A origem da palavra espirometria vem do latim spirare (respirar) + metrum (medida). É um teste de função pulmonar que mede os fluxos aéreos e volumes pulmonares oriundos de manobras de inspiração e expiração forçadas ou lentas.
Os resultados contribuem para o diagnóstico do caráter dos distúrbios pulmonares (obstrutivo e/ou restritivo), também é utilizada como índice de prognóstico e estadiamento de diversas doenças respiratórias, além de fornecer informações para o acompanhamento do paciente ao longo dos anos.
A razão VEF1/CVF também é conhecida como Índice de Tiffeneau-Pinelli, em homenagem aos autores que descreveram o volume expiratório forçado no 1° segundo (VEF1) em 1947, sendo um dos diversos parâmetros que podem ser obtidos na espirometria e que representa a proporção da cavidade vital forçada (CVF) que o paciente é capaz de exalar no 1° segundo de uma expiração forçada.
Composição do Índice de Tiffeneau-Pinelli
O volume pulmonar é a quantidade de ar que um indivíduo pode mobilizar durante uma determinada manobra. Numa respiração normal o volume de ar inalado ou exalado é denominado de volume corrente (VC), após uma inspiração máxima partido do VC obtém-se o volume de reserva inspiratório (VRI).
Caso opte em realizar uma expiração máxima partindo do VC, teremos o volume de reserva expiratório (VRE), e a quantidade de ar pulmonar que não consegue ser mobilizada é denominada volume residual (VR).
Quando são combinados dois ou mais volumes obtêm-se então as capacidades pulmonares, que são:
- Capacidade inspiratória (CI): VC + VRI
- Capacidade residual funcional (CRF): VRE + VR
- Capacidade vital (CV): VC + VRI + VRE
- Capacidade pulmonar total (CPT): VC + VRI + VRE + VR
Na espirometria, a CV pode ser obtida através de uma manobra lenta, sendo designada capacidade vital lenta (CVL) ou executada de uma forma rápida e forçada, denominada como capacidade vital forçada (CVF). A CVF é normalmente igual à CVL, sendo aceitável uma diferença menor que 0,2L em indivíduos sem obstrução ao fluxo aéreo.
A CVF maior que CVL significa, geralmente, falta de cooperação na manobra lenta. Uma CVF pode ser menor do que a CVL em indivíduos com distúrbio obstrutivo (diferença acima de 0,2L), evidenciando colapso das vias aéreas durante a expiração forçada.
Os valores registrados de VEF1 e CVF são utilizados para compor o Índice de Tiffeneau-Pinelli. A CVF representa o maior volume de ar que um indivíduo consegue mobilizar em uma expiração forçada. É obtida solicitando uma inspiração máxima, até a CPT, e uma expiração tão rápida e intensa quanto possível, até o VR. Já o VEF1 representa o volume de ar exalado registrado no primeiro segundo durante a manobra de CVF, ele representa uma das várias unidades de tempo que podem ser registradas durante o momento de exalação.
Os valores de normalidade do Índice de Tiffeneau-Pinelli variam conforme diversos fatores (idade, sexo, altura). Crianças e adultos jovens expiram mais de 80% da CVF no 1° segundo, enquanto que indivíduos com idade até 45 anos expiram em geral mais de 75% da CVF no 1° segundo, ao passo que idosos expiram mais de 70% da CVF no 1° segundo.
Aplicações clínicas
Distúrbios obstrutivos
O estreitamento das vias aéreas nos distúrbios obstrutivos, resulta em uma maior redução do VEF1 em relação à CVF, promovendo uma relação VEF1/CVF reduzida.
O Índice de Tiffeneau-Pinelli é indispensável para o diagnóstico da doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), a Global initiative for chronic Obstructive Lung Disease 2020 (GOLD 2020) determina que o diagnóstico de DPOC deve associar o contexto clínico com a presença de VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,70 confirmando a presença de limitação persistente ao fluxo aéreo. Posterior à confirmação, o estadiamento é realizado através da utilização dos valores de VEF1 comparados ao previsto do paciente (Tabela 1).
Distúrbios restritivos
Os distúrbios restritivos são caracterizados por volumes pulmonares reduzidos devido a alterações nas propriedades teciduais dos pulmões ou da parede torácica.
A perda de volume pulmonar pode ocorrer quando o parênquima pulmonar é deslocado (tumores ou derrames pleurais) ou removido (ressecção), quando ocorre afecções do próprio tecido pulmonar (fibroses ou infiltrações), além de patologias que afetam a parede torácica ou os músculos respiratórios que comumente podem resultar em restrição.
Um distúrbio restritivo é caracterizado pela redução da CPT. A espirometria pode sugerir um padrão restritivo, quando ocorre redução significativa da CVF associada à relação VEF1 /CVF normal ou aumentada.
Pontos-chave
- A espirometria mede volumes e fluxos aéreos, sendo importante para o diagnóstico, monitorização e estadiamento dos pacientes.
- O Índice de Tiffeneau-Pinelli é obtido através da divisão do VEF1/CVF, cujos valores são obtidos na espirometria.
- A presença de VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,70 associado a um contexto clínico sugestivo, definem o diagnóstico de DPOC.
- Os distúrbios restritivos são caracterizados pela redução da CVF associado a uma relação VEF1/CVF normal ou aumentada.
Sugestão de leitura complementar
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Referências
- TIFFENEAU, R; PINELLI, A. Air circulante et air captif dans l’exploration de la fonction ventilatrice pulmonaire. Paris Med. v. 133, p. 624-828, 1947. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/18909782/
- GRAHAN, B et. al. Standardization of Spirometry 2019 Update – An Official American Thoracic Society and European Respiratory Society Technical Statement. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine. v. 200, n. 8, out. 2019. Disponível em: https://www.atsjournals.org/doi/full/10.1164/rccm.201908-1590ST
- PEREIRA, C. Diretrizes para testes de função pulmonar. Espirometria. Jornal Brasileiro de Pneumologia. v. 28 (supl. 3), out. 2002. Disponível em:http://www.jornaldepneumologia.com.br/details-supp/45
- GOLD – Pocket guide to COPD diagnosis, management and prevention – A guide for health care professionals. 2020 Report. Disponível em: https://goldcopd.org/gold-reports/