A Síndrome Metabólica (SM) é uma condição multifatorial que caracteriza-se pela presença simultânea de diversos fatores de risco cardiovascular, geralmente associados ao acúmulo de gordura na região abdominal e à resistência à insulina.
Vale ressaltar que essa síndrome está fortemente ligada ao aumento da incidência de doenças cardiovasculares, elevando a mortalidade geral em aproximadamente 1,5 vezes e a mortalidade cardiovascular em cerca de 2,5 vezes.
Definições de Síndrome Metabólica
A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o National Cholesterol Education Program’s Adult Treatment Panel III (NCEP-ATP III) propuseram definições para a síndrome metabólica.
A proposta da OMS tem como foco inicial a identificação da resistência à insulina ou de alterações no metabolismo da glicose, o que pode limitar sua aplicabilidade prática.
Em contrapartida, a definição do NCEP-ATP III foi elaborada com foco na prática clínica, dispensando a confirmação de resistência à insulina, o que torna sua aplicação mais acessível.
Critérios diagnósticos da Síndrome Metabólica
De acordo com a definição do NCEP-ATP III, a síndrome metabólica é diagnosticada pela presença de, no mínimo, três dos fatores listados no quadro abaixo.

Investigação clínica e laboratorial da Síndrome Metabólica
A investigação clínica e laboratorial tem como principais objetivos confirmar o diagnóstico da síndrome metabólica, conforme os critérios estabelecidos pelo NCEP-ATP III, e identificar os fatores de risco cardiovascular associados.
Para isso, realiza-se os seguintes procedimentos:
- História clínica, que inclui coleta de informações como idade, tabagismo, prática de atividade física e histórico pessoal de condições como hipertensão, diabetes, diabetes gestacional, doença arterial coronariana, acidente vascular cerebral, síndrome dos ovários policísticos (SOP), esteatose hepática não alcoólica.
- Exame físico, que abrange a medida da circunferência abdominal e da pressão arterial. Além disso, o exame físico deve incluir peso e altura para cálculo do índice de massa corporal, avaliação dermatológica em busca de acantose nigricans e exame cardiovascular.
- Exames laboratoriais, incluindo glicemia de jejum, HDL-colesterol e triglicerídeos.
Ademais, solicita-se outros exames complementares para uma avaliação mais ampla do risco cardiovascular, como colesterol total, LDL-colesterol, creatinina, ácido úrico, microalbuminúria, proteína C reativa, TOTG (glicemia de jejum e duas horas após a ingestão de 75g de dextrosol) e eletrocardiograma.
Impacto sistêmico da síndrome metabólica
Além dos critérios diagnósticos tradicionais — como obesidade abdominal, hipertensão, hiperglicemia e dislipidemia —, a Síndrome Metabólica está frequentemente associada a uma série de alterações sistêmicas com importantes repercussões clínicas.
Entre as manifestações comumente ligadas à SM, destaca-se a síndrome dos ovários policísticos (SOP), que compartilha mecanismos como resistência à insulina e desequilíbrios hormonais.
A esteatose hepática não alcoólica é outra condição prevalente em indivíduos com SM, podendo evoluir para esteato-hepatite e até cirrose. Além disso, a presença de microalbuminúria indica lesão renal precoce e aumento do risco cardiovascular.
A SM também associa-se a um estado pró-trombótico, com maior tendência à formação de coágulos, o que contribui para eventos como infarto e AVC. Ademais, a condição favorece processos inflamatórios crônicos de baixo grau e disfunção endotelial, comprometendo a função dos vasos sanguíneos e promovendo a aterosclerose.
Portanto, a SM vai muito além de um conjunto de fatores de risco. Ela representa um estado de desregulação sistêmica que exige abordagem global, tanto na prevenção quanto no tratamento.
Estratégias de manejo da Síndrome Metabólica
A prática regular de atividade física e a redução do peso corporal são as estratégias mais eficazes no tratamento da Síndrome Metabólica. Entretanto, em alguns casos, utiliza-se medicamentos para controlar os fatores de risco associados a essa condição.
Tratamento não medicamentoso
A principal abordagem no tratamento da síndrome metabólica envolve mudanças no estilo de vida, com destaque para a combinação entre plano alimentar saudável e prática regular de atividade física, considerados tratamentos de primeira escolha.
Essa associação contribui para a redução da circunferência abdominal e da gordura visceral, melhora a sensibilidade à insulina, reduz os níveis de glicose, triglicerídeos e pressão arterial, além de elevar o HDL-colesterol, podendo prevenir ou retardar o desenvolvimento do diabetes tipo 2.
O plano alimentar deve ser individualizado e visa uma perda de peso sustentada entre 5% e 10% do peso corporal inicial, com dieta hipocalórica baseada nas necessidades energéticas do paciente. Para isso, deve-se priorizar alimentos naturais, como frutas, verduras, grãos integrais e leguminosas, com atenção à ingestão equilibrada de carboidratos, gorduras e proteínas. O modelo DASH e a dieta mediterrânea são boas referências alimentares. Além disso, a ingestão de fibras também é fundamental, devendo atingir de 20g a 30g ao dia.
Já o exercício físico deve ser realizado pelo menos cinco vezes por semana, com atividades aeróbicas de intensidade moderada, como caminhada ou ciclismo, com duração de 30 a 60 minutos. Além disso, também recomenda-se os exercícios resistidos, respeitando os limites de cada indivíduo.
Ademais, é importante controlar fatores como o estresse, o tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas.
Tratamento medicamentoso
Recomenda-se o tratamento medicamentoso para a Síndrome Metabólica sempre que as mudanças no estilo de vida não forem suficientes para alcançar os resultados desejados.
Tratamento da Hipertensão Arterial
O principal objetivo do tratamento da hipertensão arterial é reduzir a pressão arterial, com o intuito de diminuir a morbimortalidade cardiovascular e renal.
Portanto, utiliza-se qualquer uma das cinco principais classes de medicamentos anti-hipertensivos (diuréticos, betabloqueadores, antagonistas de cálcio, inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) e bloqueadores dos receptores de angiotensina II (BRA)) como tratamento inicial para hipertensão.
Nos pacientes com Síndrome Metabólica, a meta de pressão arterial abaixo de 130/85 mmHg pode ser vantajosa, devido ao alto risco cardiovascular associado à condição. Para pacientes com diabetes tipo 2, por sua vez, recomenda-se reduzir a pressão arterial para níveis abaixo de 130/80 mmHg.
Tratamento do diabetes tipo 2
O diabetes tipo 2 resulta de dois defeitos principais: resistência insulínica e deficiência insulínica. Nas fases iniciais, a resistência insulínica predomina, sendo indicada a utilização de medicamentos sensibilizadores da insulina, como a metformina e as glitazonas. Acarbose também pode ser usada.
Com a progressão da doença, a deficiência insulínica torna-se mais pronunciada, e nesse estágio, sulfonilureias podem ser associadas aos sensibilizadores de insulina. Quando a deficiência de insulina se agrava, é necessário adicionar insulina aos medicamentos orais, podendo levar à insulinização completa.
As metas terapêuticas para o diabetes tipo 2 incluem glicose de jejum abaixo de 110 mg/dL, glicose pós-prandial inferior a 140 mg/dL e hemoglobina glicada dentro dos limites estabelecidos.
Tratamento da dislipidemia
As alterações no metabolismo lipídico estão frequentemente associadas à aterogênese, aterosclerose e à elevada morbimortalidade cardiovascular.
Embora os níveis de LDL-colesterol não sejam um critério diagnóstico para a síndrome metabólica, estudos clínicos controlados indicam a importância de reduzir o LDL-colesterol como meta primária no tratamento, ao lado da correção dos níveis de HDL-colesterol e triglicérides.
As estatinas são o tratamento de primeira linha para reduzir o LDL-colesterol em adultos. Os fibratos também são eficazes na redução de eventos cardiovasculares, especialmente em indivíduos com HDL-colesterol abaixo de 40 mg/dL, um perfil comum na síndrome metabólica. Eles são indicados para tratar a hipertrigliceridemia quando a dieta e exercícios não são suficientes.
Além disso, utiliza-se ácidos graxos ômega-3 como terapia adjuvante para hipertrigliceridemia ou como substitutos dos fibratos em casos de intolerância. Ademais, a ezetimiba, quando associada às estatinas, proporciona uma redução significativa do LDL-colesterol e pode ser útil para atingir as metas lipídicas.
Tratamento da obesidade
Quando as medidas não medicamentosas não resultam em uma perda de pelo menos 1% do peso corporal por mês após um a três meses, deve-se considerar o uso de medicamentos adjuvantes, especialmente em indivíduos com IMC ≥30 kg/m² ou com IMC entre 25 kg/m² e 30 kg/m² e comorbidades associadas.
As medicações aprovadas para o tratamento da obesidade no Brasil incluem Sibutramina, Orlistat, Liraglutida, Semaglutida, Tirzepatida e Naltrexona/Bupropiona.
A cirurgia bariátrica, por sua vez, é uma opção para pacientes com IMC >35 kg/m² que não respondem ao tratamento conservador por pelo menos dois anos e pode envolver procedimentos restritivos, disabsortivos ou mistos. É considerada a abordagem mais eficaz e duradoura para perda de peso, com uma redução de 20% a 70% do excesso de peso, além de melhorias significativas nos componentes da síndrome metabólica.
Prevenção da Síndrome Metabólica
A genética, aliada a hábitos alimentares inadequados e à ausência de atividade física regular, são os principais contribuintes para o surgimento da Síndrome Metabólica. Por isso, estimular hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de exercícios, é essencial na prevenção dessa condição.
Sugestão de leitura recomendada
- Diabetes mellitus: fisiopatologia, manifestações clínicas, diagnóstico e mais!
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Referências
- Sociedade Brasileira de Cardiologia. I Diretriz Brasileira de Diagnóstico e Tratamento da Síndrome Metabólica. Arquivos Brasileiros de Cardiologia – Volume 84, Suplemento I, Abril 2005.
- Tratamento farmacológico do indivíduo adulto com obesidade e seu impacto nas comorbidades: atualização 2024 e posicionamento de especialistas da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso) e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). — São Paulo : Editora Clannad, 2024.
- DOBROWOLSKI, P. et al. Síndrome metabólica – uma nova definição e diretrizes de gestão. Arch Med Sci. 30 de agosto de 2022.