Vamos falar aqui sobre um tema popular dentro da cultura cristã, já sendo bem representado no cinema e no teatro, que é a morte de Jesus Cristo. No entanto, antes de entrar em detalhes, antecipo que falaremos aqui sobre aspectos fisiopatológicos e não sobre religião.
Então, a gente associa a morte de Jesus Cristo ao processo de pregar suas mãos e punhos, certo? E se eu te dissesse que é um pouco mais complexo que isso?
Todo o processo de crucificação de Jesus não foi nada fácil. O carregamento da cruz, associado a diversas lesões externas causadas por chicoteamentos e apedrejamentos que o mesmo recebia, finalizado por um processo de crucificação, onde os pregos eram colocados nos membros superiores e inferiores, só poderia ter levado Jesus a um quadro de: CHOQUE!
Mas o que é esse tal de choque? Choque é uma síndrome clínica que representa a incapacidade do sistema circulatório de suprir as demandas celulares de oxigênio.
O choque começa com um quadro de hipoperfusão tecidual => disfunção celular => disfunção de múltiplos órgãos e finalmente morte.
E sim, existem diversos tipos de choque e talvez aqui Jesus possa ter tido uma associação múltipla de choques.
O processo da perda de sangue pode estar relacionado a um choque hipovolêmico, mas também há a possibilidade de todo o processo de crucificação ter levado a um choque obstrutivo (estase vascular + lesão endotelial + alteração de fatores sanguíneos) levando a uma trombose pulmonar. No entanto, o processo longo de desidratação e lesões pode ter causado um choque séptico – que não é igual a sepse. A sepse é a presença de uma disfunção orgânica ameaçadora à vida causada por uma resposta desregulada do organismo à infecção. O choque séptico é um subgrupo com anormalidade circulatória e celular/metabólica grave o suficiente para levar o aumento da mortalidade. Exemplo prático de anormalidade circulatória é a hipotensão com necessidade de drogas vasoativas e a metabólica seria uma hiperlactatemia.
Lembrando que ainda há a teoria que isso tudo está sendo potencializado por um quadro de asfixia por crucificação. Pensa comigo: O esforço excessivo da musculatura numa posição desfavorável à respiração vai causar uma fadiga na musculatura abdominal e respiratória acessória que resultará numa disfunção diafragmática. Isso implica num déficit na expiração e consequentemente um acúmulo maior de CO2, causando, portanto, a asfixia.
Alguns autores colocam todas essas associações de choque como: “A teoria do colapso cardiovascular”, já até publicada no renomado JAMA (doi: 10.1001/jama.1986.03370200054011)
Tá vendo como é um caso bem complexo?
O que fica de lição para a gente? Vamos aprender mais sobre choque! Nossos pacientes precisarão de nossa intervenção, fato que Jesus Cristo não teve.
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