O tendão calcâneo, também conhecido como tendão de Aquiles, é uma estrutura essencial para a locomoção humana, conectando os músculos gastrocnêmio e sóleo ao calcâneo e permitindo a flexão plantar necessária para caminhar, correr e saltar.
Lesões nessa região são comuns, especialmente em atletas e indivíduos fisicamente ativos, e podem variar desde inflamação crônica e degeneração tendínea até rupturas parciais ou completas.
Nesse contexto, o diagnóstico precoce e preciso, aliado a estratégias terapêuticas adequadas são fundamentais para a recuperação funcional e prevenção de complicações.
Anatomia e biomecânica do tendão calcâneo
O tendão calcâneo, formado pela convergência dos músculos gastrocnêmio e sóleo, insere-se na face posterior do calcâneo, desempenhando papel fundamental na flexão plantar e na propulsão durante a marcha, corrida e salto.
Sua trajetória apresenta uma rotação medial de 90° e é envolta por um paratendão, que permite deslizamento em relação aos tecidos circundantes. Além disso, a função do tendão é potencializada pela ação de músculos auxiliares, como o tibial posterior e os fibulares longo e curto.
Estruturalmente, é composto predominantemente por colágeno tipo I e fibras de contração rápida, conferindo resistência e elasticidade, enquanto sua vascularização é relativamente pobre, especialmente na região 2 a 6 cm acima da inserção, correlacionando-se com a maior incidência de lesões.
Biomecanicamente, o tendão suporta cargas de até dez vezes o peso corporal, sendo influenciado pela postura do pé (pronação ou supinação) e por fatores anatômicos e mecânicos que modulam a distribuição de forças durante a locomoção.
Ademais, sua inervação sensorial provém principalmente do nervo sural, enquanto os músculos que o originam recebem estímulo do nervo tibial.

Principais lesões do tendão calcâneo
Embora seja o tendão mais resistente do corpo, o tendão calcâneo é altamente suscetível a lesões, sendo a ruptura completa uma das mais frequentes.
Entre as manifestações mais comuns estão a tendinopatia (ou tendinite) e a tendinose, bem como rupturas parciais ou completas, e condições associadas como entesopatia ou depósitos lipídicos (xantomas) em pacientes com distúrbios metabólicos.
Tendinopatia
A tendinopatia geralmente surge devido a sobrecarga repetitiva, esforços intensos ou microtraumas, associados a fatores como rigidez do tendão, biomecânica inadequada ou suprimento sanguíneo local limitado.
Tendinose
A tendinose caracteriza-se por degeneração crônica do tendão, espessamento difuso e remodelação estrutural sem inflamação aguda. Resulta de microtraumas repetitivos e cicatrização inadequada, sendo mais comum em pessoas acima de 35 anos.
Pode afetar a região hipovascular do tendão ou a sua inserção, configurando entesopatia, frequentemente associada a doenças inflamatórias sistêmicas.
Rupturas do tendão calcâneo
As rupturas do tendão calcâneo ocorrem tipicamente após forças súbitas, como contrações excêntricas ou movimentos pliométricos explosivos.
Fatores de risco incluem alterações biomecânicas do pé, rigidez do tríceps sural, desequilíbrios musculares, sobrecarga, idade avançada e uso de determinados medicamentos, como fluoroquinolonas e corticosteroides.
Outras condições
Outras condições, como xantomas do tendão calcâneo, podem surgir em distúrbios do metabolismo lipídico, provocando sintomas semelhantes aos da tendinopatia antes de se tornarem visíveis.
Apresentação clínica das lesões do tendão calcâneo
Tendinopatia
Na tendinopatia do tendão calcâneo, o sintoma predominante é a dor localizada 2 a 6 cm acima da inserção no calcâneo, frequentemente associada à rigidez matinal e agravada por atividades físicas ou alongamento do tendão. O exame físico revela sensibilidade ao longo do tendão, espessamento ou crepitação, mas edema e equimoses geralmente não estão presentes.
Tendinose
A tendinose, por sua vez, apresenta-se com dor ou desconforto na região proximal do tendão, nodularidade palpável e espessamento difuso, frequentemente detectáveis em ultrassonografia ou ressonância magnética. Além disso, a inserção do tendão pode ser afetada, configurando entesopatia, que pode manifestar-se com dor local e presença de esporões ósseos ou entesófitos visíveis em exames de imagem.
Ruptura do tendão calcâneo
Por fim, as rupturas parciais ou completas, geralmente caracterizam-se por dor aguda e sensação de “estalo” na região posterior do tornozelo, podendo haver inchaço, hematomas e defeito palpável no tendão. Além disso, testes físicos específicos, como o teste de Thompson e o teste de Matles, são fundamentais para confirmar a presença de ruptura.
Diagnóstico por imagem nas lesões do tendão calcâneo
Tendinopatia
O diagnóstico da tendinopatia do calcâneo é geralmente clínico, sendo a avaliação por imagem reservada para excluir outras condições, como fraturas por estresse ou rupturas.
Radiografias simples podem revelar alterações ósseas associadas, como esporão de calcâneo ou deformidade de Haglund, mas não avaliam diretamente o tendão.
A ultrassonografia, por sua vez, é útil para identificar espessamento, desordem das fibras, presença de neovasos ou alterações na porção distal do tendão, incluindo entesopatia ou lesões por avulsão.

Além disso, a ressonância magnética (RM) pode demonstrar aumento de sinal em T2 e aumento do diâmetro do tendão em casos agudos, além de avaliar bursas calcâneas aumentadas ou outras causas alternativas de dor.
Tendinose
A ultrassonografia e a RM podem revelar espessamento difuso do tendão, áreas de degeneração, nodularidade e alterações estruturais das fibras, evidenciando a degeneração crônica característica da tendinose.
A RM oferece maior detalhamento anatômico e pode identificar alterações precoces ou complicações associadas, como entesopatia.
Ruptura do tendão calcâneo
A ruptura pode ser suspeitada clinicamente, mas a ultrassonografia permite confirmação rápida à beira do leito e diferencia rupturas parciais de completas.
A ultrassonografia dinâmica avalia o contato dos fragmentos durante dorsiflexão e flexão plantar. Por sua vez, a RM é indicada quando a ultrassonografia não é conclusiva ou para planejamento cirúrgico, oferecendo melhor visualização anatômica e maior precisão para rupturas parciais.
Tratamento das lesões do tendão calcâneo
O tratamento das condições do tendão calcâneo, incluindo tendinopatia, tendinose e rupturas, deve ser individualizado conforme a gravidade da lesão, características do paciente e nível de atividade física.
Tendinopatia e tendinose
Para tendinopatia e tendinose, por exemplo, o manejo conservador é geralmente a primeira escolha, envolvendo fisioterapia com exercícios de fortalecimento e alongamento, uso de órteses, terapias de tecidos moles, ondas de choque extracorpóreas, iontoforese, esteroides tópicos, medicamentos anti-inflamatórios e, em casos selecionados, injeções peritendinosas de corticosteroides ou plasma rico em plaquetas. Entretanto, quando essas estratégias não são suficientes, a cirurgia pode ser indicada para restaurar a função do tendão.
Ruptura do tendão calcâneo
No caso de rupturas do tendão calcâneo, por outro lado, a conduta depende do tipo de ruptura e do perfil do paciente. Atletas e indivíduos ativos, por exemplo, frequentemente beneficiam-se da intervenção cirúrgica para reparo do tendão.
Por outro lado, rupturas parciais, pacientes idosos ou aqueles com menor tolerância cirúrgica podem ser manejados de forma conservadora, com imobilização, repouso e fisioterapia progressiva. O objetivo principal é restaurar a integridade e a função do tendão, prevenindo recidivas e limitações funcionais.
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Referências
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