Você, certamente, ao procurar sobre essa técnica, já tem em mente que a TAPP – abordagem transabdominal pré-peritoneal – é uma correção endoscópica de hérnias. Como sabemos também, procedimentos endoscópicos ganham notoriedade em detrimento dos abertos, uma vez que, no primeiro, há um menor tempo de permanência hospitalar e retorno precoce ao trabalho. As correções de hérnias com tais técnicas são as mais realizadas em todo o mundo, chegando a mais de 20 milhões de operações a nível mundial.
Sendo assim, convém analisar as nuances envolvidas nessa técnica. Vamos?
Hérnias Abdominais
As hérnias, do latim ‘’ruptura’’, são protusões, parciais ou totais, de um ou mais órgãos por um orifício que se abre – seja por má formação ou por enfraquecimento das camadas de tecidos que protegem os órgãos internos do abdome. As abdominais são as mais frequentes, particularmente na região inguinal. Como fatores de risco, podemos destacar obesidade, sedentarismo e aumento da pressão intra-abdominal – como gravidez, existência de órgãos pélvicos cronicamente aumentados e tumores pélvicos.
Há uma divisão anatômica das hérnias, sendo que existem:
- Hérnias umbilicais: como o nome pressupõe, são protusões que aparecem em volta do umbigo, em função da passagem de alguma alça intestinal através do tecido muscular. Como característica, podemos citar que há uma prevalência maior em bebês e que tendem a se extinguir de modo espontâneo;
- Hérnias inguinais: na virilha. Em homens, tendem a estender-se até os testículos (causando a hérnia tipo inguinoescrotal). Aproximadamente 75% são desse tipo;
- Hérnias epigástricas: ocorrem na linha média do abdômen, devido ao afastamento dos músculos reto abdominais;
- Hérnias incisionais: ocorrem no local de alguma cirurgia prévia, devido ao enfraquecimento do local em que houve a incisão/sutura. Estima-se que as incisionais compreendem entre 15-20% das hérnias da parede abdominal.
Quanto aos seus sintomas, sabe-se que, quando a abertura do tecido muscular e a protusão aumentam, a dor se agrava, e atividades como tossir, evacuar ou agachar causarão dor considerável – o que nos mostra o caráter incapacitante da hérnia. Também é válido considerar que algumas hérnias podem se estrangular, acarretando o bloqueio da circulação sanguínea, consequentemente causando mais dor, náuseas, vômitos, necessitando, assim, de intervenção imediata.
Quanto a sua epidemiologia, estima-se que 5% da população desenvolverá esse tipo de hérnia, com prevalência ainda maior. A prevalência aumenta com a idade, assim como a probabilidade de estrangulamento e necessidade de hospitalização.
Quanto ao tratamento, infere-se que a cirurgia é o único tratamento permanente para essa condição. Em relação a essa questão, a abordaremos no tópico a seguir:
Intervenções cirúrgicas da hérnia abdominal
Em relação ao que foi dito anteriormente, você deve se recordar que as hérnias inguinais são o tipo mais comum. Diante disso, infere-se que seu reparo é um dos procedimentos mais comuns realizados pelos cirurgiões gerais, em caráter mundial.
Ao recortar o tema, focaremos aqui sobre o reparo laparoscópico. Há evidências de que essa modalidade apresenta vantagens significativas, como menos complicações – principalmente se forem casos recorrentes –, menor tempo de recuperação, menos dor pós-operatória e também apresenta taxas de recorrência menores em comparação às intervenções tradicionais.
Há dois procedimentos cirúrgicos utilizados nesses casos: a técnica transabdominal pré-peritoneal (TAPP) e a técnica laparoscópica totalmente extraperitoneal (TEP).
Utilizando como exemplo a hérnia inguinal, haja vista sua maior frequência, sabe-se que a TAPP é uma alternativa totalmente viável e segura na maioria dos adultos com tal quadro clínico. Em um período médio de apenas duas semanas após a cirurgia, a grande maioria dos pacientes se recupera totalmente.
As vantagens da TAPP incluem uma técnica mais simples, aprendizagem mais rápida, menor espaço de trabalho, melhor visão anatômica, fácil identificação do defeito e possibilita identificar patologias associadas a hérnias contralaterais. Como desvantagem, sabemos que a TAPP causa um menor espaço extra-peritoneal dissecado, com telas de dimensões menores, apresenta maior índice de lesões de vasos epigástricos superficiais e há uma violação da cavidade abdominal, com risco de aderências e obstrução intestinal. Lembrando a você que todas essas comparações são feitas em relação a outra técnica laparoscópica, a TEP.
Descrição breve da técnica TAPP utilizada em certo tratamento
O paciente é posicionado em decúbito dorsal, sob anestesia geral, com leve Trendelenburg. Confecciona-se pneumoperitônio com agulha de Veress ao nível do umbigo e se introduz três trocárteres (um de 10 mm ao nível da cicatriz umbilical e dois de 5 mm, um na linha hemiclavicular direita na altura do umbigo e outra no lado contralateral). O peritônio foi incisado logo acima da borda superior do anel inguinal profundo e mobilizado lateralmente até a espinha ilíaca anterossuperior, medialmente até o tubérculo púbico e inferiormente até o canal deferente.
Uma tela de polipropileno de 18×12 cm é então inserida através do trocarte de 10 mm, e fixada, em sua borda superior, no púbis, em direção à espinha ilíaca anterossuperior, com fio de poliéster 2-0. Uma vez fixada a tela, o peritônio era reposicionado sobre a mesma com fio poliéster 2-0, a fim de reperitonizar o local.
Vale lembrar a você que esta técnica apresenta menor ocorrência de edema, uso de medicamento analgésico, dor pós-operatória e crônica, sendo considerado como método apropriado para tratamento de hérnias.
Por fim, aconselho que você assista ao vídeo completo de uma cirurgia de hérnia inguinal por laparoscopia (TAPP) para possuir conhecimento mais lúcido quanto à técnica pesquisada. O link está nas referências.
Referências
‘’Estudo Comparativo da Dor Pós-Operatória Entre As Técnicas Cirúrgicas Lichtenstein e Laparoscópica no Tratamento da Hérnia Inguinal Unilateral Não Recidivada’’ em: https://www.scielo.br/pdf/abcd/v30n3/pt_0102-6720-abcd-30-03-00173.pdf
‘’Perfil Epidemiológico dos Pacientes Submetidos à Herniorrafia no Hospital Universitário de Maringá’’ em: http://www.cesumar.br/prppge/pesquisa/epcc2015/anais/tiago_tolentino_ronqui_1.pdf
‘’Hérnia Abdominal’’ em: http://bvsms.saude.gov.br/dicas-em-saude/3183-hernia#:~:text=H%C3%A9rnia%20abdominal%20%C3%A9%20o%20escape,dos%20%C3%B3rg%C3%A3os%20internos%20do%20abd%C3%B4men.
‘’Sistematização do Reparo da Hérnia Inguinal Laparoscópica (TAPP) Baseada em Um Novo Conceito Anatômico: Y Invertido e Cinco Triângulos’’ em: https://www.scielo.br/pdf/abcd/v32n1/pt_0102-6720-abcd-32-01-e1426.pdf
‘’Cirurgias das Hérnias, Técnicas Videoendoscópicas’’ em: https://cbcsp.org.br/wp-content/uploads/2016/aulas/Herniorrafia.pdf
‘’VÍDEO: Cirurgia de Hérnia Inguinal por Laparoscopia-TAPP- Completa, FullHD +GoPro’’ em: https://www.youtube.com/watch?v=b2hAcpQe64k
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