Olá, caro leitor! Minha intenção
nesse texto é discutir, primeiramente, um pouco o contexto da COVID-19, para
que depois possamos falar especificamente do processo de invasão celular. Desejo
que você tenha uma boa leitura!
Uma breve introdução
O primeiro caso de
COVID-19 foi relatado em dezembro de 2019, na província chinesa de Hubei, como
uma pneumonia grave de origem desconhecida. Amostras do epitélio respiratório
dos doentes foram analisadas e então descobriu-se que se tratava de um novo
vírus da família Coronaviridae, denominado mais tarde como Sars-CoV-2. O
termo pandemia teve sua aplicação oficial no dia 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No momento
em que esse texto está sendo redigido, o número de infectados no mundo é
superior a 44,5 milhões e as mortes ultrapassam a marca assustadora de 1,1 milhão de pessoas.
O Sars-CoV-2 é um
betacoronavírus de ácido ribonucleico (RNA), sentido positivo e envelopado com
1273 aminoácidos. As extremidades do Sars-CoV-2 possuem projeções em espículas,
denominadas proteínas spike, você
pode ver com outros nomes, como proteína S ou spike protein, mas se referem à mesma estrutura.
“Ah, Vinícius, eu vi uma
denominação com número”. Sim, provavelmente a nomenclatura vista por você é:
proteína S1 e proteína S2. Essas estruturas são subdivisões da estrutura maior,
que é a proteína S, e possuem papeis importantíssimos no mecanismo de invasão
celular. Mais adiante veremos a função dessas subunidades.
A COVID-19, causada pelo
Sars-CoV-2, é uma doença infecciosa grave que pode acometer o ser humano em
diversos sistemas, com destaque para o desenvolvimento da síndrome respiratória
aguda grave (SRAG), pneumonia intersticial bilateral atípica, síndrome da tempestade
de citocinas e hipóxia sistêmica. Ademais, é relatado na literatura que o
desenvolvimento de formas graves está associado à concomitância de comorbidades
na história clínica do paciente. Os sintomas mais
comuns são febre alta, tosse seca e cansaço. A transmissão se dá a partir
do contato com gotículas de saliva contaminadas, e acredita-se que pacientes
assintomáticos são potenciais disseminadores da doença.
Como a célula é invadida
Acredito que agora já
podemos abordar o processo de invasão da
célula pelo Sars-CoV-2.
Podemos considerar que acometimentos
respiratórios são frequentes, devido ao primeiro contato do vírus com o trato
respiratório, contudo tem de haver algo nessa estrutura que o SARS-CoV-2
utilize para invadir as células e desencadear a doença, já que, se ele não
invade, não há doença.
Estudos descobriram que, a exemplo de outros
membros da família Coronaviridae,
como o SARS-CoV-1 e o MERS-CoV, protagonistas de outros surtos de infecção no
passado, o SARS-CoV-2 possui um domínio de ligação ao receptor da enzima
conversora de angiotensina 2 (ECA2) e que essa proteína é usada na invasão
celular, apresentando uma afinidade de ligação cerca de 10 a 20 vezes maior que
seus antecessores. Logo, podemos deduzir que se os primeiros pacientes tinham
sintomas respiratórios e uma pneumonia grave, o trato respiratório tem que
apresentar ECA2.
Agora, pensando em como ocorre essa interação,
devemos saber que o SARS-CoV-2 tem proteínas de pico, as chamadas proteínas
spike ou proteínas S. São essas estruturas que dão aspecto de “coroa” do
coronavírus. Essa proteína S é formada por dois domínios, o S1 e o S2. O
domínio S1 possui, segundo a literatura científica, o domínio de ligação à ECA2,
e o domínio S2 é responsável pela fusão do vírus com a membrana celular do
hospedeiro.
Então, podemos descrever o processo de invasão
simplificadamente da seguinte forma:
- O SARS-CoV-2,
após alcançar o interior do corpo do ser humano, irá interagir com tecidos que
expressam receptores de ECA2 por meio do domínio S1 da proteína S, em uma região
denominada domínio de ligação ao receptor; - Ao efetuar esse
mecanismo, o domínio S2 irá promover a fusão celular; - Durante esse
processo, há a ativação de proteínas transmembranas, como a serina protease
transmembrana II (TMPRSS2), que irá auxiliar no processo de invasão celular; - Nesse contexto,
considerando o conhecimento que se tem até hoje, para a infecção de uma célula,
o tecido alvo do Sars-CoV-2 deve expressar o receptor da ECA2 e TMPRSS2 para
que seja promovido todo processo de invasão.
Diante disso, cabe ressaltar que todos os
tecidos que apresentem mecanismos de invasão que possam ser usados pelo
SARS-CoV-2 podem ser pontos de acesso do vírus ao interior de células humanas.
Células alveolares de tipo II são ricas em ECA2, mas já estão sendo relatadas inúmeras
manifestações extrapulmonares. Tecidos cardíacos, renais, gastrointestinais,
hepáticos, endocrinológicos, neurológicos e oftálmicos vêm sendo relatados pela
literatura como potenciais pontos de invasão do SARS-CoV-2.
Depois dessa explicação, gostaria de agradecer
a você que me acompanhou até aqui e dizer que, no caso de qualquer intercorrência, entre em contato
através da rede social deixada ao final do texto.
Aproveito a oportunidade para reforçar algumas recomendações que são de extrema
importância: use máscara, higienize as mãos frequentemente, não participe de
aglomerações e só saia se realmente houver necessidade. A pandemia não acabou e
a ciência ainda não descobriu uma cura. Acredite na ciência! Obrigado.
Autor: Vinícius Faustino, estudante de
medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).
Instagram: @vinicius_faustino_
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.