Confira neste artigo orientações sobre a importância da avaliação geriátrica ampla na melhoria da qualidade de vida do idosos!
A pandemia ocasionada pela infecção do SARS-CoV-2 ocasionou inúmeros óbitos, principalmente da população idosa. Embora conforme dados apontados que revelam uma queda na taxa de expectativa de vida da população de 37 países relacionada a pandemia da Covid-19¹, ainda é importante perceber que a geriatria sem dúvidas é a especialidade que terá maior demanda conforme o envelhecimento da população em geral.
Importância da avaliação geriátrica ampla (AGA)
Nesse ínterim, é importante que o médico generalista entenda a importância da avaliação geriátrica ampla (AGA) na melhoria da qualidade de vida do idoso, identificando as fragilidades e os problemas geriátricos que podem impactar a saúde do paciente.²
Conceito de AGA
A avaliação geriátrica ampla é um processo terapêutico e diagnóstico multidisciplinar utilizado para determinar as capacidades médicas, psicológicas e funcionais de uma pessoa idosa e desenvolver um plano coordenado e integrado para tratamento e acompanhamento do indivíduo.³
Em uma tese publicada no programa strictu-sensu da FMUSP, o autor reitera que ao analisar o perfil de saúde do idoso, observa-se que ele apresenta peculiaridades típicas dessa fase da vida com manifestações atípicas de algumas patologias e uso de mais recursos de saúde quando comparados a faixas etárias mais novas. Englobando não apenas a doença ou o organismo em si, mas também os aspectos psicológicos e sociais que cercam o cidadão sênior.⁴
Benefícios
Não há dúvidas que a AGA apresenta inúmeros benefícios no manejo do paciente que necessita de uma maior atenção por parte do médico, tão logo, pode-se afirmar que a utilização dessa ferramenta multidimensional da semiologia médica irá apresentar maior efetividade de acordo com a população, com o formato do uso e com o local onde será empregada.³
O panorama atual mostra oportunidades diversas para o uso da AGA na atenção à saúde do idoso, contribuindo para elaboração de protocolos à distância via internet e incorporação de novos critérios relevantes e potencialmente modificáveis.⁴
Parâmetros obrigatórios
Não há uma delimitação de quais parâmetros devem ser obrigatórios na avaliação geriátrica ampla, alguns devem ser fundamentais durante a avaliação clínica do paciente idoso e devem estar inclusos na entrevista médica.³ Logo, inúmeros são os fatores que devem ser inseridos nessa avaliação, dentre eles: cognição, humor e sono.
O domínio cognição se refere ao processo ou faculdade de adquirir conhecimento. Destarte, o idoso será avaliado em relação a sua função psicológica individual ou coletiva filosoficamente atuante na aquisição da sapiência.
A avaliação nesse caso fica dirigida ao mini exame do estado mental (MEEM), constituído por 11 tarefas simples realizadas somente com o participante que avaliam, orientação temporal e espacial, cálculo, memória, nomeação, repetição, compreensão e praxia.³
O MEEM utilizado pelos principais centros de saúde do país é adaptada à realidade brasileira e a pontuação varia de 0 a 30 pontos, onde quanto menor a pontuação, pior é o prognóstico do paciente, nesse instrumento a escolaridade também deve ser tomada como princípio avaliativo.³
Os sintomas de humor depressivo podem ser mais frequentes no idoso, prejudicando o tratamento de comorbidades preexistentes, da anedonia e bem como apresentando elevado prejuízo cognitivo para essa população.
Humor do paciente longínquo é analisado através da escala de depressão geriátrica que apresenta critérios fáceis de serem compreendidos e ínfima variação na possibilidade de resposta, atualmente é empregada através de uma versão reduzida em relação a que foi proposta inicialmente, considerando os itens que mais fortemente se correlacionam com o diagnóstico de depressão.⁵
Finalmente, nesse escrito o último item a ser elucidado é a avaliação do sono que pode ser realizada através da ferramenta designada como índice de qualidade do sono Pittsburgh (Pittsburgh Sleep Quality Index – PSQI).
O que diz a literatura?
Em um estudo realizado em Teresina no Piauí, abrangendo a população idosa não institucionalizada de uma comunidade local, ao se aplicar o PSQI foi notado que 63% dos idosos possuíam um sono de má qualidade; contudo, a ocorrência de sonolência diurna e distúrbios durante o dia foram negados por 98% dos idosos.
Logo, esse questionário composto por sete questões, sendo quatro com respostas abertas e três objetivas, se mostrou útil naquele cenário que envolvia o estudo. ⁶
O instrumento PSQI leva em consideração os últimos 30 dias anteriores à entrevista, e as questões abordam o horário em que o paciente decidiu dormir.
A estimativa de tempo que o paciente demorou para adormecer, o horário usual do despertar pela manhã, a quantia de horas dormidas durante a noite, as justificativas da dificuldade para dormir, a classificação da qualidade do sono, o uso de medicamentos prescritos ou automedicados para auxiliar o sono, a dificuldade em ficar acordado durante atividades do dia-a-dia, o prejuízo sobre o ânimo cotidiano e finalmente as impressões de terceiros em relação ao sono (quando houver).⁷
Conclusão
Em síntese, a AGA é um instrumento amplamente sustentado por evidências robustas que demonstram a sua alta confiabilidade no rastreio multidimensional prático e eficiente para identificar e avaliar condições geriátricas, prever desfechos e guiar os cuidados dos idosos em serviços de saúde.
Autor: Danilo Gustavo Santos.
Instagram: @dgdanilog
Referências
1 Slam N, Jdanov D A, Shkolnikov V M, Khunti K, Kawachi I, White M et al. Effects of covid-19 pandemic on life expectancy and premature mortality in 2020: time series analysis in 37 countries. BMJ 2021. Acesso em 25 de novembro de 2021.
2 Sgnaolin, V, Sgnaolin, V e Schneider, R H. Implicações da avaliação geriátrica ampla na qualidade de vida em pessoas idosas com câncer: uma revisão integrativa. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia [online]. 2021, v. 24, n. 1. Acesso em 25 novembro 2021.
3 Garrard JW, Cox NJ, Dodds RM, Roberts HC, Sayer AA. Comprehensive geriatric assessment in primary care: a systematic review. Aging Clin Exp Res. 2020 feb;32(2):197-205.
4 Aliberti MJR. Avaliação geriátrica compacta de 10 minutos: desenvolvimento e validação de um instrumento de rastreio multidimensional breve para idosos. São Paulo, 2018. Tese (Doutorado) – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Programa de Ciências médicas. Acesso em 26 novembro 2021.
5 Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP). Universidade de São Paulo (USP). Escala de Depressão Geriátrica – ebook. Acesso em 25 novembro 2021. Disponível em: <http://www.eerp.usp.br/ebooks/Escala_de_Depress_Geriatrica_ebook_dezembo%5B1%5D.pdf>.
6 Silva JMN, Costa ACM, Machado WW, Xavier CL. Avaliação da qualidade de sono em idosos não institucionalizados. ConScientiae Saúde, 2012;11(1):29-36. Acesso em 26 novembro 2021.
7 Centro de Ciências da Saúde e do Esporte (CEFID). Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Índice da qualidade de sono de Pittsburgh – arquivos. Acesso em 26 novembro 2021. Disponível em: <http://www.cefid.udesc.br/arquivos/id_submenu/1173/sono.pdf>.
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