Desde a declaração da pandemia de COVID-19 em 2020, diversos estudos foram desenvolvidos no intuito de produzir vacinas capazes de reduzir significativamente a mortalidade da doença. Finalmente, algumas entidades conseguiram produzir imunizantes eficazes no combate ao SARS-COV2 (coronavírus 2 da síndrome respiratória aguda grave). As principais vacinas introduzidas no Brasil foram: CoronaVac, AstraZeneca, Pfizer e Janssen. Em virtude das dúvidas no que concernem os mecanismos de ação e a eficácia de cada uma dessas vacinas, o texto a seguir abordará tais especificidades.
Estrutura do SARS-COV2
Para entendimento da ação das diferentes vacinas desenvolvidas, é necessário certo conhecimento sobre a estrutura viral sobre a qual esta atuará. O SARS-COV2 é um vírus de RNA, envelopado, que possui as proteínas estruturais S, E, M e N. A proteína S é responsável pela ligação ao receptor e pela fusão de membranas. A proteína E atua no processo de montagem viral e brotamento. A proteína M determina o sítio de brotamento do vírus. A proteína N é responsável pela estabilização do nucleocapsídeo, síntese e tradução do RNA e antagonismo ao interferon.
Sua replicação ocorre após a conexão da proteína S ao receptor celular ACE2 (Enzima Conversora de Angiotensina 2), presente nos pneumócitos tipo II, no endotélio, no intestino delgado, no miocárdio, nas células musculares lisas e nos túbulos renais proximais. Segue-se então com a fusão entre membrana plasmática e envelope viral e consequente desnudamento viral. Outra possibilidade de entrada para o vírus é através de endocitose. A partir desse momento, há tradução e clivagem proteica para formação do complexo replicase-transcriptase, posterior síntese do RNA genômico, maturação do vírion e exocitose.
Vacina CoronaVac
A CoronaVac foi desenvolvida pelo Instituto Butantã em associação a empresa chinesa Sinovac. É uma vacina de vírus inativado com eficácia média de 50,65%. Para sua produção, os pesquisadores desativaram os vírus cultivados com uma substância chamada beta-propiolactona, a qual impede sua replicação, mantendo suas proteínas superficiais. Os vírus inativados ainda são combinados com um adjuvante com base de alumínio que estimula o sistema imunológico a atuar de forma mais expressiva.
Após introdução, os vírus inativados são fagocitados por células apresentadoras de antígenos. Por sua vez, essas células apresentam as partículas virais a células T auxiliares e estas recrutam outras células imunológicas. Todo esse processo culmina na produção de anticorpos específicos para as propriedades do SARS-COV2, atuando por exemplo na inibição das proteínas em espículas (Spikes) em sua superfície, e na geração de memória imune para uma resposta mais rápida e eficaz em futuros encontros com o mesmo vírus.
A vacina deve ser aplicada em 2 doses de 0,5 mL com um intervalo de 1 a 4 semanas.
Vacina AstraZeneca
A AstraZeneca foi desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a empresa AstraZeneca. Sua eficácia média observada em estudos é de 76%. A produção da vacina baseia-se na introdução de um adenovírus de chimpanzé capaz de entrar nas células, porém não replica-se em seu interior, adicionado de proteínas Spikes do SARS-COV2. O adenovírus introduzido adentra as células e as induz a produção de proteínas Spikes pela própria células, com migração destas para sua superfície. Quando o sistema imune reconhece a presença dessas proteínas, a cascata imunológica é ativada, culminando na formação de memória imune e proteção para as futuras interações com o vírus da COVID-19.
A vacina deve ser administrada em 2 doses de 0,5 mL com intervalo de 12 semanas.
Vacina Pfizer
A vacina produzida em conjunto entre a farmacêutica Pfizer e o laboratório BioNTech é uma vacina de RNA e seu mecanismo difere das vacinas convencionais. A Pfizer tem sua ação baseada na introdução de uma sequência de RNA mensageiro com instruções para a produção de proteínas virais por células humanas. Essa produção então gera a ativação do sistema imune posterior.
A eficácia da vacina Pfizer foi constatada por volta de 95% e sua aplicação deve ser feita em 2 doses com intervalo de 21 dias.
Vacina Janssen
A vacina Janssen foi desenvolvida pelo grupo Johnson & Johnson e possui eficácia média de 76,7%. Seu mecanismo de ação é similar ao apresentado pela vacina AstraZeneca, utilizando um vetor viral (adenovírus) como forma de introduzir informações do SARS-COV2 e induzir a resposta imunológica.
O diferencial da vacina Janssen está na aplicação em apenas 1 dose, facilitando a logística de aplicação e abordagem populacional.
Conclusão
As vacinas trouxeram a esperança de finalização da pandemia de COVID-19. O avanço da vacinação já é realidade em diversos países e vem representando bons prognósticos em relação à redução dos agravos da doença. As diversas vacinas desenvolvidas, apesar de apresentarem diferenças em tecnologia de produção, induções imunológicas, aplicações e eficácia, são igualmente fundamentais para a redução dos riscos e obtenção de um futuro retorno a normalidade no mundo. Para isso, é essencial que a população cumpra os calendários vacinais instituídos, comparecendo a convocação do seu referente grupo, sem selecionar a vacina a ser tomada e mantendo as restrições para proteção como uso de máscaras e afastando-se de aglomerações até o esperado fim da pandemia.
Autora: Mariana Saldanha
Instagram: @marisaldanha1
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Brasil vai receber 800 mil doses de vacina da Pfizer contra Covid em junho – https://www.istoedinheiro.com.br/brasil-vai-receber-800/
Campanha nacional de vacinação contra a covid-19 – https://www.dive.sc.gov.br/conteudos/publicacoes/Informe%20T%C3%A9cnico%202%C2%BA%20Edi%C3%A7%C3%A3o.pdf
Como funciona a vacina Oxford-AstraZeneca – https://www.nytimes.com/interactive/2020/health/oxford-astrazeneca-covid-19-vaccine.html
Como funciona a vacina sinovac – https://www.nytimes.com/interactive/2020/health/sinovac-covid-19-vaccine.html
CoronaVac possui alta proteção contra variante Delta, diz estudo – https://olhardigital.com.br/2021/08/18/coronavirus/coronavac-possui-alta-protecao-contra-variante-delta-diz-estudo/
COVID-19: Fisiopatologia e Alvos para Intervenção Terapêutica – http://static.sites.sbq.org.br/rvq.sbq.org.br/pdf/v12n6a10.pdf
Quais são as diferenças entre as vacinas contra Covid-19 que estão sendo aplicadas no Brasil? – https://butantan.gov.br/covid/butantan-tira-duvida/tira-duvida-noticias/quais-sao-as-diferencas-entre-as-vacinas-contra-covid-19-que-estao-sendo-aplicadas-no-brasil
Plano nacional de operacionalização da vacinação contra a covid-19 – https://www.conasems.org.br/wp-content/uploads/2021/04/PLANONACIONALDEVACINACAOCOVID19_ED06_V3_28.04.pdf
Safety and Efficacy of the BNT162b2 mRNA Covid-19 Vaccine – https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7745181/
SARS-CoV-2 (Covid-19) vaccines structure, mechanisms and effectiveness: A review – https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0141813021017359
SARS-CoV-2: origem, estrutura, morfogênese e transmissão – https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/32370/8/vol1_cap2_SARS-CoV-2%20origem%20estrutura%20morfogenese%20e%C2%A0transmissao.pdf
Vacina da Janssen atrasa e não chegará nesta terça ao Brasil – https://exame.com/brasil/vacina-da-janssen-atrasa-e-nao-chegara-nesta-terca/
Vacina de Oxford dá boa resposta imunológica em idosos, diz pesquisador-chefe – https://www.cnnbrasil.com.br/saude/vacina-de-oxford-da-boa-resposta-imunologica-em-idosos-diz-pesquisador-chefe/
Vacina Johnson & Johnson: Qual a diferença? – https://www.vcuhealth.org/news/covid-19/johnson-and-johnson-vaccine-how-is-it-different