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Burnout: impacto da pandemia nos profissionais da saúde | Colunistas

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O termo burnout foi descrito pela primeira vez em 1974 pelo psicanalista Herbert Freudernberger, que o utilizou para caracterizar o estado de exaustão física e mental vivenciado por profissionais da saúde, na época responsáveis pelos cuidados de pacientes usuários de drogas. Posteriormente, foi identificado como consequência do trabalho e da relação com o mesmo, não dependendo de atividades específicas. Assim, a definição passou a englobar não somente as profissões voltadas para o cuidado e educação, como também as demais atividades laborais.

Atualmente, é definido como uma síndrome psicológica resultante do estresse crônico relativo ao trabalho, sendo composta por três dimensões:

  • Exaustão emocional: sensação de esgotamento físico e mental, caracterizada por cansaço extremo e incapacidade de aguentar a rotina de trabalho;
  • Despersonalização ou cinismo: insensibilidade, hostilidade e/ou distanciamento das pessoas que devem receber o cuidado/serviço;
  • Baixa realização pessoal: sensação de incompetência e perda de produtividade, com consequente frustração pessoal e profissional.

Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu a síndrome de burnout na Classificação Internacional de Doenças, onde estão listadas as enfermidades e estatísticas de saúde que serão prevalentes nos próximos anos. A nova classificação só entrará em vigor em 2022, mas o contexto pandêmico evidenciou que as conclusões de especialistas do mundo todo estavam certas: cada vez mais profissionais da saúde serão acometidos pelo esgotamento em decorrência do trabalho.

Maslach Burnout Inventory (MBI)

Criado pela psicóloga e professora Christine Maslach, na Califórnia, o MBI foi validado no Brasil em 2001 e corresponde a uma escala diagnóstica padrão-ouro para detectar a síndrome de burnout. Foi devido à criação dessa escala que o conceito de burnout se estendeu, permitindo que fosse identificado em demais profissões além das voltadas para cuidado e educação.

A Tabela 1 traz 22 questões do MBI que identificam características das dimensões que compõem a síndrome.

Tabela 1: Maslach Burnout Inventory – fonte: adaptado de http://www.reme.org.br/artigo/detalhes/218

Tais questões devem ser pontuadas seguindo uma escala do tipo Likert, com variação de 0 a 6, sendo:

  • 0: nunca;
  • 1: uma vez ao ano ou menos;
  • 2: uma vez ao mês ou menos;
  • 3: algumas vezes no mês;
  • 4: uma vez por semana;
  • 5: algumas vezes por semana;
  • 6: todos os dias.

Para o diagnóstico de burnout, deve-se obter classificação alta nas questões voltadas para exaustão emocional (> 25 pontos), alta para despersonalização (> 8 pontos) e baixa para realização profissional (< 34 pontos). Entretanto, é válido lembrar que as tabelas e o método de avaliação das pontuações podem sofrer pequenas variações.

Sintomas da síndrome de burnout

A sensação de esgotamento, sintoma típico presente em pessoas com burnout, acaba resultando em condutas negativas, dentre elas:

  • Ausência no trabalho;
  • Agressividade;
  • Mudanças bruscas de humor;
  • Irritabilidade;
  • Isolamento;
  • Dificuldade de concentração;
  • Lapsos de memória;
  • Ansiedade;
  • Depressão;
  • Pessimismo;
  • Baixa autoestima;
  • Abuso de substâncias;
  • Comportamento de risco;
  • Ideação suicida.

Devido a essas alterações psicológicas, algumas manifestações físicas também podem estar presentes, como:

  • Dor de cabeça ou enxaqueca;
  • Cansaço;
  • Sudorese;
  • Palpitação;
  • Dores musculares;
  • Hipertensão;
  • Insônia;
  • Crises de asma;
  • Distúrbios gastrointestinais;
  • Distúrbios respiratórios: suspiros profundos.

Profissionais da saúde: os principais afetados

Há mais de 50 anos, profissionais da saúde são considerados grupo de risco para o desenvolvimento da síndrome de burnout, sendo que a mesma afeta até 40% dos médicos.

Dentre as principais causas para isso, pode-se citar a carga horária de trabalho exorbitante, baixa qualidade do sono, redução do convívio social, ausência de suporte emocional, ganhos econômicos abaixo do esperado, impossibilidade de prover o melhor para os pacientes devido a questões burocráticas e econômicas, alta responsabilidade e cobranças excessivas.

Para agravar ainda mais o cenário, dados epidemiológicos trazem que 92% dos portadores, mesmo diagnosticados, continuam trabalhando.

Profissionais da saúde e o COVID-19

Já no contexto da pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2, popularmente conhecido como novo coronavírus, os profissionais da saúde sofrem um agravante ainda maior ao cuidarem de pacientes acometidos pela doença, sendo afetados, principalmente, no âmbito emocional.

Nesse novo cenário, com medidas de biossegurança tão restritas, profissionais da saúde são, frequentemente, evitados por familiares e amigos, vivendo um isolamento físico muito próximo da solidão. Ademais, a restrição física de movimentos promovida pelo equipamento utilizado, a perda de autonomia, o estado de alerta constante e a necessidade de se adaptar a novas formas de trabalho atrapalha a capacidade do profissional de oferecer conforto para alguém doente. Somado a isso, há a sensação de frustração por não conseguir atender todos os pacientes, ainda mais com uma doença ainda sem cura.

O aumento da carga horária e da demanda de trabalho também impossibilita que o profissional obtenha suporte social e o descanso necessário para aguentar a alta carga de trabalho, fazendo com que seu cuidado pessoal se torne, muitas vezes, inexistente.

Médicos ainda relatam que o medo, devido às informações insuficientes que se tem acerca da COVID-19, colaboram com tais sensações.

Além disso, tratando-se de um grupo já predisposto a vivenciar momentos de insatisfação profissional ocasionados pelo esgotamento físico e mental, muito pior do que lidar com um ambiente de trabalho desfavorável é, diariamente, sofrer o luto da morte de pacientes, colegas de trabalho e conhecidos.

Um estudo realizado no final de 2020 constatou que 78% dos profissionais de saúde tiveram sintomas característicos da síndrome de burnout durante a pandemia, sendo 79% entre médicos e 74% entre enfermeiros. Os números são ainda maiores em médicos trabalhando na linha de frente, alcançando 83% dos profissionais entrevistados.

Conclusão

Diante dos fatos mencionados acima, conclui-se que o burnout de profissionais da saúde foi, evidentemente, agravado pela pandemia de COVID-19. O desafio de lidar com uma doença altamente contagiosa e sem cura, com estrutura hospitalar muitas vezes precária e falta de tempo para realizar o autocuidado podem vir a ter reflexos ainda mais graves no futuro de tais profissionais, mesmo com a erradicação do vírus.

Assim, é fundamental que médicos e enfermeiros cuidem de sua saúde mental tanto agora quanto no futuro. Para isso, além de apoio psicológico e, quando necessário, psiquiátrico, a OMS recomenda manter contato virtual com pessoas importantes do convívio pessoal, confiar em animais de estimação como apoio emocional, manter um estilo de vida saudável e limitar o consumo de informações acerca da pandemia, principalmente quando fora do ambiente de trabalho.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

  1. Burnout e estresse: entre medicalização e psicologização: https://scielosp.org/article/physis/2019.v29n2/e290206/
  2. Conceito(s) de burnout: questões atuais da pesquisa e a contribuição da clínica: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0303-76572010000200009&lng=en&nrm=iso
  3. OMS inclui a síndrome de burnout na Classificação Internacional de Doenças: https://www.crmpr.org.br/OMS-inclui-a-sindrome-de-burnout-na-Classificacao-Internacional-de-Doencas-11-51611.shtml
  4. Síndrome de Burnout em trabalhadores de um hospital público de média complexidade: http://www.reme.org.br/artigo/detalhes/218
  5. Análise fatorial do Maslach Burnout Inventory (MBI) em uma amostra de professores de instituições particulares: http://www.cbpabp.org.br/cbpexpress/bournout.pdf
  6. Prevalência de burnout é maior em médicos que atuam na linha de frente da Covid-19: https://pebmed.com.br/prevalencia-de-burnout-e-maior-em-medicos-que-atuam-na-linha-de-frente-da-covid-1
  7. Saúde mental dos profissionais de saúde no Brasil no contexto da pandemia por Covid-19: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832021000200500
  8. Documento que transcreve, contextualiza e emite um consenso para América Latina, baseado nas recomendações da APA e da OMS, para enfrentar as consequências psicológicas da epidemia COVID-19: https://www.sbponline.org.br/arquivos/Consenso_COVID_19_portugu%C3%AAs_Agudelo_et_al_2020.pdf

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