Introdução
Uma emergência em oftalmologia é o efeito de uma violência física ou química sobre o globo ocular, pálpebras e órbitas. Consiste em uma causa comum de cegueira entre crianças e jovens, principalmente os homens.
Corresponde a cerca de 13% das queixas em geral no Pronto Socorro, sendo que 90% dos casos são preveníveis.
São sinais e sintomas associados: olho vermelho, dor, rebaixamento da acuidade visual, sinais de infecção, corpos estranhos.
Deve-se lembrar sempre que o atendimento ao problema ocular só será iniciado no paciente estável, sendo o ABCDE priorizado.
Traumas Oculares=
Os traumas oculares podem ser subdivididos em:
Contusão (lesão fechada): a parede córneo-escleral do globo permanece intacta. Quadros não complicados podem ser manejados somente com bolsas de gelo por 24 a 48 horas.
Ruptura (lesão aberta): o ferimento envolve toda a espessura de globo, e é resultante de trauma contuso.
Laceração: a lesão ocorre em toda a espessura do globo ocular, produzida por ferimento em rasgo (impacto direto).
Laceração lamelar: afeta apenas uma parte da espessura.
Penetração: é um ferimento simples que afeta toda a espessura, geralmente associado à retenção de corpo estranho.
Perfuração: dois ferimentos que afetam toda a espessura do globo ocular, um de entrada e outro de saída.
Em todos os casos de traumatismo, mesmo sem lesão aparente, os olhos devem ser cuidadosamente examinados. O exame inicial no traumatismo ocular deve valorizar a história e o mecanismo do trauma, como ocorreu a perda visual (se súbita, lenta ou progressiva), devendo-se estimar a visão antes e imediatamente após o trauma. No exame físico, é importante a realização dos reflexos pupilares, testes de motilidade ocular e também o exame periocular.
Antes da chegada de um oftalmologista, está indicado aplicar um revestimento protetor e antibioticoterapia sistêmica.
Abrasão Corneana

Referência: https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Feyekids.med.br%2Fabrasoes-da-cornea%2F&psig=AOvVaw2VWdn__Oz4gUuP13zeHuPm&ust=1633347738802000&source=images&cd=vfe&ved=0CAwQjhxqFwoTCNCvheWUrvMCFQAAAAAdAAAAABAD
Consiste em uma lesão do epitélio corneano de forma aguda, que gera dor ocular. As principais causas gerais incluem: unhada de criança, jardinagem, escovas de cabelo, após uso de álcool, fechamento palpebral inadequado durante o sono e presença de corpos estranhos sub-tarsais.
O diagnóstico se dá através de teste com Proximetacaína 0,5% colírio + Fluoresceína 0,25% colírio.
O tratamento inicial da abrasão corneana pode ser realizado com colírio Ciclopentolato 1%, pomada de antibiótico e curativo oclusivo por 24 horas. Na alta hospitalar, o paciente deve ser orientado a fazer uso de Cloranfenicol 1% pomada, 4 vezes por dia durante 5 dias, iniciando após 24 horas. A Analgesia no quadro agudo poderá ser oral ou sistêmica.
Corpo Estranho na Córnea

Referência: https://lh3.googleusercontent.com/proxy/AJij7SDmFJVCHQ3Om7NNq6Y-VH6tNM3l7Us2AX0Bk3wPCUjfCaQrOIEGI0dJMGpiWjPIUm0M7YuJ6fPd8N827tpSxxlvmqKVVU55tY5CbplbzhtOR5fnUDmDl3AZ1kcO0W3I
Os corpos estranhos corneanos metálicos (CEC) são os mais comuns e, geralmente, advém do uso de furadeiras, esmeris e soldas. Há também os CEC por tinta seca e também CEC orgânicos.
O corpo estranho na córnea provoca quadro de dor ocular, fotofobia e vermelhidão.
Através da aplicação de colírio anestésico com fluoresceína é possível identificar a presença da lesão.
O corpo estranho deve ser removido com uso de cotonete ou agulha de insulina, sempre promovendo a eversão da pálpebra superior. Após a retirada, é realizado curativo oclusivo com pomada e colírio cicloplégico. Analgésicos orais podem ser empregados para alívio de dor.
Corpo Estranho Subtarsal=

Referência: https://disciplinadeoftalmogia.paginas.ufsc.br/files/2018/08/URGE%CC%82NCIASPDF.pdf
Nesses casos, o paciente descreve dor ao piscar e uma sensação de “areia nos olhos”. No exame ocular, abrasões lineares são visualizadas com fluoresceína na parte superior da córnea.
O corpo estranho subtarsal pode ser removido com cotonete e, em seguida, são realizados curativo e analgesia.
Perda de Lente de Contato
Pode ser espontaneamente ou após trauma. É difícil o exame diagnóstico a olho nu.
· Verifique se o paciente retirou a lente.
· Realizar exame com colírio anestésico com fluoresceína.
· Examine o fórnice conjuntival inferior.
· Inverta a pálpebra superior.
· Verifique se a LC está íntegra.
A conduta na Lesão por lente de contato é a aplicação de pomada de antibiótico quatro vezes ao dia por 5 dias (o paciente deve ser orientado a não usar as lentes durante esse período). Se houver abrasões, está indicado permanecer com curativo oclusivo durante 24 horas.
Retinopatia de Purtscher

Referência: https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Ftwitter.com%2Filindelatorremd%2Fstatus%2F302805416327385089%3Flang%3Dpt&psig=AOvVaw3Xzo7vjtSlc2h6deQt9nsV&ust=1633347332291000&source=images&cd=vfe&ved=0CAwQjhxqFwoTCPCysMGTrvMCFQAAAAAdAAAAABAD
É uma baixa súbita da visão. Associa-se a trauma crânio-encefálico grave, compressão torácica, embolia gasosa, gordurosa ou do líquido amniótico; descrita em casos de pancreatite, insuficiência renal, nascimento (parto e pós-parto) e doenças do tecido conjuntivo.
Nessa condição, ocorrem infartos arteriolares por êmbolos, que podem ser notados no exame de fundo de olho como placas e manchas algodonosas, com hemorragias peripapilares.
Não há um tratamento ocular específico. Em geral, há recuperação da acuidade visual, mas podem permanecer sequelas.
Hifema

Referência: https://www.google.com/url?sa=i&url=http%3A%2F%2Focular-al.com.br%2Fexibir.php%3Fid%3D368&psig=AOvVaw0kA7fKl38ZFSOoDbOSbGf0&ust=1633347580658000&source=images&cd=vfe&ved=0CAsQjRxqFwoTCIib74-UrvMCFQAAAAAdAAAAABAD
É um sangramento da câmara anterior do olho. Os sintomas advêm das lesões relacionadas, mas em alguns casos, pode ser grande a ponto de obstruir a visão. Está indicado repouso com cabeça elevada, aplicação de tampão ocular, aumento da ingesta de líquidos, suspender medicações anticoagulantes ou anti-inflamatórios não esteroidais, aplicação de esteroides tópicos, controle da pressão intraocular (timolol e/ou brimonidina). A limpeza cirúrgica depende do nível da PIO.
Queimadura Química
A gravidade das lesões se relaciona com o tipo de agente, a área afetada e a superfície de exposição. As lesões com álcalis (amônia, cimento, cal, soda cáustica) são duas vezes mais comuns e tendem a ser mais graves, pois são agentes que penetram rapidamente. Nas lesões com ácidos, o acometimento ocular geralmente é menos intenso.
A lesão consiste em necrose do epitélio corneano e conjuntival com oclusão dos vasos, alteração da lubrificação ocular e opacificação do estroma.
Lavar imediatamente no local do acidente.
· Instilar anestésico tópico.
· Irrigar olhos com de SF ou Ringer Lactato por 10-20 min (ou água).
· Everter as pálpebras e certificar-se de não haver partículas superior e inferiormente.
· Realizar debridamento das áreas necróticas.
· Instilar Ciclopentolato 1% e pomada de antibiótico.
· Ocluir o olho mais afetado por 24 horas ou até cicatrização.
· Aplicar pomada de Cloranfenicol 1% por 5 dias.
Lesões químicas irritantes leves não exigem encaminhamento na urgência; após o tratamento inicial, orientar o uso de lubrificantes oculares e encaminhar ao oftalmologista se necessário. Já nas lesões graves, é indicado encaminhar imediatamente ao oftalmologista após o tratamento inicial.
Hemorragia Retrobulbar
Hematoma que surge após traumas do tipo “cair de cara no chão”. O olho acometido apresenta-se inchado, há hemorragia de expansão rápida. O manejo adequado envolve realizar descompressão (campotomia lateral).
Conjuntivite Neonatal
Na infecção por gonococo, há penetração no epitélio corneano íntegro, bilateralmente de maneira hiperaguda e severa. É registrada em recém-nascidos de 7-10 dias de vida. Se não tratada, evolui rapidamente para perfuração em 24-48 horas. A conduta consiste em antibioticoterapia específica (cloranfenicol ou tobramicina colírio, de 4 em 4 horas, por 5 a 7 dias .
Conclusão
Vimos neste texto as principais urgências e emergências em oftalmologia e as respectivas condutas. Essas queixas são relativamente frequentes nos pronto-atendimentos, por isso, o médico generalista deve possuir um conhecimento básico dessas condições, o manejo inicial e quando encaminhar para o especialista.
Autora: Rafaella Baratta Colla
Instagram: @rafaellabaratta