Tendo em vista que a fisiopatologia da COVID-19 constitui-se principalmente de um processo inflamatório multissistêmico, o uso de aspirina pode fornecer resultados positivos desde o contexto pré-hospitalar até a hospitalização.
Inflamação na COVID-19 e aspirina
A deterioração clínica na COVID-19 é atribuída a graus variáveis de hiperinflamação, notável ativação plaquetária, disfunção endotelial e coagulopatia. Na maioria dos casos, o sistema imunológico estimulado é capaz de resolver a infecção onde inicialmente desencadeia uma resposta imunológica local, seguida pelo recrutamento de macrófagos e monócitos que, por sua vez, liberam citocinas e imunizam células T e B adaptativas respostas. Manjili et al sugerem que “a desregulação da resposta imune inflamatória, que está associada à doença COVID-19 grave, inibe o desenvolvimento de imunidade protetora à infecção.” Eles sugeriram que “a desregulação imunológica não controlada, hipercitocinemia, ” tempestade de citocinas ‘ou síndrome de ativação macrofágica está associada com SDRA(Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo), MOF(falência de múltiplos órgãos) e mortalidade em certas populações (homens, idosos e indivíduos com comorbidades).” 1 Por causa do papel da hiperinflamação em COVID-19, a Aspirina ,que tem como alvo a via inflamatória, tem sido amplamente utilizada.
Endotelite induzida por COVID-19
A inflamação endotelial causada por COVID-19 nos leva à um contexto mais promissor de tratamento para estabilizar tal dano enquanto lida-se com a replicação da SARS-CoV-2, especialmente com antiinflamatórios, drogas anticitocinas, inibidores da ECA e estatinas. Florêncio e cols. formularam a hipótese de que “a aspirina e as estatinas desempenham um papel essencial na prevenção da endotelite induzida por COVID-19 e na progressão para formas graves.”2 A partir daí conseguimos ter uma visão mais ampla do alvo terapêutico com o uso da aspirina no contexto de prevenção secundária de trombose arterial em pacientes com COVID-19 com DCV estabelecida. 3

Prevenção e manejo nos processos inflamatórios causados pela COVID-19
Os autores recomendam um regime de aspirina em baixas doses para prevenção primária de tromboembolismo arterial em pacientes com idade entre 40 e 70 anos que apresentam alto risco de doença cardiovascular aterosclerótica ou risco intermediário com potencializador de risco e baixo risco de sangramento. 4
Retrospectiva
A administração pré-hospitalar de aspirina pode ter um papel na prevenção de complicações COVID-19, especialmente trombose arterial em pacientes hospitalizados e não hospitalizados. A aspirina está associada à redução da mortalidade e menor risco de síndrome do desconforto respiratório agudo em pacientes gravemente enfermos sem COVID-19. 5 O Painel de Diretrizes de Tratamento COVID-19 e a ESC recomendam que “os pacientes que estão recebendo terapias antiplaquetárias (por exemplo, aspirina) ou anticoagulante para doenças subjacentes devem continuar esses medicamentos se receberem um diagnóstico de COVID-19, a menos que haja contra-indicações, como o risco excessivo de sangramento ou procedimentos cirúrgicos invasivos planejados.” 6
Conclusão
Sabendo que a progressão da COVID-19 é devida a inflamação, coagulopatia e endotelopatia, acaba por virar alvo potencial da aspirina por meio de suas propriedades antiinflamatórias, de agregação antiplaquetária e anticoagulante, bem como de seus efeitos pleiotrópicos na função endotelial. Por isso, a aspirina em baixa dose tem múltiplas indicações para uso durante a estadia da COVID-19, incluindo prevenção secundária de doenças cardiovasculares e trombofilaxia venosa. Podendo assim estar associada a risco reduzido de admissão à unidade de terapia intensiva, ventilação mecânica e mortalidade em pacientes hospitalizados com COVID-19.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
[1]COVID-19 as an Acute Inflammatory Disease- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32423917/
[2]Aspirin with or without statin in the treatment of endotheliitis, thrombosis, and ischemia in coronavirus disease- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32965455/
[3]Aspirin Use for the Primary Prevention of Cardiovascular Disease and Colorectal Cancer: U.S. Preventive Services Task Force Recommendation Statement- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27064677/
[4]Mortality and pre-hospitalization use of low-dose aspirin in COVID-19 patients with coronary artery disease- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33336936/
[5]Effect of Antiplatelet Therapy on Acute Respiratory Distress Syndrome and Mortality in Critically Ill Patients: A Meta-Analysis- https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0154754
[6]Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) Treatment Guidelines- https://www.covid19treatmentguidelines.nih.gov/