Telangectasias: tudo o que você precisa saber para sua prática clínica!
As telangectasias representam dilatações permanentes de pequenos vasos dérmicos e subdérmicos, frequentemente perceptíveis a olho nu. Embora possam surgir como alterações isoladas, também estão associadas a diversas condições sistêmicas, genéticas e inflamatórias. Compreender suas causas, realizar um correto diagnóstico diferencial e aplicar uma abordagem clínica precisa é fundamental para médicos de diversas especialidades, especialmente dermatologistas, reumatologistas e clínicos gerais.
O que são telangectasias?
Do ponto de vista histopatológico, as telangectasias consistem em capilares dilatados, arteríolas ou vênulas localizadas na derme papilar. Clinicamente, apresentam-se como vasos lineares, arborizados, puntiformes ou estrelados, de coloração avermelhada ou azulada, dependendo do tipo de vaso envolvido.
É importante salientar que, apesar de sua aparência benigna, as telangectasias podem refletir doenças subjacentes significativas. Por isso, a avaliação clínica minuciosa é imprescindível.
Causas comuns de telangectasias
As causas de telangectasias podem ser divididas em congênitas, adquiridas e secundárias a doenças sistêmicas. A seguir, destacam-se os principais grupos etiológicos:
Telangiectasias congênitas
Telangiectasia hemorrágica hereditária (HHT ou síndrome de Osler-Weber-Rendu)
Trata-se de uma doença genética autossômica dominante causada por mutações nos genes ENG ou ACVRL1, relacionados à via TGF-β. Os pacientes apresentam telangectasias mucocutâneas, epistaxes recorrentes e malformações arteriovenosas (MAVs) viscerais, principalmente em pulmões, fígado e cérebro.
O diagnóstico clínico segue os critérios de Curaçao, que incluem:
- Epistaxes espontâneas e recorrentes
- Telangectasias mucocutâneas típicas (lábios, língua, face, mãos)
- MAVs viscerais (pulmões, fígado, cérebro, trato GI)
- História familiar de HHT em parente de 1º grau.
A presença de três ou mais desses critérios confirma o diagnóstico clínico.
Síndrome de Bloom, ataxia-telangiectasia e síndrome de Louis-Bar
São condições genéticas raras, com manifestações multissistêmicas, incluindo telangectasias, imunodeficiências e predisposição ao câncer.
No caso da ataxia-telangiectasia, as lesões vasculares costumam surgir nas conjuntivas e regiões auriculares.

Telangiectasias adquiridas
As formas adquiridas de telangectasias são muito frequentes e incluem:
- Envelhecimento cutâneo: associado à degradação de colágeno dérmico
- Fotoexposição crônica: causa telangectasias solares, especialmente em face e pescoço
- Uso prolongado de corticosteroides tópicos: induz atrofia dérmica e fragilidade vascular
- Trauma mecânico repetido ou fricção constante.
Além disso, hábitos como consumo excessivo de álcool, exposição a temperaturas extremas e gestação também contribuem para o aparecimento dessas lesões.
Telangiectasias secundárias a doenças sistêmicas
Esclerose sistêmica (esclerodermia)
As telangectasias são critério menor do escore ACR/EULAR para o diagnóstico da esclerose sistêmica. Costumam ocorrer em face, lábios e mãos, e sua presença pode indicar maior risco de envolvimento pulmonar ou gastrointestinal.

Lúpus eritematoso sistêmico (LES)
No LES, as telangectasias surgem com mais frequência em regiões fotoexpostas, associadas a rash cutâneo ou vasculite.
Cirrose hepática
Pacientes com cirrose, especialmente alcoólica, podem apresentar aranhas vasculares (spider angiomas), que são formas específicas de telangectasias com um centro puntiforme eritematoso e ramificações periféricas.
Dermatomiosite
As telangectasias periungueais são achado típico da dermatomiosite e devem ser avaliadas juntamente com outros sinais cutâneos como heliotropo e pápulas de Gottron.
Síndrome de CREST (calcinoses, Raynaud, dismotilidade esofágica, esclerodactilia e telangectasias)
Essa forma limitada de esclerodermia se destaca pela presença marcante de telangectasias em face e tronco.
Diagnóstico diferencial
Como as telangectasias podem apresentar diferentes morfologias e localizações, é essencial realizar o diagnóstico diferencial com outras lesões vasculares. Entre os principais diagnósticos diferenciais estão:
Hemangiomas
Lesões vasculares benignas, geralmente presentes desde o nascimento ou surgindo na infância. Diferentemente das telangectasias, os hemangiomas costumam apresentar crescimento expansivo.
Angiomas rubis
Pequenas pápulas vermelho-vivas que surgem com o envelhecimento. Apesar de semelhantes, não apresentam a estrutura linear típica das telangectasias.
Varizes
Dilatadas, tortuosas e palpáveis, localizadas principalmente em membros inferiores. Embora possam coexistir com telangectasias, sua fisiopatologia é distinta, relacionada à insuficiência venosa.
Rosácea
Em sua forma eritemato-telangiectásica, apresenta vasos dilatados em face, especialmente em pacientes de pele clara. A diferenciação se faz com base na presença de flushing, eritema persistente e pápulas inflamatórias.
Malformações arteriovenosas (MAVs)
Lesões vasculares profundas, pulsáteis, geralmente detectadas por imagem. Em contextos como HHT, MAVs pulmonares ou cerebrais devem ser rastreadas com angiotomografia ou ressonância.
Avaliação clínica e exames complementares
A abordagem inicial deve considerar:
- História clínica completa: incluindo início, evolução, localização, sintomas associados (epistaxe, sangramentos digestivos, sintomas neurológicos)
- Exame físico: observando distribuição, tipo e padrão das lesões
- Dermatoscopia: útil para caracterizar o padrão vascular
- Capilaroscopia periungueal: indicada principalmente na investigação de doenças reumatológicas.
Além disso, exames complementares como tomografia de tórax, ecocardiograma com contraste e ressonância magnética cerebral podem ser indicados em casos de suspeita de HHT.
Testes genéticos estão indicados quando há forte suspeita clínica de síndromes hereditárias, como a HHT, e auxiliam na triagem familiar.
Abordagem terapêutica
O tratamento das telangectasias depende diretamente da etiologia identificada. Dessa forma, a conduta deve ser individualizada:
Tratamento da causa de base
- Em doenças autoimunes, o controle imunológico adequado pode estabilizar ou reduzir a progressão das telangectasias
- Em HHT, o manejo foca na prevenção e tratamento de sangramentos, rastreamento de MAVs e abordagem interdisciplinar.
Tratamentos locais
- Laserterapia (como o laser de corante pulsado ou Nd:YAG) é eficaz para redução estética de telangectasias faciais ou em membros
- Escleroterapia pode ser indicada em telangectasias de membros inferiores, especialmente associadas a microvarizes
- Eletrocoagulação é alternativa em casos isolados.
No entanto, vale ressaltar que, em pacientes com telangectasias secundárias a doenças sistêmicas, a recorrência é comum se a patologia de base não for controlada.
Abordagem em HHT
- Epistaxes: podem requerer umidificação nasal, cauterização, laser intranasal ou, em casos graves, embolizações
- Sangramentos gastrointestinais: geralmente manejados com ferro oral/parenteral, e em casos refratários, uso de agentes antifibrinolíticos como ácido tranexâmico ou bevacizumabe
- Profilaxia de MAVs: rastreio precoce e, se necessário, tratamento endovascular.
Considerações sobre o prognóstico das telangectasias
Embora muitas telangectasias sejam apenas achados estéticos ou benignos, seu aparecimento pode representar uma oportunidade diagnóstica crucial. Em pacientes com HHT, o prognóstico depende do rastreamento e manejo precoce das MAVs. Já nas doenças autoimunes, a presença de telangectasias pode indicar maior comprometimento vascular e exigir ajustes terapêuticos.
Por fim, é fundamental que o médico mantenha um olhar atento e investigativo diante das telangectasias. Além de tratar o sinal visível, é necessário compreender e agir sobre as condições sistêmicas que elas podem representar.
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Referência bibliográfica
- SHOVLIN, Claire L. Clinical manifestations and diagnosis of hereditary hemorrhagic telangiectasia (Osler-Weber-Rendu syndrome). UpToDate. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-hereditary-hemorrhagic-telangiectasia-osler-weber-rendu-syndrome. Acesso em: jul. 2025.
