Aréa: Urgência e Emergência
Autores: Giovanna Barros Cobra Negreiros, Helena
Gemayel Marques, Laís Ribeiro Vieira
Revisor: Camila Lopes Moreira da Silva
Orientador: Jule R.O.G Santos
Liga: Liga de Emergências Médicas do Distrito Federal
(LEM-DF)
Apresentação do caso clínico
Paciente do sexo feminino, 20 anos, parda, natural de Brasília-DF,
residente e procedente do Gama- DF, chegou ao pronto atendimento, trazida pela
mãe, com quadro de crise asmática há 1 hora, sem melhora após uso da “bombinha”
(sic). Mãe relatou histórico de asma moderada em acompanhamento médico
irregular e episódios recorrentes de rinossinusite desde os 3 anos de idade,
sendo o último nesta semana, além de duas internações prévias por exacerbação
da asma no último ano. Paciente obesa, sem outras comorbidades.
Ao exame físico, paciente encontrava-se agitada, em regular estado
geral, afebril, anictérica, cianótica (+/4+), corada, hidratada, taquidispneica
(FR 28 irpm), ortopneica, em uso de musculatura acessória e sibilos difusos
expiratórios, sem tosse. Taquicárdica (FC 116 bpm), Sat O2 em ar ambiente 90%,
PA 110 x 60 mmHg, Glasgow 15. Sem alterações nos demais sistemas.
Diante disso, a equipe do Departamento de Emergência iniciou as condutas
com O2 suplementar por meio de máscara de O2 simples a 10 L/min, 2 acessos venosos calibrosos com
500 mL de SF 0,9% correndo lento, salbutamol (10 gotas) e brometo de ipratrópio
(40 gotas – 500mcg) diluídos em 5mL de SF para nebulização e metilprednisolona
EV (20mg) de 12/12h. Solicitada gasometria arterial, que revelou: PaO2 67 mmHg, PCO2 50 mmHg e pH 7,25. Após repetidos mais 2
ciclos de nebulização, paciente ainda sem resposta e evoluindo com sonolência,
confusão mental, piora progressiva da dispneia e da cianose (++/4+), sibilos
inspiratórios e expiratórios, FR 32 irpm, SatO2 em máscara de O2 não reinalante
80%, FC 124 bpm, pulso paradoxal, PA 80 × 40 mmHg e Glasgow 11. Nova gasometria
arterial revelou PaO2 55 mmHg, PCO2 55 mmHg e pH 7,15. Adicionada às condutas
sulfato de magnésio 1,5g diluído em 500 mL de solução fisiológica EV, para
correr em 20 min.
Devido refratariedade às medidas instituídas, equipe optou por realizar
intubação em sequência rápida, evitando-se hiperventilação com o AMBU adaptando
os parâmetros do ventilador, utilizando-o no modo ventilação controlada com
baixos volumes correntes, mantendo de 6-12 incursões/min e tempo inspiratório
curto, visando SaO2 > 90% e aspirando frequentemente secreções de vias
aéreas.
Questões para orientar a discussão
- Qual é a fisiopatologia
da asma e o que leva à exacerbação? - Como é feita a
classificação da crise asmática? - Quais devem ser as
medidas inicialmente instituídas em paciente com crise de asma no departamento
de emergência? - Quais parâmetros devem
ser utilizados para identificar possível refratariedade às condutas
instituídas? - Quais são as indicações
para intubação em um paciente asmático, e quais são os cuidados no ajuste da
ventilação mecânica desses pacientes, dada a fisiopatologia da asma?
Respostas
- A asma é uma doença inflamatória crônica e intermitente das vias aéreas,
que se caracteriza por hiperreatividade e se manifesta por inflamação e
estreitamento generalizado dessas vias, cuja gravidade se modifica
espontaneamente ou com resposta a intervenções terapêuticas. A fisiopatologia
da asma é complexa e envolve um perfil de resposta Th2-dependente mediada por
IgE, em sua maioria. O fator precipitante de uma crise asmática é, em 80% dos
casos, originado de infecções virais. Além disso, também podem levar à
exacerbação: exposição a aeroalérgenos, mudanças climáticas, alguns
medicamentos e o exercício físico.
- A crise asmática pode ser classificada em:
Tabela 1
| Achados | LEVE | MODERADA | GRAVE | PCR IMINENTE |
| Dispneia |
com atividade física |
ao falar | repouso | |
|
Capacidade de falar |
sentenças | frases | palavras |
incapaz de falar |
|
Posição Corporal |
capaz de deitar |
prefere ficar sentado |
incapaz de deitar |
|
|
Frequência respiratória |
aumentada | aumentada | > 30 irm | |
|
Musculatura acessória |
normalmente não usa |
comumente usa |
uso da musculatura acessória |
respiração paradoxal |
| Ausculta |
sibilos expiratórios moderados |
sibilos expiratórios difusos |
sibilos inspiratórios e expiratórios |
tórax silente |
|
Frequência cardíaca |
< 100 bpm | 100-120 bpm | > 120 bpm |
bradicardia relativa |
| Pulso paradoxal | < 10 mmHg | 10-25 mmHg | > 25 mmHg | |
| Estado mental |
agitado ou normal |
agitado | agitado |
confuso ou sonolento |
|
VEF1 ou peak-flow |
> 80% | 60-80% | < 60% | |
| SatO2 | > 95% | 91-95% | < 90% |
|
| PaO2 | Normal | > 60 mmHg | < 60 mmHg |
|
| PaCO2 | < 45 mmHg | < 45 mmHg | > 45 mmHg |
|
Fonte: Medicina de
Emergência – Abordagem Prática USP 13ª edição
- O manejo da asma na primeira hora da chegada ao paciente na emergência é
primordial para precaução contra complicações. O emergencista deve ser capaz de
realizar o diagnóstico, avaliação do nível de gravidade do quadro, avaliar
possíveis complicações e realizar o tratamento farmacológico.

Diagnóstico: é importante a análise
dos sintomas que costumam estar presentes a semanas mas com exacerbação
recente.

Ao exame físico, é
essencial buscar sinais de insuficiência respiratória como cianose, uso da
musculatura acessória, taquicardia, taquipneia, alterações sensoriais. A
sibilância é marcante na ausculta respiratória, sendo preditor de obstrução de
via aérea, fator preponderante na fisiopatologia da asma. Entretanto, a
sibilância não é um sinal patognomônico da asma, sendo importante realizar o
diagnóstico diferencial.
|
Vias aéreas superiores |
Vias aéreas inferiores | Outros |
| Edema de laringe | Aspiração | Insuficiência cardíaca esquerda |
| Corpo estranho | Corpo estranho | Pneumonia eosinofílica |
| Neoplasia | Neoplasia | Embolia pulmonar |
| Estenose traqueal | Estenose brônquica | Reações alérgicas/anafiláticas |
| Paralisia de cordas vocais | Exacerbação DPOC | DRGE |
| Disfunção de cordas vocais | Pneumonia |
Exposição à fumaça ou vapores tóxicos |
Fonte: (DALCIN, Paulo de
Tarso et al. 2000)
Avaliação da gravidade: a gravidade relaciona-se
com o grau de limitação do fluxo aéreo e, logo, da oxigenação.
- Identificação de comorbidades de base.
- Monitorização da saturação do paciente, sendo indicada oxigenioterapia
caso saturação <90%. - Gasometria arterial.
- Medida de pico de fluxo expiratório.
- Para acompanhamento do tratamento instituído na emergência, assim como a
resposta do paciente a esse, é essencial que o médico faça uma avaliação
contínua de: - Saturação Periférica de Oxigênio.
- Exame física.
- Pico de fluxo expiratório.
- Graduação da dispneia.

Fonte: Emergências
Clínicas – Abordagem Prática USP 8ª edição
- O paciente asmático
apresenta hiper-responsividade de vias aéreas devido fisiopatologia
inflamatória característica (ativação de macrófagos e linfócitos TH2
responsáveis pela produção de mediadores inflamatórios e interleucinas)
alterando o tônus da via aérea e sua resistência e reatividade. Deste modo,
instala-se quadro de hiperinsuflação e o estabelecimento de um auto-PEEP.
Partindo desse pressuposto, ao estabelecimento de ventilação mecânica, deve-se
atentar ao risco de barotrauma ao estabelecimento de altos volumes correntes.
Preconiza-se, portanto, uso de baixo volume corrente, modo de pressão
controlada, frequência respiratória entre 8-12 irpm e PEEP=3 a 5 cmH2O. Demais
parâmetros: paCO2 entre 45-90 mmHg e pH>7.15 e se atentar a corrigir
distúrbios metabólicos.

Fonte: (DALCIN, Paulo de Tarso et al. 2000)