O status funcional é entendido como a habilidade de administrar a própria vida e cuidar de si, sendo influenciado, dessa forma, pelo nível de autonomia e independência do indivíduo.
Seus critérios incluem o desempenho integrado e harmonioso das atividades diárias, como cognição, humor, mobilidade e comunicação, o que possibilita avaliar as condições do paciente para o enfrentamento das doenças.
Portanto, a análise desses parâmetros permite determinar as condições do paciente, auxiliando na elaboração do plano de cuidados e no acompanhamento ao longo do tempo.
Além disso, a perda de funcionalidade pode estar relacionada à redução da qualidade de vida, tornando essa avaliação crucial no processo de enfrentamento do câncer.
Avaliação do status funcional em pacientes oncológicos
O declínio funcional é uma situação frequente entre pacientes com câncer. Dessa forma, a avaliação do estado funcional dos pacientes auxilia a equipe de saúde a oferecer tratamentos personalizados, criar programas de reabilitação e planejar os cuidados futuros, promovendo, portanto, uma melhor qualidade de vida para pacientes oncológicos.
Além disso, a avaliação do status funcional pode ser útil na definição do prognóstico clínico e funcional após o tratamento oncológico.
Status funcional e tratamento antineoplásico
O status funcional corresponde a um dos critérios fundamentais para a indicação de tratamentos antineoplásicos.
Por exemplo, com base no status funcional, é possível antecipar o impacto negativo que um determinado tratamento pode causar ao paciente, levando em conta os possíveis efeitos adversos, e também prever como o tratamento pode influenciar sua sobrevida.
Portanto, pacientes com um status funcional comprometido não são candidatos à realização de quimioterapia, pois apresentam maior vulnerabilidade a efeitos colaterais e complicações relacionadas ao tratamento, além de obterem menos benefícios dessa abordagem. Da mesma forma, não recomenda-se radioterapia e cirurgia para pacientes com status funcional comprometido.
Escalas para avaliação do status funcional
Existem diversas ferramentas e escalas utilizadas para avaliar pacientes em cuidados paliativos oncológicos. Algumas dessas ferramentas possuem valor prognóstico e ajudam na tomada de decisões, tanto para a equipe médica quanto para os pacientes e seus familiares, especialmente quando estes desejam conhecer o prognóstico.
Neste texto, serão discutidas as principais escalas utilizadas na prática clínica, com foco nas escalas Eastern cooperative oncology group (ECOG) e Karnofsky Performance Status (KPS).
Karnofsky Performance Status (KPS)
O Karnofsky Performance Status (KPS) foi criado em 1949 por Karnofsky e Burchenal e continua sendo amplamente utilizado na prática clínica.
Trata-se de uma escala que avalia a funcionalidade do paciente em termos percentuais, classificando-o de acordo com sua capacidade de realização de atividades diárias e autocuidado, bem como a necessidade de cuidados médicos ocasionais devido ao agravamento da doença.
O Karnofsky Performance Status é composto por 11 categorias, sendo cada uma pontuada em intervalos de 10%. Dessa forma, uma pontuação mais baixa reflete uma pior funcionalidade. Por exemplo, 100% corresponde a função total e 0% corresponde à morte.
Essa ferramenta está intimamente ligada ao prognóstico oncológico. Desse modo, quanto mais comprometida a funcionalidade, maior a probabilidade de toxicidade devido ao tratamento e menor chance de sobrevivência.
Portanto, em pacientes com câncer avançado que recebem cuidados paliativos exclusivos, um KPS abaixo de 50% associa-se a uma expectativa de vida inferior a oito semanas.
- 100% – Sem queixas: ausência de sinais da doença.
- 90% – Capaz de viver normalmente, mas apresenta sinais ou sintomas leves de doença.
- 80% – Apresenta alguns sinais ou sintomas da doença com o esforço.
- 70% – Consegue cuidar de si mesmo, mas pode não realizar suas atividades regulares ou de trabalho.
- 60% – Necessita de assistência ocasional, mas ainda pode realizar a maioria de suas atividades.
- 50% – Necessidade de assistência substancial e cuidados médicos frequentes.
- 40% – Incapaz de cuidar de si, requer cuidados especiais e ajuda constante.
- 30% – Muito incapaz, com hospitalização indicada, embora a morte não seja iminente.
- 20% – Extremamente debilitado, com necessidade de hospitalização e tratamento de suporte ativo.
- 10% – Moribundo, com progressão rápida dos processos letais.
- 0% – Morte.

Eastern cooperative oncology group (ECOG)
A escala Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG), por sua vez, avalia o impacto da doença nas atividades diárias do paciente, com pontuações que variam de zero a cinco pontos. A pontuação cinco indica morte, enquanto a pontuação zero significa que o paciente está totalmente ativo.
- 0 – Atividade habitual sem restrições.
- 1 – Apresenta sintomas da doença, mas consegue se mover e realizar suas atividades cotidianas.
- 2 – Fora do leito mais de 50% do tempo.
- 3 – No leito mais de 50% do tempo, necessitando de cuidados mais intensivos.
- 4 – Restrito ao leito, com grande dependência.
- 5 – Óbito.

Equivalência entre as escalas KPS e ECOG
Ao relacionar as escalas Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG) e Karnofsky Performance Status (KPS), observa-se uma equivalência:
- ECOG 0 equivale a KPS entre 90 e 100%.
- ECOG 1 equivale a KPS entre 70 e 80%.
- ECOG 2 equivale a KPS entre 50 e 60%.
- ECOG 3 equivale a KPS entre 30 e 40%.
- ECOG 4 equivale a KPS entre 10 e 20%.
- ECOG 5 equivale a KPS 0.
Outras escalas
Além das escalas Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG) e Karnofsky Performance Status (KPS), outras escalas e ferramentas podem ser utilizadas para avaliação de pacientes em cuidados paliativos. Nos próximos blocos, revisaremos as principais.
Palliative Prognostic Score (PAP-Score)
O Palliative Prognostic Score (PAP-Score) é uma ferramenta desenvolvida por Maltoni et al. e validada em estudos prospectivos, que permite classificar pacientes com câncer avançado com base na probabilidade de sobrevivência nos próximos 30 dias.
A avaliação é calculada a partir de diversos fatores, com uma escala que varia de zero a 17,5. Com base nos valores obtidos, os pacientes são agrupados em três categorias de risco, de acordo com a probabilidade de sobrevivência em 30 dias:
- A – maior que 70%;
- B – entre 70% e 30%;
- C – menor que 30%.

Edmonton Symptom Assessment System (Esas)
A escala Edmonton Symptom Assessment System (ESAS), desenvolvida por Bruera et al. e validada no Brasil por Paiva et al., é utilizada para medir a intensidade dos sintomas.
Trata-se de uma escala numérica em que o paciente avalia cada sintoma de zero a dez, onde zero indica a ausência do sintoma e dez representa a maior intensidade possível. Portanto, um score de um a três é considerado leve, de quatro a sete é moderado e acima de sete é intenso.
Ademais, os sintomas avaliados incluem dor, fadiga, náuseas, depressão, ansiedade, angústia, perda de apetite, sensação de bem-estar, dispneia e destruição.
Escore Prognóstico de Glasgow modificado (EPGm)
O Escore Prognóstico de Glasgow modificado (EPGm), por sua vez, é uma escala simples e objetiva, que baseia-se nas concentrações séricas de proteína C reativa (PCR) e albumina.
Pode ser utilizado tanto para avaliação prognóstica quanto para avaliar o estado nutricional de pacientes com câncer avançado em cuidados paliativos.


Richmond Agitation Sedation Scale – Palliative Version
A Richmond Agitation Sedation Scale – Palliative Version é uma ferramenta utilizada para avaliar os níveis de sedação em pacientes em cuidados paliativos com rebaixamento do nível de consciência. Recomenda-se manter o paciente entre os níveis -1 e -3, sendo o nível -4 aceitável, dependendo do quadro.
Escalas de dor
Há vários instrumentos disponíveis para medir a dor, sendo os mais comuns os unidimensionais, que avaliam a experiência dolorosa em uma única dimensão, como a intensidade. Os principais exemplos incluem a escala verbal e as escalas analógica visual, numérica visual e de faces.
Escala verbal
Na escala verbal, o paciente descreve a experiência dolorosa utilizando frases que indicam diferentes intensidades subjetivas de dor, como “nenhuma dor”, “dor leve”, “dor moderada”, “dor forte”, “dor insuportável” e “a pior dor possível”.
No entanto, alguns pacientes podem ter dificuldade em utilizar essas categorias devido à falta de habilidades cognitivas ou dificuldades introspectivas para compreender as palavras.
Escalas analógica visual, numérica visual e de faces
A Escala Analógica Visual geralmente é composta por uma linha reta de 10 cm, que representa um contínuo de dor, com as extremidades marcadas como “ausência de dor” e “dor máxima”. O paciente é solicitado a marcar na linha o ponto que corresponde à intensidade da dor que está sentindo.
A Escala Numérica Visual, por sua vez, se diferencia por incluir a marcação de cada centímetro na linha, onde o aumento da medida indica maior intensidade da dor.
Por fim, a Escala de Faces apresenta uma série de rostos que refletem diferentes níveis de sofrimento, e o paciente escolhe o que melhor representa a sua dor.

Palliative Performance Scale (PPS)
A Palliative Performance Scale (PPS) é uma ferramenta amplamente utilizada para avaliar o desempenho funcional e prever o prognóstico de sobrevida de pacientes com câncer em cuidados paliativos.
Trata-se de uma versão adaptada da Escala de Desempenho de Karnofsky e avalia cinco áreas funcionais: mobilidade, nível de atividade e extensão da doença, capacidade de autocuidado, ingestão oral e nível de consciência. Esses parâmetros são classificados em 11 níveis, variando de 0 a 100%, com intervalos de 10%. O valor de 0% indica morte, enquanto 100% representa ausência de doença e atividades normais.

Sugestão de leitura recomendada
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O câncer desafia a qualidade de vida dos pacientes. Dessa forma, a avaliação do estado funcional é fundamental para um tratamento eficaz e uma abordagem integral.
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Referências
- INCA. A avaliação do paciente em cuidados paliativos. Rio de Janeiro, 2022.
- MINISTÉRIO DA SAÚDE. Capacidade funcional e tratamento antineoplásico. Informe SUS-Onco, 2021. Disponível em: https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document/informe-sus-onco-setembro_2021_0.pdf. Acesso em: 08 dez 2024.
- PEREIRA, E. E. B.; SANTOS, N. B.; SARGES, E. S. N. F. Avaliação da capacidade funcional do paciente oncogeriátrico hospitalizado. Rev Pan-Amaz Saude v.5 n.4 Ananindeua dez. 2014.
- SANTOS, L. L. et al. Correlação entre Capacidade Funcional e Qualidade de Vida em Pacientes Oncológicos em Cuidados Paliativos. Revista Brasileira de Cancerologia, 2023.
- Revisão da teoria e da prática médica 2 [recurso eletrônico] / Organizadores Regiany Paula Gonçalves de Oliveira, Reginaldo Gonçalves de Oliveira Filho. – Ponta Grossa (PR): Atena Editora, 2019.
