Tuberculose latente: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de um quarto da população mundial está infectada pelo M. tuberculosis, o que corresponde a aproximadamente 2 bilhões de pessoas com tuberculose latente (TL). Destes, 5 a 10% podem desenvolver a forma ativa da doença em algum momento. O risco é significativamente maior em indivíduos com comorbidades, como HIV, diabetes mellitus, ou em condições que comprometem o sistema imunológico.
A TL é particularmente prevalente em regiões de alta endemicidade para TB, em populações carcerárias, e entre profissionais de saúde que estão frequentemente expostos ao bacilo.
O que é tuberculose latente?
A tuberculose latente é uma condição na qual o indivíduo está infectado pelo Mycobacterium tuberculosis, mas não apresenta sintomas clínicos da doença ativa. Neste estado, a bactéria está presente no organismo, porém inativa, e o sistema imunológico consegue controlá-la, impedindo a progressão para a tuberculose ativa (TB).
Indivíduos com TL não são contagiosos, mas têm risco de desenvolver a doença ativa ao longo da vida, especialmente se houver algum fator de imunossupressão.
Patogênese
Após a inalação de partículas contendo o M. tuberculosis, o bacilo é fagocitado por macrófagos nos pulmões. Dessa forma, em indivíduos imunocompetentes, ocorre a formação de granulomas que isolam o bacilo, mantendo-o em um estado dormente.
Assim, a quebra desse equilíbrio, seja por fatores imunossupressores ou outras condições, pode levar à reativação da infecção e ao desenvolvimento da tuberculose ativa.
Fatores de risco para progressão da tuberculose latente para tuberculose ativa
A probabilidade de um indivíduo com TL desenvolver TB ativa depende de diversos fatores:
- Imunossupressão: pacientes com HIV, transplantados, bem como em uso de imunossupressores como corticosteróides têm maior risco de reativação da TL
- Comorbidades: diabetes mellitus, insuficiência renal crônica e doenças pulmonares crônicas aumentam o risco de TB ativa
- Idade: crianças pequenas e idosos são mais suscetíveis à progressão da doença
- Estilo de vida: desnutrição, uso de álcool bem como tabaco também são fatores que contribuem para a reativação.
Diagnóstico da tuberculose latente
O diagnóstico da TL é realizado por testes imunológicos que detectam a resposta do organismo ao M. tuberculosis.
Os dois métodos principais são o teste tuberculínico (PPD/Mantoux) e o teste de liberação de interferon-gama (IGRA), que possuem diferenças na aplicabilidade conforme o histórico do paciente, como vacinação prévia com BCG.
Teste rápido molecular (TRM)
O Teste Rápido Molecular (TRM), também conhecido como GeneXpert MTB/RIF, não é um exame específico para tuberculose latente, mas é importante no contexto do diagnóstico de tuberculose ativa, especialmente em casos onde há necessidade de identificação rápida da presença de M. tuberculosis e detecção de resistência à rifampicina.
Utiliza-se o TRM em amostras de escarro ou outros materiais biológicos e oferece resultados em cerca de duas horas. Apesar de sua eficácia no diagnóstico da TB ativa, não indica-se o TRM para a detecção da tuberculose latente, pois requer a presença ativa do bacilo para gerar um resultado positivo. No entanto, em casos onde há suspeita de TB ativa em pacientes com diagnóstico prévio de TL, o TRM pode ser uma ferramenta crucial para confirmação diagnóstica e orientação terapêutica.
Raio-x na tuberculose latente
Em pacientes com um sistema imunológico eficaz, capaz de combater o bacilo após a exposição inicial, essa lesão pode sofrer calcificação, formando o chamado complexo de Ranke, visualizado no raio-x.

Rastreamento em populações específicas
O rastreamento de TL é particularmente importante em populações de alto risco, como:
- Indivíduos HIV positivos
- Profissionais de saúde: expostos a pacientes com TB ativa, têm risco aumentado de infecção
- Contatos próximos de casos de TB ativa: especialmente em ambientes domésticos ou carcerários, onde há uma exposição prolongada.

Tratamento da tuberculose latente
O objetivo do tratamento da TL é prevenir a progressão para TB ativa.
Esquema A
A isoniazida é a medicação preferencial para o tratamento da tuberculose latente.
Isoniazida (100-300mg/cp), a dose depende da idade. Recomenda-se 270 doses de isoniazida, que poderão ser tomadas de 9-12 meses.
Além disso, em hepatopatas, crianças <10 anos de idade, pessoas >50 anos de idade e no caso de intolerância a isoniazida, deve-se dar prioridade ao regime com rifampicina.
Esquema B
Tomar 12 doses semanais de 12-15 semanas consecutivas. Associação de:
Isoniazida (100-300mg/cp) se >2 anos de idade e Rifapentina (150mg/cp).
Esquema C
Monoterapia com rifampicina. Assim, recomenda-se no mínimo 120 doses de Rifampicina, que deverão ser tomadas idealmente em 4 meses, podendo prolongar por até 6 meses.
Rifampicina 300mg/cp ou 20mg/ml.
Esteja apto a manejar paciente com TB latente
A tuberculose latente continua sendo um desafio significativo para a saúde pública global. Assim, o manejo adequado de TL é essencial para a prevenção da TB ativa, e a conscientização entre os médicos sobre as melhores práticas de diagnóstico e tratamento é torna-se necessária.
Referência bibliográfica
- Al Ubaidi B. The Radiological Diagnosis of Pulmonary Tuberculosis (TB) in Primary Care. J Fam Med Dis Prev 2018.
- Arun C. Nachiappan, et al. Pulmonary Tuberculosis: Role of Radiology in Diagnosis and Management. Radiographics 2017.

