Fique por dentro de tudo relacionado aos segmentos hepáticos!
Considerado o maior órgão do corpo humano, o fígado desempenha diferentes funções (mais de 500). Entre elas:
- Participa na digestão de lipídeos através da bile
- Regula diferentes vias metabólicas
- Produz diferentes fatores de coagulação
- Responsável pela metabolização de diferentes drogas e toxinas
O fígado é responsável por uma ampla variedade de funções bioquímicas estratégicas. Sintetizando e eliminando um grande número de moléculas para uma variedade de finalidades. Um fígado saudável tem algumas características importantes:
- Uma enorme reserva fisiológica. Mesmo que 80% do fígado seja removido, ele pode continuar a realizar todas as suas funções fisiológicas;
- Regeneração. Em contraste com outros órgãos, após a ressecção de até três quartos do fígado, a mitose ativa pode regenerar uma massa hepática normal.
Essa incrível capacidade do fígado tem sido usada no transplante hepático. O transplante de um doador vivo envolve o transplante de quatro segmentos do lobo direito (50-60% da massa do fígado) para um receptor.
No doador, o fígado remanescente se regenera ao tamanho normal em 6–8 semanas; no recipiente, a regeneração demora um pouco mais. Eventualmente, tanto o doador quanto o receptor têm fígados de tamanho normal e em pleno funcionamento.
Anatomia do fígado
O fígado normalmente pesa entre 1,3 e 3,0 quilogramas e é um órgão macio marrom-rosado. É o segundo maior órgão do corpo e está localizado no lado direito do abdome.
É composto por lobos anatômicos (D e E) separados pelo ligamento falciforme. Cirurgicamente, esta divisão é feita ao nível do porta-hepatis. Oonde a artéria hepática e a veia porta se dividem em ramos D e E.

O fígado divide-se em duas faces: diafragmática e visceral. A face diafragmática é separada do diafragma pelos recessos subfrênicos. Esse recesso é separado em direito e esquerdo pelo ligamento falciforme.
O órgão é coberto com peritônio visceral, exceto na chamada área nua do fígado. A face visceral é coberta com peritônio. Exceto no leito da vesícula biliar e da porta do fígado, onde os vasos e ductos entram e saem do fígado.
Segmentos hepáticos
Os lobos são subdivididos em segmentos. Cada segmento tem sua própria vascularização, drenagem biliar e venosa.
Os segmentos hepáticos são importantes pontos cirúrgicos. Uma vez que possibilitam a realização de segmentectomias por possuírem vascularização, drenagem biliar e venosa próprias.
Permitem assim a retirada de um segmento sem comprometimento do restante do órgão. Funcionando cada segmento como um ‘mini fígado’ independente. Ao todo, temos 8 segmentos hepáticos.
A segmentação do fígado é dupla:
- 1° envolve a veia porta, a artéria hepática e os ductos bilíferos;
- 2° envolve as veias hepáticas;
Uma linha imaginária sobre a face diafragmática, que corre a partir do fundo da vesícula biliar até a veia cava inferior, separa as partes. Ambas as partes têm divisões medial e lateral. Observem:

Parte posterior do fígado (lobo caudado):
- Segmento posterior (I).
Parte hepática esquerda: divisão lateral esquerda:
- Segmento posterior lateral esquerdo (II);
- Segmento anterior lateral esquerdo (III).
Divisão medial esquerda:
- Segmento medial esquerdo (IV).
Parte hepática direita: divisão medial direita:
- Segmento anterior medial direito (V);
- Segmento posterior medial direito (VIII).
Divisão lateral direita:
- Segmento anterior lateral direito (VI) segmento posterior lateral direito (VII)
*O segmento I não é visível na face diafragmática do fígado.
*O segmento VIII não é visível na face visceral do fígado.
Irrigação arterial
O fígado é um órgão muito vascularizado. Cerca de 1.500 mL de sangue passam pelo fígado a cada minuto. O que é aproximadamente 25% do débito cardíaco (o débito cardíaco normal é de 5 L/min). Comparado ao seu peso (cerca de 2,5% do peso corporal), ele recebe um grande suprimento de sangue.
É importante perceber que a maioria (cerca de 65%) do sangue fornecido ao fígado é sangue venoso desoxigenado (que transporta muito menos oxigênio do que o sangue arterial) do intestino delgado e grosso proveniente da veia porta.
Apenas um terço do suprimento é sangue arterial oxigenado e carrega um alto nível de oxigênio proveniente da artéria hepática. Esse suprimento duplo de sangue cumpre três funções importantes:
Funções do suprimento duplo de sangue
Primeiro
O suprimento duplo de sangue fornece uma segurança para o fígado. E o mantém vivo mesmo se um suprimento for interrompido devido a algum estado patológico.
Segundo
O sangue venoso carrega várias substâncias nocivas, toxinas e produtos biológicos derivados de alimentos e bactérias intestinais presentes no intestino grosso.
O fígado atua como um filtro que impede a exposição da circulação sistêmica a essas substâncias. Quando essa função de filtro do fígado é prejudicada, como em pacientes com insuficiência hepática, essas substâncias prejudiciais chegam ao cérebro. E o paciente terá alterações neurológicas variáveis, até o coma.
Terceiro
O sangue venoso carrega muitos nutrientes do intestino delgado; esses nutrientes, se liberados sem controle na circulação, produzirão desequilíbrio metabólico.
O fígado atua como um depósito temporário para armazenar quantidades excessivas desses nutrientes e os libera na hora de necessidade (como o jejum).
Esta imagem mostra a drenagem venosa para o sistema venoso portal e a drenagem venosa do fígado. A veia porta é formada pela veia mesentérica superior (que coleta os nutrientes e o sangue desoxigenado rico em toxinas do intestino) e pela veia esplênica (que carrega os linfócitos imunologicamente ativados) do baço.
No fígado, o sangue venoso portal é primeiro distribuído para a extensa rede de sinusoides. E, em seguida, coletado por três veias hepáticas: veias hepáticas direita, média e esquerda. Essas veias hepáticas drenam para a veia cava inferior, que drena para o lado direito do coração para oxigenação.
Num sistema portal, o sangue que retorna dos capilares não retorna diretamente ao sistema venoso. Mas é novamente passado por outro conjunto de capilares em outro órgão ou tecido. Existem dois sistemas portais no corpo humano: o sistema pituitário-hipofisário no cérebro e o segundo no fígado.
O objetivo desse sistema portal é fornecer ao fígado um tempo extra de circulação. E expor o sangue à extensa rede de placas de hepatócitos. Ajuda o fígado a realizar suas atividades metabólicas e de filtragem com mais eficiência.

Suprimento nervoso
Feito pelas fibras simpáticas de T7 a T10, fazendo sinapse no plexo celíaco, com o vago D, E e o nervo frênico D. As fibras nervosas acompanham a artéria hepática e os ductos biliares dentro do parênquima e inervam a cápsula de Glisson.
Suprimento linfático
Vasos linfáticos emergem do porta-hepatis e a maioria acompanha a veia cava inferior para dentro do mediastino.
Principais doenças hepáticas
Encefalopatia hepática
Acontece quando o fígado é incapaz de metabolizar certas toxinas. Sobretudo a amônia (NH3), que acabam alcançando a circulação sanguínea tecidos (incluindo o tecido nervoso, podendo gerar edema celular). Pode acontecer tanto na insuficiência hepática crônica quanto na aguda. Ela é potencialmente reversível.
O quadro clínico consiste em
- Flapping (não é patognomônico da encefalopatia)
- Hálito hepático
- Alterações comportamentais: paciente pode estar com rebaixamento do nível de consciência, apresentando-se comatoso/letárgico ou pode apresentar-se agitado e agressivo
- Reflexos tendinosos exaltados ou diminuídos
- Hipertonia e incoordenação motora
Diagnóstico é feito clinicamente e o seu estadiamento é feito a partir do critério de West-Heaven. É possível enquadrar o paciente nos estágios 1-4 a depender da sua gravidade.

Síndrome hepatorrenal
Acontece quando um paciente hepatopata começa a desenvolver insuficiência renal aguda pré-renal. Mas por que pré-renal? Porque nesses pacientes há um relativo “estado de hipovolemia” por dois motivos:
• Acúmulo de vasodilatadores no sangue vasos se dilatam, há queda na resistência vascular periférica. A vasodilatação é sobretudo ESPLÂCNICA (leito mesentérico).
• Artéria esplênica se dilata Sequestro esplênico estado de hipovolemia
A partir disso os rins respondem com vasoconstrição (só que no paciente já hepatopata, a resposta será ainda mais exacerbada, contando com ativação do SRAA, levando à diminuição da TFG), levando à perda progressiva da função renal.
Diagnóstico é feito a partir de um paciente hepatopata + apresentando sinais como oligúria, aumento da escórias nitrogenadas + ascite volumosa.
Síndrome hepatopulmonar
Acontece no paciente hepatopata que começa a sofrer de hipoxemia, sendo decorrente de alterações intravasculares pulmonares.
Essa síndrome também ocorre devido ao acúmulo excessivo de vasodilatadores. Os quais acabam agindo diretamente na circulação pulmonar, aumentando significativamente o tamanho dos capilares pulmonares.
Por esses se tornarem maior, o fluxo sanguíneo que deveria ser lentificado (para propiciar uma troca gasosa adequada) se acelera. E além disso o oxigênio no saco alveolar e a hemácia presente no capilar ficam ainda mais distantes. De forma geral, o paciente acaba apresentando um shunt D E.
Manifestações no paciente:
- Dispneia
- Baqueteamento
- Cianose
- Platipneia (dispneia em pé ou sentado)
- Ortodeóxia (queda da Sat. O2 quando em pé)

Segmentos hepáticos: sugestão de leitura complementar
- Resumo de hepatomegalia: anatomia, exames físico e de imagem e causas
- Doenças Hepáticas: O Fígado, Suas Funções E Os Mecanismos Fisiopatológicos
- Anatomia do Fígado e Vias Biliares | Colunistas
- Prova de Médico – Cirurgia e Transplante de Fígado – UFG 2012
Veja também:
Referências
- Saxena R, Theise ND, Crawford JM. Microanatomy of the human liver-exploring the hidden interfaces. Hepatology. 1999 Dec;30(6): 1339-46.doi: 10.1002/hep.510300607.
- Si-Tayeb K, Lemaigre FP, Duncan SA. Organogenesis and development of the liver. Dev Cell 2010 Feb 16;18(2):175-89. doi: 10.1016/j.devcel.2010.01.011.
- Hoekstra LT, et al. Physiological and biochemical basis of clinical liver function tests: a review. Ann Surg 2013 Jan;257(1):27-36. doi:10.1097/SLA.0b013e31825d5d47.
- Nishikawa H, Osaki Y. Liver Cirrhosis: Evaluation, Nutritional Status, and Prognosis. Mediators Inflamm 2015;2015:872152. doi: 10.1155/2015/872152.
- Peng Y, Qi X, Guo X. Child-Pugh Versus MELD Score for the Assessment of Prognosis in Liver Cirrhosis: A Systematic Review and Meta-Analysis of Observational Studies. Medicine (Baltimore). 2016 Feb;95(8):e2877