A gota decorre de um estado de aumento nos níveis de ácido úrico(urato) que acarreta a formação de cristais de monourato de sódio em diversos tecidos, destacando-se pela frequência, as articulações, as estruturas periarticulares, os rins e o subcutâneo.
EPIDEMIOLOGIA DA GOTA
Predominância no sexo masculino, que é acometido em uma proporção de 7:1 a 9:1.
Nos homens, incide dos 30 aos 60 anos, com pico aos 40 anos.
No sexo feminino, a maior incidência ocorre entre os 55 e 70 anos, principalmente após menopausa (em decorrência da perda do efeito unicosúrico secundário do estrogênio).
FISIOPATOLOGIA DA GOTA
Há 3 mecanismos possíveis:
Por queda na excreção renal de ácido úrico, superprodução de purinas e consumo excessivo de alimentos ricos em purinas e/ou álcool.
- A base do ataque articular da gota decorre da resposta celular desencadeada pela presença dos cristais.
- Ao se formarem abaixo da membrana sinovial, são opsonizados (marcador) com IgG, acarretando a sua fagocitose por células com receptor de Fc e formação de fagolisossomos.
- As enzimas lisossômicas retiram a IgG dos cristais, ocorre liberação de hidrogênio por estes e atividade membranolítica, rompendo a célula e derramando enzimas no tecido comprometido.
- A migração celular aumenta pela ação de substâncias quimiotáxicas.
- A ingestão de álcool gera a formação de ácidos fracos, que são potentes inibidores da excreção renal de uratos.
QUADRO CLÍNICO
O espectro clínico pode ser dividido em 5 grupos: hiperuricemia assintomática, artrite aguda, período intercrítico, gota tufosa crônica, gota renal e urolitíase;
Hiperuricemia assintomática
- O ácido úrico é um produto do catabolismo das purinas, excretado pelo rim em concentrações de até 7 mg/dL.
- Acima desse nível, aumenta a possibilidade dessa substância depositar-se nos tecidos sob forma de cristais.
Artrite aguda
- Monoartrite na maioria, pequenas ou grandes articulações. Podagra nas pequenas articulações
- O ataque de gota clássico é marcado principalmente em MMII, tem início repentino e rápido em crises, além do desenvolvimento de dor intensa, edema, aumento de temperatura e eritema.
- Crises ocorrem em pouco tempo, são remissivas.
- Depois que passa essa crise há descamação epidérmica.
Crise nas articulações
- Geralmente a crise começa na madrugada, nos finais de semana, devido aos fatores desencadeantes: álcool, ingestão de carnes, traumas, diuréticos.
- MMII: joelhos, tornozelos, tarso, metatarsofalangianas e interfalangianas.
- O envolvimento da primeira articulação 1ª metatarsofalangiana (Hálux) é o mais típico da gota, e a artrite neste local se chama podagra (pequena articulação) .
Período intercrítico
- Entre os ataques agudos nos primeiros anos da doença, os pacientes ficam assintomáticos e sem nenhuma sequela articular, caracterizando o período intercrítico da gota. Os ataques sucedem a cada 1 a 6 meses em média.
- Com a evolução da doença, as crises se tornam mais frequentes, menos intensas e mais prolongadas, em alguns casos, envolvem mais de uma articulação.
- O indivíduo pode entrar em uma fase poliarticular crônica com dor mesmo no período intercrítico, ocorrendo após 10 anos ou mais da doença.
Gota tufosa crônica
- presença de tofos (depósito de urato) em vários tecidos, principalmente subcutâneo periarticular e articular. Dedos, punhos, orelha, joelho, tendão de aquiles, cotovelo → devido a temperatura
- Ocorre em pacientes com longo tempo de evolução, após muitos surtos de artrite, geralmente após 11 anos.
Gota renal e urolitíase:
- O acometimento das vias renais vem em terceiro lugar em frequência, existem 3 tipos de acometimento desse sistema: urolitíase, nefropatia úrica aguda e nefropatia úrica crônica.
- complicação secundária é pielonefrite
DIAGNÓSTICO DA GOTA
CLÍNICA
- Critérios clínicos: suspeitar de pacientes com artrite monoarticular ou artrite oligoarticular, em adultos mais velhos (> 40 anos) ou naqueles com fatores de risco.
- Podagra e inflamação recorrente no peito do pé são particularmente sugestivas.
- Crises que começaram de forma explosiva e desaparecem espontaneamente.
LABORATORIAL
- ARTROCENTESE:
- é o padrão ouro para diagnóstico da gota,
- é identificado cristais de monourato de sódio (MSU) por microscopia de luz polarizada de um aspirado de articulação ou tofo
- elimina a artrite séptica
- DOSAGEM DO ÁCIDO ÚRICO:
- é feita no período intercrises
- Níveis de urato sérico e ácido úrico na urina: elevados.
IMAGEM
RADIOGRAFIA
- Múltiplas erosões ósseas em saca-bocado com bordas escleróticas e espiculados como se fossem as valvas de uma concha.
- O osso afetado é mais denso.
- Há presença de cistos ósseos.
- O espaço articular pode ficar reduzido em fases mais avançadas da doença.
- Os tofos podem ser vistos com uma opacificação tênue ao raio X e raramente tornam-se calcificados.
TRATAMENTO DA GOTA
Os objetivos do tratamento são: prevenir as crises, evitar a formação de cálculos renais, reduzir o tamanho dos tofos e evitar a destruição articular.
TRATAMENTO DA CRISE AGUDA
- Repouso e gelo
AINE:
- Utilização de AINEs como primeira opção: diclofenaco de sódio na dose de 50 mg três vezes ao dia, o cetoprofeno três vezes de 50 mg ou o naproxeno 500 mg duas a três vezes.
CORTICOIDES:
- Os corticóides são a segunda opção no tratamento da crise de gota. Prednisona e a prednisolona na dose de 10 a 20 mg diários e a dexametasona da dose de 2 a 4 mg diários.
COLCHICINA:
- A colchicina é o fármaco mais tradicional para o tratamento das crises articulares agudas, porém é o mais tóxico, pois provoca diarréia e cólicas frequentes.
Autora: Nicoly Camila Spack
Instagram: @nispack
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
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REFERÊNCIAS
1- MARTINS, M. A.; et. al. Clínica Médica volume 5: doenças endócrinas e metabólicas, doenças ósseas, doenças reumatológicas. Barueri, SP: Manole, 2009.
2- GOLDMAN, L., AUSIELLO, D. – Cecil – Tratado de Medicina Interna. v.1, ed. 23. Elsevier: Rio de Janeiro, 2010.
3- CARVALHO, M. A. P.; LANNA, C. C. D.; et. al. Reumatologia Diagnóstico e Tratamento. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2019.