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Uso de probióticos como recurso terapêutico no transtorno do espectro autista (TEA) | Colunistas

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De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é caracterizado por alterações no desenvolvimento neurológico e dificuldade de comunicação e sociabilidade, características que são unidas a comportamentos repetitivos, restritos e estereotipados. É um transtorno permanente e sem cura, mas algumas ferramentas podem ser utilizadas para suavizar os sintomas e melhorar a qualidade de vida desses pacientes.  

Estima-se que a prevalência do TEA seja de 1 em cada 160 crianças, com predomínio no sexo masculino em uma proporção de 4:1. A etiologia do TEA é idiopática, mas está muito relacionada a influências genéticas e ambientais, como idade dos pais e exposição a determinados medicamentos durante a gestação. É uma condição que se manifesta em espectros, de modo que os sintomas variam muito conforme os pacientes. Além dos sintomas neurocomportamentais dá-se ênfase aos sintomas gastrointestinais, como náuseas, vômitos e outros relacionados, como seletividade alimentar e algumas intolerâncias. 

Desse modo, entendendo que é uma doença primariamente neurológica com sintomas gastrointestinais, levanta-se uma hipótese a respeito da importância e influência do eixo-intestino-cérebro-microbiota na patogênese dessa doença. Sabe-se que o eixo intestino-cérebro-microbiota é uma via bidirecional responsável por interações físicas, neuronais, sensoriais, imunológicas, endócrinas e parácrinas entre esses dois sistemas. Desse modo, existe a possibilidade de que no TEA o equilíbrio das funções intestinais e de microbiota possa interferir nas manifestações neurológicas. Pensando nisso, os probióticos são microrganismos vivos que podem ser ingeridos como produtos alimentares e medicamentos, esses que promoveriam uma eubiose e regulariam ações fisiológicas, fatores que poderiam ajudar tanto na amenização dos sintomas gastrointestinais quanto na redução da gravidade da doença. 

Estudos atuais concordam que existe uma predisposição genética na etiologia do autismo, porém não é claro se essa alteração genética reflete na expressão de genes que altera diretamente o sistema nervoso ou interfere na expressão de genes ligados a outros locais e que possibilitariam a patogênese da doença, como o trato gastrointestinal.

Os pacientes apresentaram alteração da expressão gênica de transportadores envolvidos na digestão e absorção de alimentos, fato que gera um desequilíbrio das funções gastrointestinais e da microbiota. A maioria dos pacientes também apresentavam alteração da permeabilidade intestinal associado à reatividade ao glúten e caseína – características em sua maioria herdada pelos pais apesar dos genitores não terem diagnóstico de TEA. Desse modo, a alteração de permeabilidade associada a depleção do sistema imune poderia agravar os distúrbios gastrointestinais e comportamentais, além de permitir a passagem de neurotoxinas que atingem o sistema nervoso e provocariam TEA. 

Além disso, esses pacientes apresentam um processamento sensorial atípico, que é a forma que o cérebro recebe, integra e organiza as informações para que o paciente com TEA realize suas ações cotidianas – envolvendo gustação, olfato, visão, audição e propriocepção. Como consequência, podem apresentar um quadro de seletividade alimentar que gera deficiências nutricionais e alterações da população bacteriana da microbiota. De modo geral, essas alterações nutricionais agravariam os sintomas do TEA e poderiam ser alvo de terapias que controlassem a patogênese dessa doença. 

Nota-se que a gravidade dos sintomas nutricionais gastrointestinais pode ter relação direta, em que o eixo intestino-cérebro-microbiota poderia influenciar tanto na etiologia e nas manifestações do TEA. Algumas bactérias da microbiota podem auxiliar na produção de neurotransmissores e precursores que modulariam o percurso e a gravidade dos sintomas neurocomportamentais, como Bifidobacterium infantis está associada à produção do precursor de triptofano.

Além disso, o aumento de alguns Firmicutes como Clostridium são produtores de neurotoxinas que podem agravar os sintomas neurocomportamentais – bactérias que povoam o trato gastrointestinal dos autistas cerca de 10 vezes mais. De modo geral, os probióticos podem auxiliar nos sintomas por restabelecer a eubiose e a homeostase de inúmeras funções cognitivas, comportamentais e gastrointestinais. Além disso, o equilíbrio entre bactérias como aumento de bifidobactérias e normalização da relação Bacteroidetes/Firmicutes poderia combater aos patógenos produtores de neurotoxinas. 

Também auxiliam na reposição da microbiota em pacientes com uso frequente de antibióticos por infecções de repetição, controla a inflamação e a permeabilidade intestinal, impedindo que as neurotoxinas cheguem ao sistema nervoso e, consequentemente melhora a gravidade do TEA. 

Desse modo, conclui-se que o eixo intestino-cérebro-microbiota está envolvido tanto na etiologia quanto nas manifestações clínicas do TEA, de modo que os probióticos poderiam ser aliados no tratamento e no manejo dos sintomas neurocomportamentais e gastrointestinais, reduzindo até mesmo a gravidade de alguns quadros. Deve-se considerar que existem diferentes espectros e manifestações do TEA, fato que gera um viés metodológico e dificulta a definição de um protocolo de tratamento. Todavia, faz-se necessário o desenvolvimento de mais estudos para determinar quais são as espécies, cepas, força e duração da terapia probiótica e como podemos avançar com intervenções mais precisas com base nas necessidades individuais de cada paciente. 

Lembrando que o símbolo do autismo é um quebra cabeça, que busca explicar a complexidade da doença que envolve vários fatores. Então a proposta inovadora do uso de probióticos não almeja cura efetiva, mas de redução dos sintomas e de melhora na qualidade de vida dos pacientes. 

Autora: Isabella Rezende Santos

Instagram: @bellars14


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências

MONTEIRO; Manuela Albernaz, et al. Transtorno do Espectro Autista: uma revisão sistemática sobre intervenções nutricionais. Rev. paul. pediatr., São Paulo, v. 38, e2018262, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rpp/a/xGHbpJGBKZvvrycJd4HHPyb/?lang=en. 

NAVARRO, Fernando et al. “Podem os probióticos beneficiar crianças com transtornos do espectro do autismo?.” World Journal of Gastroenterology, vol. 22,46, 2016. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5155168/.

PATUSCO; Rachel, ZIEGLER; Jane. Papel dos probióticos no gerenciamento da disfunção gastrointestinal em crianças com transtorno do espectro do autismo: uma atualização para os praticantes. Adv Nutr. 2018; 9 (5): 637-650. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6140440/pdf/nmy031.pdf.TABOUY; Laure, et. al. Dysbiosis of microbiome and probiotic treatment in a genetic model of autism spectrum disorders.” Brain, behavior, and immunity vol. 73, p. 310-319, 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29787855/.

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