A tularemia é uma zoonose bacteriana aguda causada por Francisella tularensis, um cocobacilo gram-negativo, aeróbio, altamente infectante e intracelular facultativo. Embora muitos profissionais considerem a doença rara, o médico deve manter atenção diagnóstica sempre que identificar quadro febril agudo associado a linfadenopatia, lesões cutâneas ulceradas ou sintomas respiratórios após exposição ambiental compatível. Além disso, a alta infectividade do agente e seu potencial de gravidade justificam abordagem clínica rápida e direcionada.
Historicamente, regiões da América do Norte, Europa e partes da Ásia concentram a maior parte dos casos. Entretanto, mudanças ambientais, mobilidade populacional e maior vigilância epidemiológica ampliaram o reconhecimento da doença em diferentes contextos geográficos. Portanto, o clínico precisa compreender não apenas as manifestações clássicas, mas também as apresentações atípicas.
Microbiologia e patogênese da tularemia
Francisella tularensis apresenta pequeno tamanho, parede celular típica de bacilos gram-negativos e crescimento exigente em meios enriquecidos com cisteína. Além disso, o microrganismo demonstra elevada capacidade de sobrevivência intracelular, principalmente dentro de macrófagos. Essa característica, por sua vez, define grande parte da fisiopatologia da doença.
Após a inoculação cutânea, inalatória ou digestiva, a bactéria invade células fagocíticas e rapidamente escapa do fagossomo para o citoplasma. Em seguida, multiplica-se no interior celular e dissemina-se pelo sistema linfático. Consequentemente, o paciente desenvolve linfadenite regional, bacteremia transitória e possível comprometimento sistêmico.
Existem duas subespécies clinicamente relevantes: F. tularensis subsp. tularensis (tipo A) e F. tularensis subsp. holarctica (tipo B). O tipo A apresenta maior virulência e associa-se a quadros mais graves, especialmente na América do Norte. Em contrapartida, o tipo B geralmente causa doença mais branda, embora ainda possa evoluir com complicações.
Além disso, o baixo inóculo necessário para infecção, estimado entre 10 e 50 organismos, reforça o risco ocupacional em laboratórios e ambientes rurais. Portanto, medidas rigorosas de biossegurança tornam-se indispensáveis durante manipulação de amostras suspeitas.
Epidemiologia e formas de transmissão
A tularemia ocorre predominantemente no Hemisfério Norte. Entretanto, a distribuição varia conforme ecossistemas locais e reservatórios animais. Coelhos, lebres e roedores funcionam como principais hospedeiros naturais. Além disso, carrapatos e moscas do veado atuam como vetores importantes.
A transmissão ao ser humano pode ocorrer por diferentes vias:
- Picada de artrópodes infectados
- Contato direto com tecidos ou sangue de animais contaminados
- Inalação de aerossóis durante atividades agrícolas ou laboratoriais
- Ingestão de água ou alimentos contaminados
Portanto, atividades como caça, jardinagem, agricultura e manipulação de carcaças aumentam significativamente o risco de exposição. Além disso, surtos relacionados à água contaminada já foram descritos em regiões rurais.
Não ocorre transmissão interpessoal significativa. Consequentemente, o manejo não exige isolamento específico além das precauções padrão.
Classificação clínica da tularemia
A apresentação clínica depende diretamente da via de entrada do agente. Assim, o médico deve correlacionar história epidemiológica com manifestações predominantes. Classicamente, a doença divide-se em seis formas principais:
Forma ulceroglandular
Esta representa a forma mais comum. Inicialmente, o paciente desenvolve pápula eritematosa no local de inoculação. Posteriormente, a lesão evolui para úlcera dolorosa com bordas elevadas. Simultaneamente, ocorre linfadenopatia regional significativa, frequentemente supurativa.

Além disso, febre alta, calafrios, mal-estar e mialgia acompanham o quadro. Caso o médico não institua tratamento adequado, os linfonodos podem necrosar e fistulizar.
Forma glandular
A forma glandular apresenta linfadenopatia regional sem úlcera cutânea evidente. Portanto, o diagnóstico pode tornar-se mais desafiador. Entretanto, a história de exposição continua fundamental para suspeição clínica.
Forma oculoglandular
Ocorre após inoculação ocular direta. O paciente desenvolve conjuntivite unilateral intensa, hiperemia e dor ocular. Além disso, linfadenopatia pré-auricular pode surgir de forma associada.
Orofaríngea
Esta forma surge após ingestão de água ou alimentos contaminados. O paciente apresenta faringite intensa, ulcerações orais e linfadenite cervical. Consequentemente, o quadro pode simular amigdalite bacteriana comum, o que frequentemente leva a atraso diagnóstico.
Forma pneumônica
A forma pneumônica resulta da inalação de aerossóis contaminados ou da disseminação hematogênica secundária. O paciente apresenta febre, tosse seca, dor torácica e dispneia. Radiologicamente, infiltrados intersticiais, consolidações ou adenopatia hilar podem aparecer.
Além disso, essa forma pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória se o médico não iniciar terapia antimicrobiana adequada.
Forma tifoide
A forma tifoide representa quadro sistêmico sem foco local evidente. O paciente desenvolve febre alta persistente, prostração intensa e sinais de toxemia. Portanto, o diagnóstico diferencial inclui sepse bacteriana, febre tifóide e outras zoonoses.
Manifestações sistêmicas da tularemia
Independentemente da forma clínica, muitos pacientes desenvolvem sintomas constitucionais importantes. Febre alta, calafrios, cefaleia intensa e mialgia aparecem com frequência. Além disso, hepatomegalia, esplenomegalia e alterações laboratoriais inespecíficas podem surgir.
Laboratorialmente, leucocitose moderada, elevação de proteína c reativa e aumento discreto de transaminases podem ocorrer. Entretanto, esses achados não são específicos. Portanto, a história clínica continua essencial para direcionar investigação.
Diagnóstico
O médico deve suspeitar de tularemia em pacientes com febre aguda e linfadenopatia dolorosa após exposição compatível. Além disso, úlcera cutânea associada a adenomegalia regional fortalece a hipótese diagnóstica.
O diagnóstico confirma-se por:
- Sorologia com aumento significativo de títulos de anticorpos
- Cultura em meios enriquecidos com cisteína
- Testes moleculares, como reação em cadeia da polimerase
Entretanto, a cultura exige cuidados especiais, pois o microrganismo apresenta risco ocupacional significativo. Portanto, o clínico deve alertar o laboratório sempre que suspeitar da doença.
A sorologia representa método diagnóstico mais utilizado. Contudo, anticorpos detectáveis geralmente aparecem após 10 a 14 dias. Consequentemente, o médico não deve aguardar confirmação laboratorial para iniciar tratamento em casos fortemente sugestivos.
Tratamento da tularemia
O tratamento precoce reduz complicações e mortalidade. Portanto, o médico deve iniciar terapia antimicrobiana assim que estabelecer forte suspeita clínica.
Antibióticos de escolha
- Estreptomicina
- Gentamicina
Os aminoglicosídeos demonstram maior eficácia, especialmente em formas graves. Entretanto, requerem monitorização de função renal e níveis séricos.
Alternativas terapêuticas
- Doxiciclina
- Ciprofloxacino
A doxiciclina pode tratar casos leves a moderados. Contudo, apresenta maior taxa de recaída quando comparada aos aminoglicosídeos. Por outro lado, a ciprofloxacino tem mostrado boa eficácia clínica, especialmente em surtos.
A duração do tratamento geralmente varia entre 10 e 21 dias, dependendo da gravidade e do antibiótico utilizado. Além disso, o médico deve acompanhar resolução clínica e regressão de linfadenopatia.
Nos casos com linfonodos supurativos, drenagem cirúrgica pode auxiliar no controle local da infecção. Entretanto, o tratamento antimicrobiano continua essencial.
Complicações
Sem tratamento adequado, o paciente pode evoluir com abscessos linfonodais, pneumonia necrosante, insuficiência respiratória e sepse. Além disso, formas graves podem resultar em falência de múltiplos órgãos.
Entretanto, quando o médico institui terapia adequada precocemente, a maioria dos pacientes apresenta recuperação completa.
Prevenção
Medidas preventivas incluem:
- Uso de repelentes contra carrapatos
- Utilização de equipamentos de proteção durante manipulação de animais
- Consumo de água tratada
- Controle de vetores em áreas endêmicas
Além disso, profissionais de laboratório devem utilizar cabines de biossegurança apropriadas ao manipular amostras suspeitas.
Atualmente, não há vacina amplamente disponível para uso populacional. Portanto, estratégias preventivas concentram-se em medidas comportamentais e ocupacionais.
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Referências bibliográficas
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