A Coreia de Sydenham (CS) ou Coreia Reumática é um distúrbio do movimento, mais prevalente entre os jovens, com idade média para início de sintomas entre 8 e 9 anos de idade e sendo mais comum no sexo feminino. A CS está associada à Febre Reumática e é considerada a causa mais comum de coreia aguda em crianças. Apesar de existir tratamento com bom prognóstico e qualidade de vida no seguimento do paciente, ainda é uma doença negligenciada e pouco referenciada na literatura, além de não estar na base teórica de todos os profissionais de saúde. Assim sendo, a Coreia de Sydenham deve ser bem estudada para que se possa identificar e tratar o mais precocemente os pacientes com esse distúrbio e, dessa forma, garantir-lhes uma melhor situação de vida.
Introdução
A Coreia de Sydenham é consequente da doença autoimune causada pela infecção com o Streptococcus pyogenes (beta-hemolítico do grupo A), a Febre Reumática. Foi considerada endêmica até a segunda metade do século XX, contudo, sofreu decréscimo em sua incidência. Apesar desses fatores, ainda constitui a principal causa de coreia (distúrbio do movimento que cursa com movimentos involuntários e arrítmicos). No Brasil, não há estudos epidemiológicos recentes, porém relatos de profissionais apontam para redução em sua incidência, segundo a Academia Brasileira de Neurologia (2019).
Manifestações Clínicas e Patologia
A sintomatologia da Coreia de Sydenham apresenta-se tipicamente com alterações motoras, como coreia, impersistência motora e hipotonia. Pode haver também alterações não motoras, como diminuição da fluência verbal, déficit de atenção e hiperatividade, distúrbios do sono e, frequentemente, alterações psiquiátricas. Essas condições são consequentes de um “mimetismo” entre alguns antígenos do S. pyogenes com proteínas de superfície de neurônios dos núcleos basais.
O quadro tem início tardio comparado às outras complicações da febre reumática, ocorrendo em cerca de 1 a 6 meses após a infecção e podendo estender-se até alguns anos. Contudo, na maioria dos casos os sintomas têm duração de aproximadamente 1 a 3 meses, sendo a coreia uma manifestação clínica autolimitada.
A Febre Reumática é uma complicação de uma orofaringite estreptocócica e a reação cruzada produz um processo de autoimunidade. Afeta crianças entre 5 a 15 anos, com baixo nível socioeconômico. Pode cursar com artrite e cardite.
Os movimentos coreicos lembram uma dança, são bruscos, involuntários e geralmente são complexos. Ocorrem deslocamentos de membros superiores e inferiores, balanço de cabeça, desvio dos olhos e podem inclusive atingir vários segmentos do corpo. Clique no link a seguir para ser redirecionado à um vídeo de uma paciente com manifestações motoras de Coreia Reumática: Corea de Sydenham – YouTube.
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico, haja vista que exames de imagem contribuem pouco. A Tomografia Computadorizada de crânio apresenta-se sem alterações. Uma possível indicação é a ecocardiografia com Doppler, o que pode apontar para anormalidades da válvula mitral em 4/5 dos casos. Por conta da propriedade crônica da Coreia de Sydenham, níveis de indicadores de infecção por S. pyogenes estão ausentes.
Apesar de não existir evidências em testes de imagens, alguns exames laboratoriais, como dosagem de glicose sérica, testes de função de tireoide, anticorpos antinucleares e sorologia para sífilis podem ser úteis para descartar diagnósticos diferenciais. Alguns diagnósticos diferenciais são tiques, movimentos distônicos e atetose.
Assim sendo, utiliza-se atualmente os critérios de Jones (1944) para diagnosticar Coreia de Sydenham, os quais se baseiam em presença de coreia aguda e falta de evidências para outras causas. Os critérios foram divididos em maiores e menores, sendo necessária a presença de dois critérios maiores ou um critério maior e dois critérios menores para probabilidade alta de Febre Reumática Aguda. Com modificações pela American Heart Association (AHA), em 1992 e 2015, os critérios de Jones incluem cardite, artrite, eritema marginado e nódulos subcutâneos.
Tratamento
Conforme recomendações da Associação Brasileira de Neurologia, o tratamento é feito através de pulsoterapia com metilprednisolona venosa durante 5 dias. Após isso, indica-se prednisona oral com redução gradual de sua posologia até a suspensão total. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda tratamento profilático com antibiótico até 21 anos de idade. O medicamento indicado é penicilina benzatina a cada 21 dias. Para controlar a coreia, a primeira escolha é o ácido valproico, devido à predisposição dos pacientes a desenvolver parkinsonismo secundário.
Prognóstico
Os pacientes tendem a evoluir para a cura, devido a possibilidade de tratamento. Com prognóstico autolimitado, a Coreia Reumática pode ser reversível em poucos meses ou anos. Há controvérsia no prognóstico psiquiátrico a longo prazo, porém alguns estudos demonstram a possibilidade de predisposição dos acometidos pela Coreia Reumática a desenvolver depressão, tiques e dificuldade de concentração.
Conclusão
A Coreia de Sydenham causa movimentos involuntários e incessantes, manifestações bastante incômodas aos pacientes. As pessoas acometidas por essa doença são, em sua grande maioria, crianças, fator importante que alerta para sua importância epidemiológica. Isso porque, embora seja rara, é uma condição com tratamento possível e bom prognóstico, tonando necessário seu entendimento para todos os clínicos, especialmente os pediátricos, visto que afeta indivíduos em pleno desenvolvimento.
Autora: Maria Jayne Lira de Araújo
Instagram: @mjayne.lira
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Referência
COUTO, R. B. Tratamento da Coreia de Sydenham: Uma revisão sistemática. Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Medicina da Bahia, 2015.
Tratado de Neurologia da Academia Brasileira de Neurologia. Elsevier. Grupo GEN, 2019. 9788595151314. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788595151314/. Acesso em: 09 abr. 2021.