Introdução
Desde o final de 2019, com o surgimento de casos do novo coronavírus na província de Wuhan, na China, cientistas do mundo todo trabalharam incessantemente para conhecer melhor esta nova ameaça. Diversas pesquisas buscaram entender melhor o funcionamento do vírus, a fisiopatogenia da COVID-19 e sua epidemiologia. No entanto, as pesquisas possivelmente mais aguardadas pela população em geral eram as relativas a algum tratamento que pudesse tornar o vírus menos assustador.
E parece que esse momento chegou: a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) irá participar de um estudo clínico da farmacêutica Pfizer para testar um remédio, administrado por via oral, contra a COVID-19. A Faculdade de Medicina da UFMG foi uma das instituições escolhidas pela indústria norte-americana para realização da pesquisa.
O estudo
A pesquisa já começou a receber inscrições de voluntários. A participação é gratuita e os participantes voluntários terão o custo do transporte bancado pela pesquisa. O grupo alvo é composto por 3 mil pacientes, mas as inscrições são ilimitadas. Além deste estudo, a faculdade já participa de outros dois, relativos ao mesmo medicamento, que foi identificado como PF-07321332.
O estudo em questão será do tipo “duplo cego”, utilizando-se de um grupo de voluntários aleatoriamente selecionados em que será administrada a medicação e outro que receberá o placebo. Ambos os grupos ingerirão o medicamento designado duas vezes ao dia, durante cinco dias, sendo posteriormente acompanhados durante 24 semanas, em associação com o ritonavir (antirretroviral). No primeiro mês, passarão por três consultas presenciais, para avaliar sua evolução, e, posteriormente, realizarão as demais consultas à distância, via telefone. A pesquisa busca avaliar tanto a segurança quanto a eficácia do PF-07321332 na prevenção da infecção e da evolução da doença em diferentes grupos de pessoas.
A pesquisa será dividida em três partes. A primeira é a que está com as inscrições abertas, e busca avaliar os efeitos do medicamento em pacientes que tiveram a doença recentemente e que tenha algum fator de risco para desenvolvimento de COVID-19 grave. Já a segunda parte, prevista para a segunda quinzena de outubro, testará a eficácia do medicamento em pacientes com baixo risco clínico, incluindo aqueles que já foram vacinados. Por fim, a terceira etapa, realizada em novembro, testará o medicamento naqueles que convivem com que está ou esteve infectado. Espera-se que os resultados sejam divulgados até seis meses após o período da pesquisa, ou seja, entre abril e maio de 2022.
Para a primeira parte da pesquisa, a instituição busca pessoas maiores de idade, não vacinadas e que não pretendem se vacinar durante a pesquisa. Os voluntários devem também possuir algum fator clínico que aumente o risco de COVID-19 grave, como IMC maior que 25kg/m², tabagismo, idade avançada, diabetes, doenças crônicas (renais, cardíacas ou pulmonares), imunossupressão ou algum câncer em atividade. Por fim, devem apresentar exame realizado nos últimos cinco dias com resultado positivo para COVID-19 ou ter tido sintomas da doença nos últimos dias. No segundo caso, a própria faculdade providenciará a testagem. Os interessados devem entrar em contato pelo telefone disponibilizado – (31) 98109-1143 – ou pelo email cov3001.ufmg@gmail.com.
Os voluntários serão recebidos no ambulatório do Hospital das Clínicas da UFMG, para coleta de exames e, em um segundo momento, na Unidade de Pesquisa Clínica em Vacinas (UPqVac) da faculdade. Por ser gratuita a participação, o custeio do transporte será realizado pela própria instituição pesquisadora.
O medicamento
O medicamento é um antiviral que inibe proteases. Portanto, seu modo de ação proposto é semelhante a outras drogas antivirais, como as anti-HIV e anti-HCV. Seu objetivo é reduzir a carga viral e evitar a multiplicação intracelular do vírus, o que evitaria a evolução para casos graves. Desse modo, espera-se reduzir as taxas de internação, sequelas e morte derivadas da COVID-19.
O coordenador dos estudos na Faculdade de Medicina da UFMG, Jorge Andrade Pinto, afirmou que este estudo se trata de um avanço no desenvolvimento de intervenções – preventivas ou terapêuticas – contra o coronavírus. Segue dizendo que, uma vez comprovada a eficácia e segurança da droga, espera-se produção e distribuição em larga escala, como é feito com outras doenças infecciosas virais, como HIV e tuberculose. Por fim, acrescenta que os antivirais de uso oral são de produção mais fácil que as vacinas, além de exigirem menos recursos de armazenamento, manuseio e distribuição.
Conclusão
Pode-se perceber que são grandes os avanços que foram feitos em tão pouco tempo com relação à prevenção de COVID-19, com a produção maciça de imunizantes em tempo recorde. Além disso, ferramentas para possível tratamento da doença também vêm sendo produzidas e testadas. Pouco tempo após as etapas previstas pela pesquisa ao redor do mundo serem concluídas, os resultados serão revelados à comunidade científica e à população como um todo. A participação da UFMG em uma pesquisa de tal porta reforça a importância do investimento em pesquisa e ciência, e o tamanho da capacidade científica potencial brasileira.
Autora: Isabelle Stapf
Instagram: @isastapf
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
UFMG vai participar de testes de remédio da Pfizer contra a COVID-19: https://noticias.r7.com/minas-gerais/ufmg-vai-participar-de-testes-de-remedio-da-pfizer-contra-a-covid-19-08102021
UFMG recruta voluntários para teste de medicamento oral da Pfizer contra a COVID-19: https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2021/10/07/ufmg-recruta-voluntarios-para-teste-de-medicamento-oral-da-pfizer-contra-a-covid-19.ghtml
UFMG vai participar de testes de medicamento da Pfizer contra a COVID-19: https://www.otempo.com.br/cidades/ufmg-vai-participar-de-testes-de-medicamento-da-pfizer-contra-a-covid-19-1.2552691
UFMG procura voluntários para testes de medicamento contra a COVID-19: https://defatoonline.com.br/ufmg-procura-voluntarios-para-testes-de-medicamento-contra-a-covid-19/
UFMG busca voluntários para teste de medicamento oral da Pfizer contra a COVID-19: https://www.itatiaia.com.br/noticia/ufmg-busca-voluntarios-para-teste-de-medicamento-oral-da-pfizer-contra-a-covid-19