Definição
O termo gossipiboma faz referência a matriz de matéria têxtil envolvida por reação de corpo estranho, ou seja, gazes e compressas que permanecem retidas no corpo ao fim de um procedimento cirúrgico de forma não intencional. O termo vem da palavra em latim para algodão (gossypium) e do termo para esconderijo (boma) em Swahili, língua, adotada oficialmente no Quênia, na Tanzânia e em Uganda e falada em diversas outras regiões do continente africano. Também chamados de textilomas, tais objetos são os principais itens cirúrgicos retidos inadvertidamente e tal iatrogenia pode resultar em diversas complicações, além de ter implicações médico-legais.
Epidemiologia
Sendo mais comum em cirurgias abdominais, sua incidência é calculada entre 1/1000 a 1/1500 cirurgias abdominais. Uma vez que muitos pacientes permanecem assintomáticos, acredita-se que a incidência seja subestimada. Outros locais de incidência significativa são a cavidade pélvica e torácica.
Existem determinadas situações que propiciam o “esquecimento” de tais itens e, por isso, a atenção quanto a retirada de materiais cirúrgicos deve ser redobrada em casos de: operação em pacientes obesos, processos cirúrgicos emergenciais, intervenções nas quais procedimentos não planejados se fazem necessários, quando há complicações intra-operatórias, cirurgias com tempo prolongado ou nas quais são necessárias mudanças de profissionais durante seu curso.
Apresentação clínica
Os sintomas dependem da localização do gossipiboma e da reação local causada, podendo muitas vezes serem assintomáticos ou causarem sintomas inespecíficos.
O organismo pode responder de duas formas ao corpo estranho: com uma fibrose asséptica ou de forma exsudativa. Na fibrose asséptica, a produção de fibrina sem que haja presença de microrganismos patogênicos, pode levar ao encapsulamento do material, formação de aderências ou ao desenvolvimento de um granuloma. Quando ocorre tal resposta, o paciente pode evoluir sem sintomas durante meses ou anos. Já a resposta exsudativa, ocorre quando o há a contaminação bacteriana, podendo levar a formação de abcessos e fístulas nos órgãos internos ou na parede abdominal.
No caso de gossipibomas abdominais é possível que haja dores abdominais, tumoração abdominal palpável, náuseas, vômitos, sangramentos gastrointestinais e diarréia, que podem ser acompanhados por sintomas sistêmicos, tais como febre, anorexia e anemia.
Já nos casos de gossipibomas pulmonares pode haver dor no ombro, tosse, hemoptise e dor no peito, além dos sintomas sistêmicos citados anteriormente.
É possível que o gossipiboma permaneça por anos assintomático se a resposta de fibrose asséptica levar a formação de uma cápsula, isolando o corpo estranho dos órgãos adjacentes, caso em que o diagnóstico seria incidental.
Complicações
Diversas complicações podem ocorrer como perfuração de vísceras, obstrução intestinal, peritonite, formação de fístulas, septicemia e, mais curiosamente, a migração do corpo estranho para o lúmen gastrointestinal ou urinário.
A rara migração transmural é um processo lento, podendo demorar anos, e sintomático, podendo causar dor abdominal, náuseas, diarreia, entre outros.
Ao migrar, o corpo estranho penetra em vísceras ocas, mais comumente intestino delgado e cólon. Ao entrar no lúmen intestinal, o gossipiboma pode causar obstruções completas ou parciais, impactando principalmente na válvula íleo-cecal, síndrome de má absorção e hemorragia digestiva. Uma vez no ceco, há maior probabilidade de que, a depender de seu tamanho, o material seja eliminado pelas fezes.
Diagnóstico
Uma vez que, boa parte das esponjas atualmente possuem marcadores radiopacos que facilitam a sua visualização na radiografia, um raio-x do campo cirúrgico é o exame mais prático para detectar um possível gossipiboma no pós-operatório imediato, no qual serão vistas linhas radiopacas em nas proximidades do sítio cirúrgico.
Contudo, no caso de paciente com sintomas mais arrastados e inespecíficos, correlacionar uma cirurgia anterior com a dor abdominal atual, pode ser mais complexo. Assim, pacientes com histórico de cirurgia, principalmente em situações que possam propiciar a retenção de material cirúrgico, sintomáticos ou não, sempre é necessário ter o gossipiboma na lista de hipóteses diagnósticas.
Além da radiografia, também é possível visualizar o textiloma ao se utilizar ultrassonografia,a tomografia computadorizada, utilizada principalmente para identificar complicações no quadro antes de instituir o tratamento.
Como diagnóstico diferencial, pode-se citar hematomas, fecaloma, aderências pós-operatórias, intussuscepção, volvo, tumores e abscessos intracavitários.
Tratamento e prevenção
O tratamento de escolha é a retirada cirúrgica do gossipiboma por via laparoscópica, laparotômica ou, até mesmo, endoscópica, caso tenha ocorrido a migração transmural.
Porém, mais importante do que abordar o tratamento, é discutir as diferentes táticas que podem ser utilizadas para prevenir que a retenção de itens cirúrgicos ocorra. A marcação das gazes e compressas com fitas cirúrgicas é uma dessas táticas, além da contagem do material cirúrgico em diferentes etapas do processo cirúrgico e, no caso de cirurgias abdominais, a exploração dos quatro quadrantes abdominais ao final da operação.
Talvez você nunca se depare com um caso desses durante toda a sua carreira médica, mas se ocorrer, você não vai mais ficar encarando o exame de imagem mostrando um gossipiboma e se perguntando o que seria aquilo. ; ).
Diversas imagens de casos de gossipibomas podem ser vistas no artigo sobre o assunto no site Radiopedia. Caso tenha restado alguma dúvida ou uma curiosidade mais profunda sobre o tema, confira as referências bibliográficas do artigo.
Referências
Manzella A, Filho PB, Albuquerque E, Farias F, Kaercher J. Imaging of gossypibomas: pictorial review. AJR Am J Roentgenol. 2009 Dec;193(6 Suppl):S94-101. [Acessado 19 Abril 2022]. Disponível em: https://www.ajronline.org/doi/10.2214/AJR.07.7132
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Silva, SM e Sousa, JB. Gossipiboma após operação abdominal é situação clínica desafiadora e sério problema médico legal. ABCD. Arquivos Brasileiros de Cirurgia Digestiva (São Paulo) [online]. 2013, v. 26, n. 2 [Acessado 19 Abril 2022] , pp. 140-143. Disponível em:
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