Confira um resumo completo sobre Avaliação pancreática e hepática e tire todas as suas dúvidas.
Boa leitura!
Avaliação pancreática e hepática
O pâncreas é uma glândula que pode ser dividida em pâncreas exócrino, constituído pelos ácinos pancreáticos que produzem e secretam enzimas digestivas no duodeno, e pâncreas endócrino, constituído pelas ilhotas de langerhans, que produzem hormônios e os secretam na corrente sanguínea.
Função endócrina do pâncreas
No indivíduo adulto, o pâncreas endócrino consiste em aproximadamente um milhão de ilhotas de Langerhans distribuídas por toda a glândula, porém representa apenas 1-2% de toda massa pancreática. No interior das ilhotas possuem 3 tipos celulares principais que recebem destaque por sua produção hormonal.
As células Alfa, correspondem a 25 % de todas as células da ilhota, produzem glucagon, hormônio hiperglicemiante, com ação contrária a da insulina. Ele estimula a glicogenólise (degradação do glicogênio em glicose) no fígado, a fim de aumentar a glicose sanguínea.
As células Beta, correspondem a 60% do total e produzem a insulina, hormônio hipoglicemiante (responsável por colocar a glicose da corrente sanguínea para dentro da célula), anabólico e de armazenamento do excesso de energia, interferindo no metabolismo dos carboidratos, das gorduras e proteínas.
As células Delta, representam 10% do total e produzem a somatostatina, inibidor universal das células secretoras. A somatostatina age localmente nas próprias ilhotas de Langherans, para deprimir a secreção de insulina e de glucagon.
Função exócrina do pâncreas
A secreção pancreática exócrina contém múltiplas enzimas para digerir todos os três principais grupos de alimentos: proteínas, carboidratos e gorduras. Contém, ainda, grande quantidade de íons bicarbonato e água que contribuem, de modo muito importante, para a neutralização da acidez do quimo, transportado do estômago para o duodeno.
Essa secreção pancreática é controlada por mecanismos hormonais e neuronais. Os principais hormônios reguladores são a secretina e a colecistoquinina (CCK). A secretina é liberada da mucosa duodenal em resposta a presença de ácido no duodeno e estimula principalmente a liberação de bicarbonato e água das células do ducto interlobular. A CCK é liberada das células endócrinas do intestino em resposta a entrada de gordura e proteína no intestino proximal e atua diretamente e através dos aferentes vagais para estimular as células acinares do pâncreas a liberar proenzimas digestivas.
Aa enzimas pancreáticas mais importantes na digestão de proteínas, são a tripsina, a quimotripsina e a carboxipolipeptidase. A tripsina é a mais abundante e a responsável por ativar as outras duas enzimas. A enzima pancreática responsável pela digestão de carboidratos é a amilase pancreática, que hidrolisa amidos, glicogênio e outros carboidratos (exceto celulose), para formar, principalmente, dissacarídeos e alguns trissacarídeos. As principais enzimas para digestão das gorduras são a lipase pancreática, colesterol esterase e a fosfolipase.
As enzimas responsáveis pela digestão das proteínas são liberadas no pâncreas em sua forma inativa (tripsinogênio, quimotripsinogênio, procarboxipolipeptidas), sendo ativadas apenas ao chegar ao duodeno, pois caso contrário, poderiam digerir o próprio pâncreas. Como mecanismo de proteção, o pâncreas secreta uma substância, denominada inibidor de tripsina, responsável por inativar a tripsina ainda nas células secretoras, nos ácinos e nos seus ductos. E já que a tripsina é a responsável por ativar as outras enzimas proteolíticas pancreáticas, o inibidor da tripsina evita, também, a ativação destas.
VOCÊ SABIA? Quando o pâncreas é lesado gravemente ou quando ocorre bloqueio do ducto por cálculo, por exemplo, grande quantidade de secreção pancreática se acumula nas áreas comprometidas do pâncreas. Nessas condições, o efeito do inibidor de tripsina é insuficiente e as secreções pancreáticas ficam ativas e podem digerir todo o pâncreas em questão de poucas horas, levando a condição denominada pancreatite aguda.
SE LIGA! A amilase e a lipase sérica são testes utilizados como marcadores bioquímicos para avaliação de pancreatite aguda em pacientes com dor abdominal.
Enzimas pancreáticas de uso na prática clínica
A elevação da amilase e lipase pode acontecer tanto pelo aumento da produção pancreática ou extrapancreática quanto pela diminuição de sua depuração. No entanto, vale ressaltar que em alguns casos pode haver o aumento das enzimas pancreáticas na ausência de uma doença identificável.
Doença pancreática
A primeira doença que nos vem a mente quando falamos de amilase e lipase é a pancreatite aguda (PA). Pacientes com PA apresentam valores altos dessas enzimas, geralmente uma elevação 3 vezes maior que o limite normal da amilase e/ou lipase.
No caso da pancreatite alcoólica e pancreatite crônica agudizada, as elevações enzimáticas também acontecem, porém não são tão significativas como na pancreatite aguda. As enzimas pancreáticas também podem estar elevadas após trauma no pâncreas, colangiopancreatografia retrógrada pós-endoscópica (CPRE), obstrução ou cirurgia do ducto pancreático.
Doença extrapancreática
A elevação da amilase e lipase não é específica da doença pancreática e pode estar presente em pacientes com outras condições intra ou extra-abdominais ou com uso de medicamentos.
A maioria das causas extrapancreáticas de elevações das enzimas pancreáticas não estão associadas a uma elevação superior a três vezes o valor de referência, como na pancreatite aguda.
SE LIGA! Embora a maioria das causas extrapancreáticas das elevações das enzimas pancreáticas não esteja associada a uma elevação superior a três vezes, foi observada lipase superior a três vezes o normal em pacientes com insuficiência renal, tumores malignos, colecistite e esofagite.
SE LIGA! A elevação das enzimas pancreáticas não é específica para pancreatite aguda. Entre 11 e 13% dos pacientes com dor abdominal de origem não pancreática apresentam enzimas pancreáticas elevadas.
Amilase
Como falamos acima, a principal função da amilase é clivar o amido em polissacarídeos menores no processo de digestão. Vimos que a amilase é produzida pelo pâncreas, porém ela também é produzida pelas glândulas salivares, e em pequenas quantidades em outros tecidos. Por isso, além de estar elevada em afecções pancreáticas, também se eleva em outras doenças.
Várias isoformas da amilase podem ser identificadas por eletroforese, as formas S de origem salivar e a forma P derivada do pâncreas são as mais abundantes. A amilase é eliminada principalmente pelo sistema reticuloendotelial (75%) e pelos rins (25%). Essa enzima eleva-se duas a doze horas após início dos sintomas, com pico em 24 horas e normalização em dois a três dias. Possui sensibilidade de 75 a 92%, e especificidade de 20 a 60% no diagnóstico de pancreatite aguda. O intervalo de referência é de aproximadamente 25 a 125 unidades/L.
Causas de elevação isolada de amilase
Doenças salivares
As doenças salivares, incluindo a parotidite, associadas ao uso de álcool, podem resultar em elevações da amilase sérica de origem salivar. Os ensaios de amilase mais comumente usados não são capazes de diferenciar amilase salivar e pancreática, e a medição de isoenzimas no soro não está amplamente disponível.
Macroamilasemia
Os níveis séricos de amilase podem estar elevados em ambientes nos quais a amilase está ligada a outras macromoléculas, como imunoglobulinas e polissacarídeos, formando complexos conhecidos como macroamilase.
Devido ao tamanho desses complexos, a excreção renal é reduzida e o nível de amilase, medido por testes sorológicos, é aumentado. Várias doenças foram descritas em associação com a macroamilasemia, incluindo doença celíaca, infecção pelo HIV, linfoma, colite ulcerativa, artrite reumatoide e gamopatia monoclonal.
Hiperamilasemia idiopática
Elevações persistentes da amilase podem ser uma variante normal, como na síndrome de Gullo, hiperenzinemia pancreática benigna familiar, na qual os pacientes possuem aumento das enzimas pancreáticas, na ausência de enfermidade pancreática.
SE LIGA! A amilase com níveis normais é relatada em 19 a 32 por cento dos pacientes com pancreatite aguda.