona, metotrexato e tamoxifeno.

2. De forma geral, a DHGNA tem como
fatores de risco dislipidemia, Diabetes tipo 2, obesidade, adiposidade visceral
e hipertensão arterial, ou seja, presença de síndrome metabólicas, como
etiologias primárias.

Contudo, pode surgir também devido a
etiologias secundários, como uso prolongado de nutrição parenteral, perda de
peso rápida e acentuada, desnutrição ou presença de doenças metabólicas
hereditárias, como Lipodistrofia hereditária ou Doença de Wilson.

3.  DHGNA é
um diagnóstico de exclusão, portanto, deve-se excluir outras possíveis causas da
elevação das aminotransferases (que pode estar ou não acompanhado de uma leve elevação
na GGT). A relação AST/ALT costuma ser normal na (< 1). Valores acima disso
são sugestivos de doença hepática alcoólica ou então um caso que evoluiu para
cirrose. Se a fosfatase alcalina 5 a 10 vezes o valor normalidade a principal
suspeita diagnóstica deve ser uma doença biliar ou uma infiltração do parênquima
hepático. Também é importante excluir uma possível causa autoimune do paciente,
solicitando então (FAN, antimúsculo liso, anti-LKM-1). Um possível diagnóstico
diferencial é Hemocromatose, devendo então solicitar de ferritina e da saturação
de transferrina; se estas evidenciarem um aumento, antes de fechar um
diagnóstico de Hemocromatose, deve-se verificar se este presente as alterações
genéticas que confirmam a doença (gene HFE).

4. Nem todo paciente com suspeita de DHGNA deve realizar biópsia. Deve indicar está nas circunstâncias em que o risco de evolução
desfavorável (pela existência de fibrose/cirrose) for alto, quando o paciente
atender aos seguintes critérios:

-Idade > 45 anos, principalmente se houver obesidade
e/ou diabetes mellitus

– Estigmas de cirrose hepática (ex.: sinais e
sintomas de falência hepatocelular e/ou hipertensão porta)

– AST/ ALT > 1

5. O paciente com DHGNA deve primeiramente ser
aconselhado a fazer uma mudança de estilo de vida, com reeducação alimentar
visando a melhora da qualidade e da quantidade de alimentos e a prática regular
de exercícios físicos.

Quanto ao manejo medicamentoso, o uso de estatinas
e outros hipolipemiantes podem ser indicados, tanto para tratar a DHGNA quanto
para tratar suas comorbidades. Alguns pacientes também apresentaram melhora da
esteatose, inflamação e balonização após a utilização de vitaminas, como a
vitamina E.

Já para o tratamento da resistência insulínica, que
é a chave da fisiopatologia da DHGNA, sensibilizadores de insulina, como
metformina ou drogas da classe das tiazolidinedionas, podem ser utilizados, a
fim de se melhorar o aspecto histológico do fígado. Pode ser indicada, numa
parcela reservada de pacientes, intervenções cirúrgicas como a cirurgia
bariátrica.

Pacientes em um estágio avançado da doença, com
cirrose descompensada, podem ter indicação de transplante hepático, mas sem
garantia de que não haverá recidiva da esteatose.

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