Tinnitus, ou zumbido no ouvido, refere-se à percepção de um som sem que haja uma fonte externa responsável por ele, o que significa que apenas a pessoa afetada consegue ouvi-lo.
Estima-se que entre 10% e 25% dos adultos experimentam algum grau de zumbido, sendo que crianças também podem ser afetadas. Em alguns casos, o incômodo desaparece espontaneamente ou melhora com o tempo. No entanto, para uma parcela significativa das pessoas, o sintoma persiste ou se agrava.
O zumbido pode impactar negativamente diversos aspectos da vida do paciente. Distúrbios do sono, dificuldade de concentração, irritabilidade, ansiedade e sintomas depressivos são frequentemente relatados. Isso torna esse sintoma não apenas uma condição otológica, mas também um desafio psicossocial e funcional.
Além disso, a complexidade do zumbido como sintoma reside justamente em sua natureza subjetiva e multifatorial. Ele pode ser causado por alterações auditivas, neurológicas, vasculares ou mesmo estar relacionado a fatores emocionais, tornando o diagnóstico e o tratamento um verdadeiro desafio clínico.
Nesse contexto, a escuta ativa — caracterizada pela atenção plena, empatia e acolhimento durante a consulta — torna-se uma ferramenta fundamental. Mais do que ouvir o relato do paciente, o profissional precisa conectar-se genuinamente com sua experiência para oferecer uma abordagem eficaz e humanizada.
Fisiopatologia do tinnitus
Três principais teorias tentam explicar os mecanismos centrais do tinnitus:
- Teoria da perda de entrada coclear: Propõe que a redução ou ausência de estímulos auditivos periféricos (como ocorre na lesão das células ciliadas da cóclea por ototoxicidade, trauma acústico ou dano ao nervo coclear) leva a um aumento da atividade espontânea e desorganizada no córtex auditivo central. Isso causa uma reconfiguração dos circuitos neurais, que passam a gerar a sensação de som na ausência de estímulo externo.
- Teoria da dor fantasma auditiva: Compara o zumbido à dor fantasma de membros amputados. Nesse caso, a ideia é que a falta de estímulos auditivos normais leva à perda da inibição neural, fazendo com que as áreas do cérebro relacionadas à audição se tornem hiperativas.
- Teoria das alterações neuroquímicas: Destaca o papel de neurotransmissores, como a serotonina e o GABA. Estudos indicam que desequilíbrios nesses sistemas podem contribuir para o desenvolvimento e a persistência do quadro, especialmente em pacientes com sintomas de ansiedade e depressão.
Principais causas do tinnitus
Diversos fatores podem desencadear ou agravar o tinnitus. Entre os mais comuns, estão:
- Perda auditiva: seja pelo envelhecimento natural (presbiacusia) ou pela exposição prolongada a ruídos intensos, como ocorre em ambientes industriais, shows e até no uso de fones de ouvido em volumes elevados.
- Trauma acústico: ruídos súbitos e intensos, como explosões ou tiros, podem danificar estruturas do ouvido interno e provocar zumbido permanente.
- Doenças otológicas: infecções, acúmulo de cera no conduto auditivo e condições como a doença de Ménière podem estar envolvidas.
- Medicamentos ototóxicos: certos fármacos, como anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), alguns antibióticos, quimioterápicos, antimaláricos e antidepressivos, podem induzir ou agravar o zumbido, especialmente em doses elevadas.
- Causas neurológicas e vasculares: tumores como o schwannoma vestibular, traumatismos cranianos e distúrbios vasculares (hipertensão arterial, malformações arteriovenosas ou aterosclerose) podem afetar diretamente as vias auditivas.
- Disfunções da articulação temporomandibular (ATM): alterações nessa articulação, próxima ao ouvido, também podem desencadear sintomas de zumbido.
- Condições sistêmicas crônicas, como diabetes, distúrbios da tireoide, anemias, enxaquecas e doenças autoimunes estão associadas a uma maior propensão ao desenvolvimento de zumbido.
É importante destacar que, apesar da variedade de causas conhecidas, em alguns pacientes o quadro surge sem uma explicação evidente, o que reforça a complexidade desse sintoma e a importância de uma avaliação médica detalhada.
Classificação do tinnitus
Divide-se o tinnitus em duas categorias principais: objetivo e subjetivo.
O objetivo é raro e ocorre quando detecta-se o som por outra pessoa, geralmente com o auxílio de um estetoscópio posicionado ao redor do osso temporal. Além disso, ele costuma ser unilateral e, na maioria dos casos, tem origem em alterações vasculares ou, menos frequentemente, musculoesqueléticas.
Já o subjetivo é o tipo mais comum. Ele pode afetar um ou ambos os ouvidos e estar relacionado a alterações em qualquer ponto da via auditiva, desde a cóclea até o córtex cerebral. Ademais, acredita-se que, nesse tipo de zumbido, a atividade anormal no sistema nervoso central seja o principal gerador da percepção sonora, mesmo quando a lesão auditiva é periférica, como na cóclea.
Queixas frequentes do paciente com tinnitus
O tinnitus é um sintoma que pode manifestar-se de diferentes formas em cada paciente. Frequentemente, ele é percebido como sons “fantasmas”, que não têm fonte externa, podendo ocorrer em um ou ambos os ouvidos ou até mesmo dentro da cabeça.
Os ruídos descritos variam bastante: alguns relatam zumbidos, assobios, chiados, estalos ou sons semelhantes a rugidos. Além disso, esses ruídos podem ser intermitentes ou constantes, de intensidade e frequência variadas.
Muitos pacientes chegam ao consultório relatando incômodo com sons persistentes, sem conseguir explicar exatamente sua origem ou natureza. É comum que tenham dificuldade em descrever o que sentem, utilizando termos vagos, o que pode dificultar o diagnóstico.
Há ainda situações em que o movimento de partes do corpo, como a cabeça, o pescoço ou os olhos, influencia na percepção do zumbido e, em raras circunstâncias, o som acompanha os batimentos cardíacos e pode ser detectado pelo médico com o uso do estetoscópio.
Diagnóstico e escuta ativa no atendimento
A escuta ativa do paciente é essencial no diagnóstico do zumbido, já que compreender como ele percebe os sons anormais e quais sintomas os acompanham pode orientar toda a investigação clínica.
O zumbido frequentemente associa-se a perdas auditivas ou danos cocleares, e em alguns casos pode até ser o primeiro sinal de alterações no sistema nervoso central. Dessa forma, a anamnese detalhada e o exame físico criterioso são os pilares iniciais na identificação da causa.
História clínica
Na entrevista clínica, é fundamental explorar com o paciente aspectos como:
- Condições médicas pré-existentes, como hipertensão, doenças neurológicas e histórico de cirurgias.
- Uso de medicamentos.
- Histórico auditivo, incluindo exposição a ruído, traumatismo craniano, infecções otológicas, vertigem ou desequilíbrio e sintomas compatíveis com disfunção da articulação temporomandibular (ATM).
- Sintomas psicológicos, como depressão, ansiedade ou distúrbios do sono.
Além disso, a descrição do zumbido pelo paciente também fornece pistas importantes sobre sua causa. Portanto, deve-se investigar se o som é:
- Episódico ou constante;
- Pulsátil ou contínuo;
- Com ritmo, tom ou intensidade variável;
- Influenciado por movimento da cabeça ou posição corporal.
Essas características ajudam a sugerir a origem provável. O zumbido pulsátil, por exemplo, geralmente indica origem vascular, enquanto sons com clique ou mecânicos indicam causas musculoesqueléticas ou mioclonias. O zumbido de baixa frequência, por sua vez, pode estar relacionado à doença de Ménière. Por outro lado, zumbido de tom agudo contínuo comumente associa-se à perda auditiva neurossensorial ou lesão coclear.
Exame físico
O exame físico deve incluir uma avaliação minuciosa da cabeça e pescoço, inspeção dos nervos cranianos e análise da membrana timpânica.
Ademais, nos casos com suspeita vascular, recomenda-se a ausculta de diversas regiões ao redor do ouvido e a aplicação de manobras de compressão da veia jugular para observar mudanças na intensidade do som.
Exames complementares
Nem todos os pacientes necessitam de exames complementares, especialmente se o zumbido for leve e episódico.
No entanto, pacientes com sintomas alarmantes, como zumbido unilateral persistente, zumbido pulsátil contínuo, perda auditiva súbita, dor de ouvido ou sinais neurológicos focais, devem ser encaminhados com urgência para o otorrinolaringologista ou neurologista.
Em alguns casos, a investigação com exames de imagem como ressonância magnética (RM), tomografia computadorizada (TC) e eventualmente angiografia é indicada para excluir lesões vasculares ou tumores na base do crânio.
Por fim, quando há suspeita de origem auditiva, os exames audiométricos são fundamentais. Eles ajudam a localizar a alteração dentro do sistema auditivo, avaliando estruturas como o ouvido médio, a cóclea e o tronco encefálico.
Abordagens terapêuticas do tinnitus
O tratamento do zumbido depende da identificação de sua causa. Portanto, quando há um fator fisiológico identificável, como acúmulo de cera no ouvido ou disfunções da articulação temporomandibular (ATM), tratar a causa pode aliviar ou até eliminar os sintomas.
No entanto, em muitos casos, o zumbido persiste por longos períodos. Nessas situações, o foco do tratamento é reduzir seu impacto na qualidade de vida e as principais abordagens incluem a terapia sonora e a terapia comportamental.
Terapia sonora
A terapia sonora utiliza sons agradáveis para mascarar o zumbido ou ajudar o cérebro a se adaptar a ele. Dispositivos como geradores de som de mesa, aparelhos auditivos, geradores vestíveis e dispositivos combinados são frequentemente usados, além de aplicativos de smartphone com sons relaxantes.
Terapia comportamental
A terapia comportamental, especialmente o aconselhamento psicológico, consiste em outro recurso importante que ajuda o paciente a entender o zumbido e a lidar melhor com ele.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC), por exemplo, é eficaz para modificar pensamentos negativos associados à condição. Já a terapia de retreinamento do zumbido combina orientação e exposição sonora constante para dessensibilizar o cérebro ao som.
Terapia medicamentosa
Embora não existam medicamentos específicos para o zumbido, em alguns casos, antidepressivos ou ansiolíticos podem ser indicados para controlar sintomas associados, como insônia ou ansiedade.
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O zumbido (tinnitus) vai muito além do ouvido. Em muitos casos, é o primeiro sinal de alterações neurológicas sutis, como disfunções no tronco encefálico, lesões vasculares intracranianas ou até tumores. É aí que entra o olhar clínico do neurologista.
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Referências
- NIH. Tinnitus. 2023. Disponível em: https://www.nidcd.nih.gov/health/tinnitus. Acesso em 03 de mai 2025.
- DINCES, E. Etiology and diagnosis of tinnitus. UpToDate, 2025.
- DINCES, E. Treatment of tinnitus. UpToDate, 2025.