A tuberculose é uma doença causada pelo bacilo Micobacterium tuberculosis, possui transmissão aérea, ou seja, se espalha ao tossir, espirrar e até mesmo falar e geralmente infecta pessoas que convivem próximas à um portador da bactéria. As crianças são menos propensas a transmitirem o bacilo, pois a forma que acomete a faixa etária infantil, é menos infectante.
Além disso, é um sério problema de saúde pública e por isso, o diagnóstico precoce e adequado é fundamental para o controle, evitando a transmissão e complicações.
Devido à dificuldade diagnóstica, a tuberculose na infância merece nossa atenção, estima-se que esta doença acometa cerca de 1 milhão de crianças, sendo responsável por 130 mil mortes por ano, o que faz com que a tuberculose seja uma das 10 principais causas de morte em crianças no mundo todo.
Nos próximos tópicos iremos discutir um pouco sobre as formas clínicas da tuberculose na infância e as particularidades.
Particularidades da criança
A criança possui algumas características próprias do seu organismo e fisiologia, sendo essenciais para o equilíbrio entre agressão e defesa do corpo. Dentre as particularidades, podemos citar:
– Sistema imune: a criança, em especial o recém-nascido, são mais dispostos a se infectarem por patógenos, devido a sua imaturidade no sistema imune. Mesmo herdando da mãe a imunidade de forma passiva, não possui maturidade para sintetizar seus anticorpos em níveis consideráveis para proteção, ocorrendo um decréscimo acentuado nos primeiros dias de vida.
– Nutrição: A nutrição é essencial para uma criança manter o funcionamento adequado dos seus sistemas e órgãos, como sabemos, o leite materno é a principal fonte de energia, sendo exclusivo até os 06 meses, auxilia no ganho de peso, no desenvolvimento neuromotor e também possui seus diversos benefícios na imunidade. A nutrição incorreta da criança, pode ter como desfecho a desnutrição, favorecendo ao aumento da degradação proteica e interferência na resistência do organismo contra patógenos, tornando-se mais susceptível as infecções.
– Vacinação: O recém-nascido que recebe a vacina BCG corretamente, garante uma primo-infecção artificial benigna, dificultando o adoecimento pela bactéria. Porém em regiões afastadas e sem acesso a saúde, diversas crianças não recebem a vacinação, tornando mais susceptíveis a manifestação da doença.
Formas de tuberculose
É classificada em forma pulmonar, extrapulmonar e mista, variando as ferramentas diagnósticas de acordo com o sítio da infecção.
Forma pulmonar
É a mais comum, cursa com sintomas inespecíficos como mialgia, adinamia, expectoração, irritabilidade, perda ou não ganho de peso, podendo confundir estes sintomas com uma pneumonia adquirida na comunidade, por isso devemos sempre alertar para tuberculose pulmonar ao encontrar a tríade: tosse crônica, redução do apetite e perda de peso.
Difere do adulto, pois costuma ser negativo na pesquisa do exame bacteriológico, por ter um número reduzido de bacilos nas lesões. A febre costuma ocorrer no final da tarde e acima de 38ºC, a perda de peso pode ser vista na retificação ou declínio nas curvas do gráfico de z-escore ou percentil.
Quadros pulmonares refratários ao tratamento, deve ser investigado tuberculose. Na maneira com que a criança cresce, geralmente acima de 10 anos, o quadro é mais parecido com o do adulto, tendo exames positivos na baciloscopia.
Forma extra pulmonar
Ocorre em cerca de 20% dos casos, os sítios mais comuns são gânglios e meninge. Na tuberculose ganglionar, as cadeias mais afetadas são a cadeia cervical, supra clavicular, e mediastinal, o linfonodo se apresenta com característica aumentada, endurecida, podendo coalescer, ser aderido aos planos e formas fístulas, com eliminação de secreção.
A forma meningoencefálica, pode se apresentar clinicamente com cefaleia, alterações do sono e fotofobia. É grave e pode até evoluir para coma.
Vale lembrar que nem toda criança infectada desenvolve a doença, existem a infecção latentes, no qual a criança tem contato com o bacilo mas não desenvolve a doença.
Diagnóstico tuberculose
A pesquisa do bacilo no escarro, baciloscopia, é o principal exame para identificar a bactéria, é um método rápido e de baixo custo, porem pode trazer falsos resultados, sendo assim, o diagnóstico da tuberculose na infância, na forma pulmonar, é clinicoradiológico, se baseando na epidemiologia e história clínica.
Na radiografia de tórax em crianças, podemos observar gânglios pulmonares, opacidade, derrame pleural e padrão miliar, já em adolescentes pode ser idêntico aos adultos, com cavitações, nódulos, opacidade e derrame pleural.
Nos casos de tuberculose extrapulmonar, os métodos diagnóstico englobam, biópsia nos órgãos sólidos e coleta liqúorica, para pesquisa do bacilo ou alterações compatíveis com tuberculose.
Tratamento da tuberculose
O tratamento é feito com antibióticoterapia, os medicamentos mais utilizados são: Rifampicina, Isoniazdia e Pirazinamida, de acordo com o especialista, pode introduzir corticoesteróides e outros medicamentos. Na presença de desidratação, febre, dores, é fundamental o tratamento com reposição volêmica, antipiréticos e analgésicos.
Um grande avanço da indústria farmacêutica para o tratamento em crianças com a antibióticoterapia, foi a criação de medicamentos solúveis e comprimido dispersível com melhor aceitação nesta faixa etária, facilitando a adesão terapêutica.
Referências
Consenso sobre o diagnóstico da tuberculose da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia – https://www.jornaldepneumologia.com.br/details/3520/pt-BR/consenso-sobre-o-diagnostico-da-tuberculose-da-sociedade-brasileira-de-pneumologia-e-tisiologia
Tuberculose na infância e adolescência – https://www.spsp.org.br/2022/04/04/tuberculose-na-infancia-e-adolescencia/
Tuberculose na infância e adolescência: um olhar sob perspectivas diferentes – https://www.scielo.br/j/jped/a/SWXPKxnKtY7dLPkhrGWSVVK/?lang=pt
Como proteger a criança de 0 a 24 meses contra infecção – https://www.scielo.br/j/reben/a/zjwSTfNvzPGykdvzMPD37Th/?lang=pt
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