Suicídio é definido como uma morte intencional autoinfligida, isto é, quando a pessoa está sentindo uma dor intensa ou uma tristeza profunda, ela decide pelo autoextermínio.
O suicídio também pode ser considerado um ato deliberado, feito de forma consciente e intencional, mas via de regra o paciente decide por isso na tentativa de amenizar um sofrimento muito grande.
Segundo uma pesquisa publicada pelo Ministério da Saúde em 2017, estima-se que mais de 800 mil pessoas tiram a própria vida todo ano. Isso mostra o quão importante é falar sobre suicídio e pensar em formas de prevenção e abordagem.
Através da campanha Setembro Amarelo, criada em 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria em conjunto com o Conselho Federal de Medicina, este mês se tornou referência na prevenção do suicídio.
São registrados cerca de 12 mil suicídios por ano em todo Brasil, sendo que 96% dos casos estão relacionados com algum transtorno mental pregresso.

Sabe-se
que, atualmente, a Atenção Primária à Saúde consiste na porta de entrada para o
Sistema Único de Saúde, através da Estratégia de Saúde da Família. Então, é
razoável pensar que este serviço recebe muitos pacientes que possam estar com
ideação suicida ou algum sinal de alarme para cometer um suicídio, então a
equipe precisa estar muito bem treinada para saber reconhecer os sinais, fazer
um diagnóstico precoce e estabelecer uma abordagem ampla ao paciente, de modo a
intervir rápido e evitar um possível suicídio.

Suicídio: o ápice do sofrimento
É
fato que todos os animais, incluindo o ser humano, têm intrínseco em si mesmos
um instinto de sobrevivência e foi isso que os auxiliou para que permanecessem
vivos, se adaptassem aos ambientes e garantissem a perpetuação de sua espécie
na natureza.
Então,
um dos sentimentos mais primordiais e inatos do ser vivo é sempre garantir a
continuidade de sua vida. Dessa forma, pensando na lógica do suicídio, que por
si só é complexa e envolve diversos fatores mentais e psicológicos, o indivíduo
idealiza o desejo de acabar com sua própria vida. Isso mostra que certamente
todos os limites de seu estado emocional foram ultrapassados, tanto que ele
deixa de ter o instinto inato de sobrevivência e passa a ter o sentimento de
autoextermínio.

Mas
é evidente que ninguém chega a esse nível em um único momento. A pessoa vai
mostrando sinais de sua pretensão, normalmente tem uma patologia mental
associada, dá indícios de sua ideação suicida, porém muitas vezes isso é pouco
notado pelo círculo social que cerca o indivíduo e a ajuda necessária para ele
acaba sendo desprezada.
Fatores de risco para o suicídio
Existem
fatores de risco que podem predispor à tentativa de suicídio, por isso é
preciso ter atenção, sobretudo os serviços de saúde. História prévia de
tentativa de suicídio é o fator de risco mais importante, bem como transtornos
psiquiátricos, sendo os mais frequentemente associados: depressão, transtorno
bipolar, transtornos de personalidade, esquizofrenia e abuso de substâncias
químicas. História de abuso físico ou sexual podem também ser fatores de risco,
visto o trauma que pode causar e o abalo psicológico. Além disso, histórico de
impulsividade e desesperança também podem predispor ao suicídio.
Idade
(mais comum em adolescentes e idosos), orientação sexual (LGBTQI+) e presença
de outras comorbidades de saúde também são fatores que precisamos avaliar no
indivíduo, porque podem influenciar a um possível suicídio. Ficar atento a isso
já ajuda a ter um olhar mais cuidadoso sobre aquele paciente que pode vir a
cometer o ato.
Indícios preocupantes
Não
existe um manual específico com todas as causas e fatores de risco para o
suicídio, mas existem indícios que, combinados com os fatores de risco, podem
indicar um potencial para o ato.
O
suicídio, quando planejado, não fica silencioso, o paciente dá sinais de suas
intenções. Além disso, se houve uma tentativa em algum momento, a probabilidade
de ocorrerem outras é real. Por isso, mesmo que pareça que não está ocorrendo
nada com o indivíduo, é bom ficar atento a alguns indícios que possam ficar
aparentes.
Normalmente,
os pacientes queixam-se da dor de continuar vivendo, se sentem fracassados por
não terem conseguido ainda tirar a própria vida, tendem a chorar frequentemente
e estar com ânimos baixos. Além disso, alterações de humor são presentes. Às
vezes, o indivíduo parece estar feliz em alguns momentos do dia, mas depois
isso se altera e fica irritado e descontente; pode sentir-se triste por crer
que é um fardo para os outros, mas ao mesmo tempo sentir raiva.

Indícios
verbais também podem acender sinais de alerta, como: “nada mais importa”, “não
vou dar trabalho por muito tempo”, “era melhor eu estar morto”, “não estarei
aqui em breve”. Geralmente, essas frases não vêm isoladas, estão acompanhadas
de profunda tristeza, ausência de autocuidado, baixa autoestima e alterações
constantes do humor.
Abordagem do suicídio na porta de entrada para
o SUS
Visando
auxiliar os pacientes que chegam na Atenção Primária à Saúde com histórico
prévio de tentativa de suicídio ou com ideação suicida, foram elaborados 5
passos essenciais para ajudar o indivíduo a tirar o foco do pensamento de
suicídio, ser atendido integralmente e se sentir acolhido.
Isso
se torna mais importante nesse cenário de pandemia e isolamento social que
estamos vivenciando no ano de 2020, em que os transtornos de humor aumentaram
muito, bem como os índices de estresse, depressão, ansiedade, e tudo predispõe a
uma maior taxa de suicídio. Ter empatia, não julgar o paciente, nem banalizar a
sua dor são ferramentas essenciais nesse momento.
PASSO
1: Ouvir o paciente e entender suas motivações
A
conversa se torna fundamental; é necessário que o profissional dê espaço para
que o paciente se abra e diga o que está sentindo e o porquê do pensamento de
suicídio. O profissional não deve julgar o paciente em nenhum momento, mas sim
escutá-lo e buscar entendê-lo.
PASSO
2: Escuta clínica e bom julgamento clínico
É
importante escutar o paciente mantendo o olhar clínico, procurando compreender
clinicamente os fatores associados à ideação suicida que o paciente está
evidenciando, observando ainda sua condição psicológica e mental. Isso é
importante visto o risco potencial que ele pode apresentar de fatalmente
cometer o suicídio.
Perguntas
direcionadas podem ser feitas, como:
“Você tem planos para o futuro?” – A
resposta do paciente com risco de suicídio normalmente é não.
“A vida vale a pena ser vivida para você?” – A
resposta do paciente com risco de suicídio novamente é não.
“Se a morte viesse, ela seria
bem-vinda?” – Espera-se que a resposta será sim para aqueles que querem morrer.
Precisamos ficar atentos a esses
pacientes.
PASSO
3: Manejo rápido da questão da ideação suicida
É
preciso, então, interferir diretamente nesse desejo de suicídio; normalmente o
profissional pode entrar com alguma medicação, o importante é que o paciente
não pode sair daquela consulta sem um plano específico de intervenção para
aquela condição.
Caso
o paciente já tenha tentado, dependendo das circunstâncias em que ocorreu, deve
ser referenciado para internação em um hospital geral ou psiquiátrico, onde
receberá uma atenção mais assistida.
PASSO
4: Verificar se existem transtornos psiquiátricos associados
Como
se sabe, mais de 90% dos casos de tentativa de suicídio estão relacionados com
a existência de algum transtorno mental prévio. Agora que a ideação suicida ou
a tentativa de autoextermínio, que é o quadro de urgência, foi abordado, é
preciso observar clinicamente se há algum transtorno psiquiátrico associado predispondo
ao ato.
É
possível indicar o paciente para atendimento no NASF (Núcleo de Apoio à Saúde
da Família) ou para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), onde o paciente
poderá ser assistido por um psiquiatra e por um psicólogo, dando uma atenção
integral e especializada ao seu quadro mental, afinal, intervir e acompanhar a
doença de base ajuda a prevenir um possível suicídio em decorrência do
transtorno.
PASSO
5: Investigar se ainda há risco de suicídio e acompanhar o paciente
É
um mito pensar que o paciente que tentou suicídio e foi abordado, estando fora
da crise, não irá ter mais ideação suicida; pelo contrário, ele pode recidivar.
Por isso, este é um paciente que é necessário acompanhar pelo resto da vida.
Torna-se
preciso fazer a busca ativa do paciente, procurar saber como está evoluindo, se
voltou a ter os pensamentos, se está aderindo ao tratamento da forma adequada, visando
mensurar o real risco de ele voltar a ter o pensamento de autoextermínio e
intervir sempre que necessário. Os passos descritos ajudam muito no manejo
integral do paciente que utiliza o serviço público de saúde, por isso, a equipe
multidisciplinar que as Unidades Básicas de Saúde contam é essencial para
auxiliar nessa situação.

Outras indicações preventivas: um plano de
segurança
Seguindo
os 5 passos descritos, é possível intervir na ideação suicida do paciente e
auxiliar a evitar que o ato ocorra. Mas, além disso, existem outras indicações
preventivas que podem ser passadas pelos profissionais na Atenção Primária para
ajudar o indivíduo que tenha ideação ou passou por alguma tentativa de
suicídio.
Fazer
um plano de segurança para a pessoa é uma alternativa, ou seja, instruir ações
que o paciente pode ter por conta
própria quando estiver se sentindo mal, como escutar uma música animada, ver um
filme de comédia, escrever um desabafo em algum diário ou até mesmo fazer
exercícios físicos. O plano deve conter ainda os nomes de pessoas como
familiares, amigos, que possam auxiliar o indivíduo nesse momento crítico.
Dessa forma, sempre que ele se sentir triste ou ter pensamentos de
autoextermínio, saberá com quem contar e a quem recorrer para pedir ajuda.
O
plano também deve conter a descrição de como a pessoa tentou se matar ou de
como ela pensa em se matar e quais as formas de reduzir o acesso às armas
potenciais para concretizar o ato. Porém, é preciso conscientizar o paciente de
que esse esquema de segurança é justamente para ajudá-lo a preservar sua
própria vida.

Buscar
redes de apoio, tanto para o indivíduo que tentou cometer suicídio, ou para o
que o está idealizando, quanto para a família e pessoas que o cercam, é
fundamental. O apoio psicológico nesse momento é preciso, não somente para o
paciente, mas também para as pessoas que vão estar junto com ele lidando com
isso, afinal também é difícil para elas.
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Cabe
ressaltar que o CVV pode ser um importante aliado nesse contexto, não só a ser
indicado para o paciente, mas também para pessoas que queiram prevenir suicídio
de terceiros. Por isso, pode ser indicado também pela equipe de Atenção
Primária à Saúde ao paciente, à família e aos amigos que estão ao redor.
Os
atendentes do CVV podem ajudar muito, indicando medidas diretas para o paciente
e o encaminhando para profissionais especializados. Funcionam tanto por
telefone, através do 188, quanto pelo site Centro de Valorização da Vida.

Conclusão
O
suicídio é o ato mais extremo que um indivíduo pode cometer contra si mesmo, em
decorrência de uma tristeza profunda ou de algum transtorno psiquiátrico sem
tratamento adequado e são vários os fatores implicados. É necessário, então, um esforço conjunto, pois
abordar um paciente em risco de suicídio não é uma tarefa fácil, indo muito
além de ações ambulatoriais ou emergenciais.
Existe
um longo processo para que o indivíduo entenda que não está sozinho e que a
vida dele é importante. Por isso, é preciso que vários setores da sociedade se
engajem em medidas preventivas. O setor de saúde é essencial, mas a família, a
política, as escolas, as universidades e outros setores sociais precisam estar
presentes nesse contexto.
Além disso, a Atenção Primária à Saúde se torna muito importante nessa estratégia de prevenção e de abordagem de pacientes que tentaram suicídio ou o estejam idealizando.
Os 5 passos descritos são fundamentais de serem aplicados e estabelecem uma lógica de abordagem que materializa o importante princípio do Sistema Único de Saúde, que é a integralidade.
Conseguimos atender o paciente de forma integral, buscando não somente amenizar o momento crítico de ideação e tentativa de suicídio, mas também verificar as condições clínicas do paciente como um todo, avaliando a questão mental, física, além de acompanhar ele durante todo o processo e até depois.
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Autoria: Gabriella Mares