Histórico
O contexto social da Europa na Idade Média e na Idade
Moderna ensejou o surgimento de práticas médicas não ortodoxas e até mesmo
fraudes utilizadas por grandes massas populacionais. No século XVIII, o alemão Samuel
Hahnemann foi surpreendido, segundo relato próprio, por febre intermitente
semelhante a malária, porém em menor intensidade, após uso de doses regulares
de chá de cinchona (quinquina). Hahnemann formulou, a partir desse evento, a
teoria de que seria possível curar uma doença através de um medicamento que
causasse sintomas semelhantes ao do acometimento do paciente 1,2.
O
homeopata baseava-se em uma consulta detalhada e longa na qual se discutia
todos aspectos da doença e da vida do doente, dispensando a compreensão das
correlações clínico-patológicas da medicina ortodoxa. Devido a simplicidade das
explicações e ao um ambiente de polifarmácias ineficazes e perigosas da
medicina da academia, a homeopatia tornou-se popular 1.
Já na
segunda década do século XIX, Hahnemann passou a sugerir a necessidade da
diluição extrema dos medicamentos. O homeopata, contudo, garantia que esse
processo (potenciação) não destruiria o poder terapêutico do medicamento e
liberaria a “energia” do princípio ativo. A homeopatia poderia curar quase
todas as doenças agudas e crônicas, segundo seu criador. Essa fala foi
minimizada por alguns seguidores e a homeopatia acabou sendo disseminada por
alopatas e institutos médicos no início do século XX1,2.
Ainda
hoje, a homeopatia é utilizada por uma porção da população que varia de 0,2% a
8,2% – percentual que permaneceu inalterado durante três décadas –, sendo maior
em países em que o sistema público de saúde cobre o tratamento3.
No
Brasil, a introdução do tratamento homeopata se deu a partir de 1840 com pouca
assimilação em ambulatórios de ordens religiosas e gerando grandes embates
entre os defensores do método e os representantes da medicina alopática. Com o
tempo, o método se disseminou às margens dos órgãos oficiais4. Ainda
no final do século XX, a homeopatia tornou-se uma especialidade médica
reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina e, adiante, foi implementada no
Sistema Único de Saúde (SUS), estando os medicamentos homeopáticos na
farmacopeia (homeopática) brasileira4,5,6.
Atualmente,
a homeopatia no SUS possui boa avaliação entre classes populares, resultado do
uso de medicamentos naturais, dos poucos efeitos adversos da medicação e de
escuta detalhada e atenta ao paciente, favorecendo a criação de vínculos 4,7.
Objetivo
Relatar evidências sobre a eficácia e controvérsias do
tratamento homeopático em diferentes condições patológicas, bem como reproduzir
a atual percepção de diferentes países sobre o método.
Evidências e controvérsias
Muitos
estudos com diferentes metodologias – controlados ou não – estudaram possíveis
efeitos da homeopatia em diferentes tipos de patologias. Atualmente, as
evidências foram agregadas em métodos sistemáticos e metanálises.
Mathie
et al.8 realizaram metanálise de estudos clínicos randomizados
(ECR), duplo-cegos e controlados por placebo, extraindo dados de 54 estudos,
dos quais apenas 3 tinham evidência confiável. A análise demonstrou que o
tratamento homeopático não individualizado apresentou pequeno efeito
estatístico (SMD = – 0,33, IC 95% – 0,44 a – 0,21, p<0,001), todavia a
evidência foi baixa, visto que os estudos apresentaram alto risco de viés, em
sua maioria.
Em
revisão sistemática de outras revisões sistemáticas foram incluídos 17 estudos,
chegando-se à conclusão de que não há dado convincente sobre a eficácia do
tratamento homeopático em relação ao placebo e que, em alguns casos, o
tratamento homeopático pode ser superado pelo placebo. A revisão trouxe também
o apontamento de que presença de vieses pode ser a razão para efeitos positivos
do placebo em algumas investigações9.
Existem
estudos bastante controversos sobre o assunto como o de Linde et al.10,
publicado em 1998, que encontrou odds
ratio (OR) combinado para 89 estudos de 2,45 (IC95% 2,05 a 2,93) a favor da
homeopatia. Diversas reanálises dos dados foram realizadas demostrando a
fragilidade das informações e equívocos das interpretações9.
A
revisão de Cucherat et al.11 publicada no início deste século, na
qual estavam 5.180 participantes de 16 estudos, demonstra que, quanto melhor a
qualidade dos estudos, pior os resultados apresentados pela homeopatia. Estudos
de baixa qualidade tenderiam a demonstrar melhor eficácia da homeopatia em
relação ao placebo.
Além
de investigações voltadas a qualquer acometimento, foram realizados estudos e
revisões para acometimentos mais específicos, delimitando a análise do tema.
A
revisão de Hawke et al.12 buscou os efeitos da homeopatia na
profilaxia e no tratamento de infecções agudas do trato respiratório superior
de crianças. Este estudo relatou conflito entre as evidências, OR pequenas e
com grandes intervalos de confiança, demonstrando que o uso de homeopáticos
nesta condição não previne e não reduz o uso de antibioticoterapia.
Já o
estudo revisional de Peckham et al.13 com 3 ECR que investigaram o
uso de homeopatia na síndrome do intestino irritável, nos quais se identificou
baixa qualidade e risco de viés não claro, concluiu possível benefício da
asafoetida homeopática em relação ao placebo (melhora de 73% dos pacientes
utilizando intervenção homeopática versus
45% dos pacientes utilizando placebo em curto prazo). O grau de evidência foi
baixo.
Em
recente revisão sistemática de estudos controlados sobre o uso de medicamentos
homeopáticos na asma, verificou-se que a maioria dos estudos relatarou resultados
positivos, entretanto, os estudos foram financiados, levantando-se dúvida sobre
a isenção, segundo os revisores. O risco de viés também foi alto ou incerto,
com resultados sendo avaliados de formas muito heterogêneas e, por vezes,
subjetivas, ademais, possuíam pequenas amostras e problemas quanto à
randomização e cegamento14.
Kassab
et al.15 avaliaram efeito dos medicamentos homeopáticos no
tratamento dos efeitos adversos ao câncer. A revisão sistemática avaliou 8
ensaios controlados, com um total de 664 pacientes. Em dois estudos de baixo
risco de viés se evidenciou superioridade do tratamento homeopático em relação ao
placebo ou outro agente na prevenção de dermatite resultante de radioterapia e
no tratamento de estomatite induzida por quimioterápico. Chegou-se, no entanto,
à conclusão da necessidade de replicação de estudos e necessidade de mais
pesquisas.
Em
síntese, os estudos que demonstraram resultados positivos da homeopatia foram
em maioria subjetivos e pouco quantificáveis. Há também pequena quantidade de
estudos reproduzidos por equipes de pesquisa independentes16. As
revisões Cochrane não demonstraram efeitos da homeopatia além do próprio
“efeito placebo”17.
Juntando-se
as controvérsias, os homeopatas buscam justificar os péssimos resultados em
ensaios clínicos e metanálises. Justificam que existem diversos tipos de
medicamentos homeopáticos, portanto, não seria possível extrapolar evidências
de falha de um medicamento18. Justificam também que um medicamento
homeopático deve ser individualizado e escolhido de acordo com a
características do sujeito, tratando a pessoa como um todo, algo pouco visto em
estudos clínicos.
Também
justificam que estudos deveriam ser feitos baseando-se nos princípios da
homeopatia:
1 –
tratar indivíduo doente e não doença;
2 –
tratamento para patologia crônica séria causa agravamento inicial;
3 –
condições graves e crônicas devem ser tratadas por série de medicamentos antes
de melhora aparente;
4 –
tempo de melhora difere entre casos;
5 –
medicamentos têm melhores resultado nos estágios inicias de doenças crônicas19.
Essas
limitações e princípios são bases para os homeopatas negarem evidências
científicas e exigirem eternamente novos estudos e pesquisas18.
Eficácia e visões de países
O periódico Lancet, que havia publicado diversos estudos
sobre a homeopatia, incluindo alguns com resultados favoráveis a prática, em
2005, trouxe o editorial “The end of
homeopathy” e sua conclusão derradeira “os médicos precisam ser ousados
e honestos com seus pacientes sobre a falta de benefício da homeopatia”
(grifos meus) além de apontar o risco de afastar pacientes de cuidados
convencionais20. O periódico, no mesmo ano, publicou o estudo de
Chang, que comparou diversas literaturas e concluiu que os efeitos da
homeopatia se deviam ao efeito placebo e que os resultados favoráveis se limitavam
em estudos de baixa qualidade21.
Uma
das afirmações mais categóricas sobre o assunto foi dada em artigo do professor
Beny Spira, livre-docente pela USP: “a homeopatia é uma farsa”. O autor aponta
que a homeopatia é baseada nas falsas premissas dos similares e da lei dos
infinitesimais, ambas contrárias às concepções científicas atuais. Aponta ainda
que a terapia oferece potencial perigo quando empregada em doenças graves,
visto que é nulo seu potencial terapêutico22.
Conclusões
semelhantes sobre a baixa eficácia e risco oferecido pela homeopatia ocorreram
em diversos países, resultando em reações legais e técnicas. O Reino Unido
decidiu banir do sistema público de saúde o gasto com homeopatia e outras
práticas complementares com baixa evidência científica23. A França,
por sua vez, deliberou que remédios homeopáticos não seriam mais reembolsados
pelo Sécurité Sociale, justificando a
medida pela ausência de eficácia cientificamente comprovada, além de revisar,
em algumas Universidades, a concessão do diploma em homeopatia24,25.
Já na Alemanha, país de origem da homeopatia, organização médica importante
pediu o fim do financiamento por seguradoras de saúde26. Outros
países como Austrália, Espanha e Suíça também possuem medidas contrárias a
prática da homeopatia e apontam a ineficácia20,24.
O
Brasil, em contrassenso, ainda financia a homeopatia no Sistema Único de Saúde
e favorece a prática. Recentemente, no munícipio de São Paulo uma lei reforçou
o atendimento homeopático em hospitais municipais e a possiblidade do estabelecimento
de convênios entre o município, universidades e empresas para reforçar a
prática27.
Considerações finais
Cada
vez mais países pelo mundo limitam a prática da homeopatia e a renega ao campo
das pseudociências, visto que, em mais de 200 anos, não foi possível encontrar
evidência consistente e significativa sobre o tratamento. São muitas
inconsistências e fragilidades metodológicas nos estudos e, por ora, não é
possível vislumbrar achado que modifique a premissa de que a homeopatia não funciona além do “efeito
placebo”.
Resumo dos destaques:
- A homeopatia surgiu no século XVIII e se baseia no princípio de combate similar e na liberação de energias de um princípio através da diluição;
- A homeopatia se difundiu no Brasil a partir de 1840 e, atualmente, é prática presente no SUS;
- A prática é bem avaliada no SUS principalmente devido à escuta atenta e detalhada do paciente;
- Inexistem evidências significativas sobre a eficácia da homeopatia;
- Vários países estão condenando o uso de homeopáticos e retirando o financiamento da prática.
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