Preparamos um artigo completo que detalha sobre a Reconstrução de Fase em casos de Trauma. Esclareça todas as suas dúvidas.
Boa leitura!
Trauma e Reconstrução de Face: Introdução e Epidemiologia
O trauma é a principal causa de mortes em indivíduos jovens em todo o mundo. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), os traumas estão não só relacionados a grande mortalidade, como também a grande morbidade, acarretando sequelas muitas vezes irreversíveis.
Nesse contexto, estima-se que ocorra mais de 8 milhões de óbitos por trauma no mundo, sendo que as lesões da cabeça e face, em conjunto, representam 50% dessas mortes. Em relação ao trauma de face especificamente, ocorre principalmente em pessoas do sexo masculino e jovens entre 20 e 30 anos.
Sobre as causas relacionadas as lesões de face, a primeira causa são as agressões físicas, e em segundo lugar os traumas automobilísticos, incluindo atropelamentos e acidentes de bicicleta. Além disso, outras importantes causas são os acidentes pela prática de esportes e as quedas.
A face é definida como a superfície anterior da cabeça e vai da fronte ao queixo e de uma orelha à outra. A face determina nossa identidade como ser humano, por isso o trauma de face diferencia-se dos demais tipos de trauma.
As malformações, cicatrizes ou outras alterações na face acarretam consequências marcantes que ultrapassam os efeitos físicos, levando a prejuízos emocionais, funcionais e estéticos que podem ser permanentes. Devido a grande frequência das lesões em face, é essencial entendermos as prioridades e particularidades do tratamento e prevenção dessas lesões.
Protocolo do ATLS
Como em qualquer trauma, sempre devemos seguir o protocolo do ATLS (Advanced trauma life support), pois por meio dele podemos avaliar e tratar rapidamente as lesões que geram risco de vida.
Na avaliação inicial, é utilizada uma abordagem sistemática que possa ser aplicada com rapidez e precisão. Em um segundo momento, é feita a abordagem de lesões não graves e feito o planejamento para a reconstrução do trauma facial.
Na maior parte das vezes, o trauma de face isolado não leva a morte imediata, mas em alguns casos, podem gerar obstruções de via área por esmagamento ou sangramentos, requerendo cuidados já no atendimento inicial.
Nessa perspectiva, quando ocorre um trauma em face frequentemente há lesão de tecidos mole e ossos, mas também pode ocorrer extensão para nervos faciais, cérebro, olhos, seios da face e dentição.
Por conta da complexidade em que geralmente estão envolvidas, a abordagem do trauma de face geralmente envolve uma equipe multidisciplinar, como os especialistas em trauma, oftalmologia, cirurgia Plástica, cirurgia maxilofacial e neurocirurgia.
Reconstrução de Face: Anatomia da Face
Sabemos que as lesões traumáticas de face rompem a anatomia, por isso, antes de entendermos os demais aspectos sobre o trauma de face, devemos entender um pouco sobre a sua anatomia. Para fazer a reconstrução facial, o cirurgião deve reparar e reposicionar as estruturas traumatizadas, assim, deve ter um conhecimento profundo sobre a anatomia normal da face.
O formato básico da face é determinado pelos ossos subjacentes. Isso garante a individualidade de cada pessoa através da variação anatômica. O esqueleto facial é chamado de viscerocrânio, que forma a parte anterior do crânio e consiste nos ossos que circundam a boca (maxila e mandíbula), nariz/cavidade nasal e a maior parte das cavidades orbitais.
Ele é formado por 15 ossos irregulares: três ossos ímpares centralizados ou situados na linha mediana (mandíbula, etmoide e vômer) e seis ossos pares bilaterais (maxilas; conchas nasais inferiores; e zigomáticos, palatinos, ossos nasais e lacrimais). A mandíbula se articula com a base do crânio nas articulações temporomandibulares.

Imagem: Ossos da face. Fonte: Trauma Bucomaxilofacial – 4° ed.
A face é importante na comunicação e isso é feito principalmente pela forma como usamos os músculos faciais para produzir a expressão facial. Os músculos da face estão na tela subcutânea da parte anterior e posterior do couro cabeludo, face e pescoço.
Por exemplo, o músculo orbicular da boca controla a abertura e fechamento da boca, sendo importante durante a articulação da fala. O músculo bucinador, por sua vez, ajuda na expressão de sorrir, além de manter as bochechas tensas, evitando seu pregueamento e lesão durante a mastigação.
Outros músculos importantes e que podem ser facilmente lesados no trauma são o orbicular do olho, responsável pelo fechamento palpebral e o corrugador do supercílio que cria rugas verticais acima do nariz.

Imagem: Músculos da expressão facial. Fonte: Trauma Bucomaxilofacial – 4° ed.
O nervo trigêmeo (NC V) é o principal responsável pela inervação sensitiva da face e da parte anterossuperior do couro cabeludo; e o nervo facial (NC VII) é o responsável pela inervação motora dos músculos faciais.
SE LIGA! O nervo trigêmeo se divide em o nervo oftálmico (NC V1), o nervo maxilar (NC V2) e o componente sensitivo do nervo mandibular (NC V3). Esses nervos são nomeados de acordo com as principais áreas onde terminam: olho, maxila e mandíbula, respectivamente. A maioria das artérias superficiais da face é ramo ou derivada de ramos da artéria carótida externa, sendo que a artéria facial é a principal responsável pelo suprimento arterial da face. Enquanto isso, a maioria das veias externas da face é drenada por veias que acompanham as artérias da face.
Atendimento Inicial no Trauma de Face
Sabemos que as lesões de face são muito comuns. Quando ocorrem isoladamente, na maioria das vezes não apresentam uma ameaça grave a vida, sendo, nesses casos, o seu cuidado definitivo deixado para um segundo momento, quando o paciente já está estabilizado.
No entanto, quando associado a outras lesões o trauma de face pode acarretar complicações graves, como a obstrução de via aérea, requerendo um tratamento já no atendimento inicial. Toda vítima de trauma deve ser atendida conforme o protocolo do ATLS.
No atendimento, ocorre uma avaliação primária rápida, reanimação das funções vitais, uma avaliação secundária mais pormenorizada e, finalmente, o início do tratamento definitivo.
Avaliação inicial
Esse processo segue o ABCDE dos cuidados do doente traumatizado e identifica as condições que implicam risco à vida através da seguinte sequência:
A. Airway – Avaliação das vias aéreas com proteção da coluna cervical.