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Vacinas para tratamento da dependência química | Colunistas

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Os mais diversos tratamentos para dependência química são pautados principalmente em medidas comportamentais e no uso de medicamentos não específicos, como bupropiona, nortriptilina (usados para dependência de nicotina), psicofármacos utilizados para tratamento da dependência de cocaína (como anticonvulsivantes e antidepressivos tricíclicos), entre outras. Mas e se existisse um tratamento específico para cada tipo de droga e fosse na forma de vacinas?

O que são vacinas?

Vacinas são substâncias capazes de gerar uma resposta imunológica na pessoa em que foi inoculada, protegendo-a de uma futura infecção. A premissa é fazer um primeiro contato com aquele microrganismo ou antígeno para que no futuro ela esteja protegida. Existem diversas formas diferentes de vacinas, podendo ser com vírus e bactérias atenuados (sarampo), antígeno purificado (tétano), antígenos sintéticos (hepatite), uso de plasmídeo contendo DNA complementar etc.

Como funciona uma vacina para dependência química?

As drogas utilizadas pelos usuários, sendo lícitas ou ilícitas, têm algo que difere de vírus e bactérias quanto à proteção imunológica. Essas substâncias não são capazes de gerar uma resposta imune por si só. Isso quer dizer que não importa quanta droga a pessoa use, seu corpo não será capaz de produzir anticorpos para poder combater os efeitos. Então, como fazer uma vacina?

Existem, basicamente, duas formas para driblar isso. A primeira é criar uma substância semelhante à droga (substância-like ou droga-like), uma “droga artificial”, que não causaria os efeitos deletérios no organismo, ao passo que conseguiriam gerar uma resposta imune, gerando anticorpos que protegeriam contra a droga. A segunda alternativa é o uso de adjuvantes, que nada mais são que substâncias capazes de gerar uma forte resposta imunológica, como a Tetanus Toxoid (vacina para tétano). Para conseguir uma melhor resposta, atualmente, as duas estratégias são empregadas juntas.

As vacinas produzidas para dependência química

Hoje nos encontramos na época da chamada “segunda geração de vacinas”, isso porque a primeira geração começou a surgir no fim do século XX, entrando em testes de larga escala no início dos anos 2000. Infelizmente elas acabaram falhando e os estudos foram encerrados, dando origem a segunda geração, que ainda se encontra no início.

As vacinas que ficaram mais conhecidas foram a vacina para tratamento de dependentes da nicotina, conhecida como NicVAX, e a que estava sendo estudada para cocaína, TA-CD. A NicVAX ficou 11 anos em estudo, até que, na fase três, acabou não passando nos testes. A TA-CD seguiu basicamente o mesmo caminho, falhando na fase III das pesquisas. Essas consideradas de primeira geração utilizavam a primeira estratégia (uso de substâncias semelhantes à droga), que gerava uma resposta imune, mas não era suficiente.

A segunda geração tenta melhorar os resultados da primeira. Para isso, são estudadas não só novas drogas-like, como também adjuvantes e suas diversas formas de ligação intermoleculares. A ideia é conseguir gerar uma reação imunológica capaz de alcançar altos valores de anticorpos circulantes.

Quais os parâmetros para medir a eficácia?

Para entender os desafios (próximo tópico), primeiro precisamos entender quais os parâmetros utilizados para medir a eficácia das vacinas. O primeiro deles é justamente a quantidade de anticorpos gerados com o uso da vacina. Esse é o mais fácil de entender, quanto mais altos esses teores, melhor foi a resposta. O segundo é a quantidade de moléculas da droga que se encontra no plasma, que deve ser entendido em conjunto com o terceiro parâmetro, que é a quantidade de moléculas que cruzaram a barreira hematoencefálica.

Quando a droga está livre no corpo, ela consegue cruzar de forma praticamente livre a barreira hematoencefálica. Quando feita a inoculação da vacina, os anticorpos produzidos pelo corpo se ligam às moléculas da substância utilizada, impedindo que estas cruzem a barreira e aumentando a sua concentração no plasma sanguíneo. Isso quer dizer que esses dois parâmetros são inversamente proporcionais; quanto menor a concentração encefálica da droga, maior a concentração encontrada no plasma, e maior a sua eficácia.

Desafios que precisam ser superados

O primeiro deles, que basicamente já está sendo superado, é a quantidade de anticorpos produzidos pelo corpo. A resposta imunológica produzida somente com substâncias-like era menor do que o necessário e isso foi evidenciado nos estudos da primeira geração. O uso de adjuvantes para aumentar essa produção já está sendo feita, ultrapassando esse obstáculo.

Outra questão é a capacidade de “burlar” o sistema imunológico. Aqui é que ficou evidenciada a falha dos primeiros estudos. Os participantes do estudo (uma parte deles) começou a fazer mais uso do entorpecente, aumentando sua concentração plasmática a níveis que os anticorpos não eram capazes de combater, conseguindo os efeitos que queriam e aumentando o risco à saúde, principalmente por agravo a outros sistemas do corpo, em especial ao cardiovascular.

Outro importante desafio é a duração dos anticorpos. Os estudos mais recentes com uma vacina para cocaína conseguiram altos valores plasmáticos de anticorpos, mas a duração deles era de apenas 4 meses. Isso quer dizer que, para um tratamento eficaz, a pessoa precisaria fazer uso da vacina pelo menos três vezes por ano, por tempo indeterminado. Considerando as populações que fariam uso desse tipo de estratégia, seria muito difícil manter adesão à terapêutica.

Conclusão

Embora seja um tema altamente estudado em laboratórios pelo mundo nos últimos 30 anos, os avanços encontrados em laboratório ainda não foram concretizados em humanos. Novos tratamentos são necessários para conseguir resolver esse problema de saúde pública, e, em um futuro, as vacinas podem surgir realmente como uma alternativa, embora hoje essa ainda seja uma realidade muito distante.

Autor: Lucas Dias Brito Infante

Instagram: @lucasinfante


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

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