Algum dia você pode ter preferido ficar sozinho e não se encontrar com um grupo de pessoas, e isso é normal. No entanto, em alguns casos, é necessário dar atenção a esse comportamento de isolamento social, desinteresse em relacionamentos e ausência de demonstrações de afeto.
Quando estas e mais algumas características são constantes e passam a causar prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo significativo, podemos estar diante de um caso de Transtorno de personalidade Esquizoide.
Para não confundir “solitude´´ ou ser antissocial com esse transtorno, e nem deixar que alguém enfrente essa dor sozinho, vejamos um pouco mais sobre ele.
O que são transtornos de personalidade?
São padrões persistentes de experiência intima ou de um comportamento que se diferem acentuadamente do padrão do indivíduo, afetando pelo menos duas áreas entre cognição, afetividade, funcionamento interpessoal e controle dos impulsos. O padrão de transtornos desse tipo é bem flexível, uma vez que há uma grande variedade se causas, sendo elas sociais e pessoais. É válido ressaltar que não são condições não são congênitas, ou seja, são desenvolvidas durante a vida, geralmente na adolescência ou na fase adulta. São estáveis e de longa duração, não tendo nenhuma relação com abuso de substancias ou doenças orgânicas.
O transtorno de personalidade esquizoide
Dentro dos transtornos de personalidade (TP), está incluso no grupo A, conhecido como Bizarro ou como transtornos do espectro esquizofrênico, uma vez que todos que estão inclusos são pré-dispostos ou relacionados à esquizofrenia.
O comportamento esquizoide é caracterizado principalmente pelo isolamento social, não demonstração de emoções e prazeres, desinteresse em relacionamentos e indiferença.
Sua prevalência é de 0,5 a 7% na população geral, sendo ainda mais frequente na população em situação de rua (cerca de 14%), de acordo com estudos epidemiológicos norte-americanos.
De acordo como DSM-V, o transtorno da personalidade esquizoide é incomum em contextos clínicos. Uma estimativa de prevalência com base em uma sub amostra de probabilidade da Parte II do National Comorbidity Survey Replication sugere uma prevalência de 4,9%. Dados do National Epidemiologic Survey on Alcohol and Related Conditions (2001-2002) sugerem uma prevalência de 3,1%.
Características
O transtorno de personalidade paranoide é caracterizado por:
- Padrão de desapego social e familiar;
- Preferencia por atividades solitárias como jogos de computador e televisão;
- Evitar relacionamentos íntimos pessoais, sexuais ou familiares;
- Raras demonstrações de fortes emoções, desejos e prazeres. Não expressam raiva mesmo que sofram provocações, nem reagem adequadamente a eventos importantes da vida;
- Indiferença a elogios ou críticas;
- Mesmo que aparentando ter grande frieza emocional, interiormente sentem carência afetiva e sensibilidade ao ambiente externo;
- Seu relacionamento com as pessoas torna-se difícil, uma vez que está angustiado com pensamentos, sensações e anseios, impedindo que diga quem é e o que sente;
- Apresentam uma identidade difusa e fragmentada;
- Isolamento, pouco interesse em relações intimas ou sexuais com outra pessoa;
- Aparentam indiferença, que contrasta com uma vivencia anterior de intensa sensibilidade e fragilidade;
- Podem ter pequenos episódios psicóticos, e curtos;
- Demonstram não ter planos para a vida, como se estivessem à deriva´´ em relação a seus objetivos;
- Não tem amigos, namorados/as e não costumam se casar.
Diagnóstico
Padrão de distanciamento de relações sociais e faixa restrita de expressões de emoções em relações interpessoais. Estas pessoas preferem ficar sozinhas em vez de com outras pessoas, preferindo atividades mecânicas ou abstratas como jogos matemáticos, de computador e que não precisem de interação. Ainda assim, sentem prazer em poucas atividades, ou nenhuma. Esses indivíduos não têm amigos próximos ou confidentes, exceto um possível parente de primeiro grau.São indiferentes à aprovação ou à crítica dos outros e não parecem se incomodar com o que os demais podem pensar deles.
No entanto, naquelas circunstâncias particularmente incomuns em que esses indivíduos ficam pelo menos temporariamente confortáveis em revelar a si mesmos, podem admitir ter sentimentos de dor, sobretudo relacionados às interações sociais.
O transtorno da personalidade esquizoide não deve ser diagnosticado se o padrão de comportamento ocorre exclusivamente durante o curso de esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressivo com sintomas psicóticos, outro transtorno psicótico, transtorno do espectro autista ou se é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma condição médica neurológica (p. ex., epilepsia do lobo temporal) ou a outra condição médica.
Desenvolvimento e Curso
O transtorno da personalidade esquizoide pode ficar aparente pela primeira vez na infância e adolescência por meio de solidão, relacionamento ruim com os colegas e baixo rendimento escolar, o que marca essas crianças ou adolescentes como diferentes e os torna sujeitos a provocações. Também pode surgir no começo da vida adulta e está presente em vários contextos.
Fatores de Risco e Prognóstico
Genéticos e fisiológicos. O transtorno da personalidade esquizoide pode ter prevalência aumentada entre familiares de indivíduos com esquizofrenia ou transtorno da personalidade esquizotípica.
Questões Diagnósticas Relativas à Cultura
Indivíduos de várias origens culturais podem por vezes mostrar comportamentos e estilos interpessoais defensivos que podem ser erroneamente rotulados como “esquizoides”. Por exemplo, pessoas que saem de zonas rurais e vão para centros urbanos podem reagir com uma espécie de “paralisia emocional” que pode durar vários meses e que se manifesta por meio de atividades solitárias, afeto constrito e outros déficits de comunicação. Imigrantes de outros países são, às vezes, incorretamente vistos como frios, hostis ou indiferentes.
Questões Diagnósticas Relativas ao Gênero
O transtorno da personalidade esquizoide é diagnosticado um pouco mais frequentemente em indivíduos do sexo masculino e pode causar-lhes mais incapacidade.
Enfermidades associadas
Não ocorre exclusivamente durante o curso de esquizofrenia, transtorno bipolar ou depressivo com sintomas psicóticos, outro transtorno psicótico ou transtorno do espectro autista e não é atribuível aos efeitos psicológicos de outra condição médica.
Indivíduos com esse transtorno podem, às vezes, desenvolver transtorno depressivo maior. O transtorno da personalidade esquizoide com frequência ocorre concomitantemente com os transtornos da personalidade esquizotípica, paranoide e evitativa. Se os critérios são atendidos antes do surgimento de esquizofrenia, acrescentar “pré-mórbido”, isto é, “transtorno da personalidade esquizoide (pré-mórbido)”.
Não confundir!
Transtorno da personalidade esquiva ou evitativa
Assim como no caso dos pacientes Esquizoides, os de Transtorno de personalidade esquiva são socialmente retraídos, porém tem como diferença que estes anseiam por relacionamentos interpessoais mais os temem por baixa autoestima e receio a criticas e rejeições.
Assim, o TP Esquiva não teme uma situação especifica, mas ser magoado ou envergonhado. Já o Esquizoide não vê valor algum em situações sociais e não teme humilhações ou quaisquer constrangimentos. Se o paciente expressar um forte desejo de contato social, é possível que o transtorno da personalidade esquiva seja o diagnóstico mais apropriado.
Transtornos psicóticos
O transtorno da personalidade esquizoide pode ser distinguido de transtorno delirante, esquizofrenia e transtorno bipolar ou depressivo com sintomas psicóticos pelo fato de esses transtornos serem todos caracterizados por um período de sintomas psicóticos persistentes, como delírios e alucinações. Para que seja dado um diagnóstico adicional de transtorno da personalidade esquizoide, o transtorno da personalidade deve ter estado presente antes do aparecimento dos sintomas psicóticos e deve persistir quando tais sintomas estão em remissão.
Transtorno de personalidade Esquizotípica
O transtorno da personalidade esquizoide pode ser distinguido do da esquizotípica pela ausência de distorções cognitivas e perceptivas e do transtorno da personalidade paranoide pela ausência de desconfiança e ideação paranoide.
Coloquialmente, as pessoas chamariam uma pessoa com TP Esquizoide de antissocial, no entanto, considerando o significado real do termo, são transtornos totalmente diferentes. Transtorno de personalidade antissocial é caracterizado por um padrão generalizado de descaso com as consequências e direitos dos outros. Pessoas com transtorno de personalidade antissocial cometem atos ilegais, fraudulentos, exploradores e imprudentes para ganho pessoal ou prazer e sem remorsos.
Diferente do TP Esquizoide, a fobia social é o medo ou a ansiedade relacionada a determinadas situações sociais ou de desempenho. Essas situações são com frequência evitadas, ou suportadas com muita angústia.
Solidão
Indivíduos que são “solitários” podem apresentar traços de personalidade capazes de serem considerados esquizoides. Esses traços somente constituem o transtorno da personalidade esquizoide quando são inflexíveis e mal adaptativos e causam prejuízo funcional ou sofrimento subjetivo significativo.
Tratamentos
Em sua abordagem é necessário o treinamento de habilidades sociais. No geral, o tratamento é o mesmo que para todos os transtornos de personalidade. Não há estudos controlados publicados sobre psicoterapia e terapia medicamentosa para o transtorno de personalidade esquizoide.
Geralmente, as tentativas de compartilhar interesses em assuntos impessoais que atraem as pessoas que preferem atividades solitárias podem ajudar a estabelecer um relacionamento com o paciente e talvez facilitar a interação terapêutica.
Abordagens cognitivo-comportamentais que foquem em adquirir habilidades sociais também podem ajudar os pacientes a mudar. Como eles não têm interesse em outras pessoas, eles podem não estar motivados a mudar.
Conclusão
O transtorno de personalidade tem como principais características a indiferença, o sentimento de não precisa, nem sequer querer socializar, não expressão de sentimentos e o isolamento. Portanto, este transtorno pouco conhecido e tão característico deve ser um conhecimento dos funcionários da área da saúde e das pessoas no geral, uma vez que assim mais pessoas que sentem estes sintomas possam ser diagnosticadas e tratadas, visto que estas não vão tomar a iniciativa de procurar ajuda.
Referências
Livro: Introduçao a psiquiatria, Nancy C. Andreasen, Donald W. Black, 4ª edição.
Livro: Manual diagnóstico e estadístico de transtornos mentales (DSM) 5ª edição.
Autora: Sara Mendes Marques
Instagram: @sariinha_mendes
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.