No dia 11 de março de 2020, a OMS declarou a pandemia da COVID-19, daí a nossa liberdade de ir e vir, garantida pela Carta Magna, foi cessada, a interação pessoal, a qual faz parte da nossa essência, foi acabada.
Apesar da era digital que estamos vivendo, com a geração alpha, também conhecida como “geração de vidro” ou “geração IA” (inteligência artificial), que vê o mundo através de tela, essa grande inteligência se contrasta com a carência da inteligência e do controle emocional, o que culmina na crescente curva da prevalência dos transtornos mentais no geral, em especial as ansiedades, em todo o mundo.
Quadro clínico dos transtornos de ansiedade

Segundo a neurociência, os humanos precisam do toque, afinal somos animais sociáveis. Os cientistas de uma Universidade de Miami afirmam que o isolamento social está gerando o fenômeno da “fome de pele”, que é a carência do contato físico, o qual está desencadeando uma real epidemia dentro da grande pandemia, a epidemia dos transtornos mentais.
Antes da evolução da Medicina voltada para o doente e não para a doença, se diferenciava as questões físicas das questões emocionais e psíquicas, hoje, com o avanço da Medicina holística, perceberam que não se pode diferenciar a psiquê do restante do corpo, afinal, uma mente doente, reflete direta ou indiretamente nos outros sistemas. E se você, caro leitor, está vivendo na pandemia da COVID-19, com certeza já deve ter ouvido falar ou já teve o que se chama de ansiedade. Muito tem se falado sobre esse tema, até vulgarmente, mas você sabe o que realmente significa o estado de ansiedade, ou melhor, as síndromes ansiosas?
Sim, a ansiedade é considerada uma síndrome, que pode ser dividida em quadros de ansiedade permanente e constante (incluindo o transtorno de ansiedade generalizado – TAG) e em quadros que há crises de ansiedade abruptas, que são as crises de pânico, e, quando recorrentes, são chamadas de transtorno do pânico.
Vamos abordar aqui melhor os quadros de ansiedade permanente e constante, que são as mais vistas e de maior prevalência epidemiológica. Suas manifestações clínicas mais comuns são: cefaleia, palpitações, náuseas, tonturas, dor torácica, tremor, sudorese e dispneia, associadas a sentimento de angústia, tensão, preocupação, irritação e nervosismo, problemas de concentração e episódios de insônia também são comuns. As mulheres podem ter ciclos menstruais irregulares e dolorosos e ainda com diminuição da libido.
Para diagnóstico do distúrbio de ansiedade generalizado, os sintomas somáticos devem estar presentes a pelo menos 6 meses. Lembrando que eles podem variar de pessoa para pessoa e se deve individualizar cada caso.
Epidemiologia da ansiedade em meio a pandemia da COVID-19
“Uma falha em levar o bem-estar emocional das pessoas a sério levará a custos sociais e econômicos a longo prazo para a sociedade.” – Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Vamos ver agora alguns dados epidemiológicos que comprovam essa grande epidemia de transtornos mentais em meio a pandemia de COVID – 19:
- Segundo a OMS, o Brasil é o quinto país com maior porcentagem de pessoas com transtornos de ansiedade do mundo e o quinto com maior número de casos de depressão. Sendo que cerca de 9% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade e a depressão afeta cerca de 6% da população.
- Segundo uma pesquisa realizada pelo Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Campinas, dentre os 45.161 brasileiros participantes do estudo, mais de 50% relataram que frequentemente estavam ansiosos e nervosos durante a pandemia, e dentre os que não tinham problemas de sono, mais de 40% passaram a ter.
Esses dados são alarmantes e já podem provar que a população brasileira está doente, não só da síndrome gripal que o Sars-Cov2 gera, mas também da síndrome de ansiedade, que mexe na essência humana.
Mas como tratar e prevenir a ansiedade?

A prevenção e o tratamento da ansiedade estão intrinsicamente ligados, pois passam muito pela observação e autoconhecimento, assim, quanto mais precoce o diagnóstico e a busca de ajuda, mais eficaz será o tratamento.
Logo, é necessário que, inicialmente, se observem as manifestações clínicas vistas acima e, em seguida, busque ajuda. A psicoterapia continua sendo a primeira linha de tratamento dos transtornos ansiosos. O uso de fármacos também pode ser eficiente, mas só deve ser prescrito pelo médico e deve ser analisado cada caso individualmente, a fim de não ter abuso de substâncias.
Além disso, há uma forma de prevenção que não custa nada e melhora a saúde mental, que é o autocuidado, cuidar de si mesmo, antes de cuidar do outro, olhar para este lugar sacro, que é seu próprio corpo, e compreender as limitações, os desejos, os defeitos, as qualidades, priorizando o bem-estar biopsicossocial e espiritual.
Seguem 2 cartilhas de recomendação da OMS para auxiliar na saúde mental em meio a pandemia:
CARTILHA DE BOAS PRÁTICAS PARA AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA EM CONTEXTOS DE PANDEMIA
SAÚDE MENTAL E ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NA PANDEMIA COVID-19

Conclusão
Os transtornos de ansiedade são alterações neurológicas de alta importância para a saúde pública e de alta prevalência na população mundial, se tornando fator de destaque na atual pandemia, decorrente não só dos inúmeros índices de mortalidade, mas também dos diversos agentes estressores, como a solidão, o medo de contrair a doença, a tensão econômica e a incerteza sobre o futuro.
Portanto, é imprescindível que haja ações conjuntas entre o serviço público, privado e a comunidade em geral, começando pelo reconhecimento dos sintomas associados aos quadros de ansiedade, a prática do autocuidado, além da disseminação de medidas para uma boa qualidade de sono (também recomendadas pela OMS). É mister, também, que haja uma maior disponibilização de serviços à distância para atenção e promoção de saúde mental para pacientes que precisam de maiores cuidados com sua área psíquica.
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
Delgalarrondo, Paulo. Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. 3a ed.
Relato de tristeza/depressão, nervosismo/ansiedade e problemas de sono na população adulta brasileira durante a pandemia de COVID-19 – http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1679-49742020000400021
ONU destaca necessidade urgente de aumentar investimentos em serviços de saúde mental durante a pandemia de COVID-19 – https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6170:onu-destaca-necessidade-urgente-de-aumentar-investimentos-em-servicos-de-saude-mental-durante-a-pandemia-de-covid-19&Itemid=839
Brasil tem maior taxa de transtorno de ansiedade do mundo, diz OMS – https://sindjustica.com/2020/05/27/brasil-tem-maior-taxa-de-transtorno-de-ansiedade-do-mundo-diz-oms/#:~:text=O%20Brasil%20%C3%A9%20o%20pa%C3%ADs,5%2C8%25%20da%20popula%C3%A7%C3%A3o.
Neurociência explica por que temos “fome de pele” e precisamos de abraços- https://brasil.elpais.com/smoda/2020-05-16/neurociencia-explica-por-que-temos-fome-de-pele-e-precisamos-de-abracos.html?ssm=FB_BR_CM&utm_source=Facebook&fbclid=IwAR3QqJevWnnNY5WGEAylq7nNn9b29mMnu9OIw4mkkvONu8l8awS1e2610ys#Echobox=1589654770