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Síndrome do membro fantasma: como funciona, quadro clínico, tratamento e mais

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Saiba tudo sobre a síndrome do membro fantasma!

Grande parte das pessoas que perderam um membro ainda pode senti-lo, não associado a uma memória, mas em detalhes completos de vida. Esses indivíduos podem flexionar as áreas perdidas ou até mesmo sentir a irritação de uma pulseira no braço que perdeu, o que sugere a existência de uma espécie de mapa do organismo bem distribuído em nosso cérebro. 

A síndrome do membro fantasma possui caráter neurofisiológico. Portanto, a parte amputada desmembra-se do corpo, mas não do cérebro, o que provoca os sintomas associados à dor denominada fantasma. 

Durante longo tempo sustentava-se a crença de que as sensações provenientes de segmentos ausentes do corpo tinham origem psicológica, o que mudou a partir do século XXI, momento no qual substituiu-se esta crença pela “teoria fisiológica”. Essa mudança ocorreu devido a avanços nas pesquisas cientificas que relacionaram a síndrome do membro fantasma às áreas do córtex pós-central, determinando mapas somatossensoriais. Em resumo, a síndrome do membro fantasma é uma consequência de fatores psíquicos e fisiológicos, sendo bem explicada de modo amplo pela “teoria fisiológica”.  

Essa síndrome afeta a qualidade de vida pessoal e implica diretamente nas ações e atividades diárias, podendo causar baixa autoestima, alterações funcionais e emocionais. Além disso, podem surgir também sentimento de tristeza, luto, culpa e não aceitação, assim como medo de que a imagem corporal seja afetada.

Como funciona a dor associada ao membro fantasma? 

Para entender melhor os mecanismos da dor fantasma, é necessário considerar todo o caminho dos impulsos nervosos que vão do membro até ao cérebro.

Os membros do corpo são repletos de neurônios sensoriais responsáveis por diversas sensações, desde as texturas que sentimos com as pontas dos dedos até a compreensão de onde o corpo se encontra no espaço. Os caminhos neuronais são designados para carregar essa entrada sensorial através da medula espinal até o cérebro.

Entretanto, tendo em vista que grande parte desse caminho vai muito além da região do membro, a maior parte permanece após uma amputação acidental ou intencional. Além disso, a perda de um membro altera o modo como aquelas informações, antes presentes naquela região, são transferidas até o córtex cerebral.

Por exemplo, no local de uma amputação, as terminações nervosas que romperam-se podem “engrossar” e tornar-se mais sensíveis, transmitindo sinais de perigo mesmo em resposta a uma leve pressão, amplificando a sensibilidade.

Sob circunstâncias normais, estes sinais seriam reduzidos na coluna dorsal da medula espinal. No entanto, após a amputação, perde-se o controle inibitório nessa região da medula e os sinais tornam-se mais intensos. 

Posteriormente a esse caminho percorrido na medula, os impulsos nervosos são enviados para o córtex somatosensorial, onde são processados. O corpo inteiro é mapeado nesse córtex, no qual é possível visualizar que áreas representativas de muita sensibilidade nervosa, como os lábios e as mãos, são apresentadas em maior dimensão. 

Desse modo, a dor no membro fantasma é uma ilusão que machuca de verdade, pois os pacientes normalmente referem sentir forte ardência, queimação ou até mesmo beliscões no membro que foi amputado. Essa dor tende a aparecer com maior frequência em pacientes que sofreram amputação traumática.

Homúnculo de Penfield 

O homúnculo cortical ou homúnculo de Penfield, como é conhecido, é uma representação psiconeuroanatômica do corpo humano com proporções baseadas no tamanho da representação de cada parte do corpo no córtex cerebral. Ou seja, é basicamente uma imagem corporal que o homem tem dele mesmo, possibilitando reconhecer a correspondência de regiões corticais cerebrais com áreas do corpo humano.

A quantidade de córtex dedicada a uma parte especifica do corpo pode crescer ou encolher com base em quanta entrada sensorial o cérebro recebe dessa parte do corpo. Por exemplo, a representação da mão esquerda é maior em violinistas do que em não violinistas, o que demonstra íntima relação com o nível de estimulação do membro.

Além disso, o cérebro também aumenta a representação cortical quando uma parte do corpo é ferida a fim de aumentar as sensações indicativas de perigo, sendo uma forma de alerta. Esta crescente representação pode levar à dor fantasma.

Ademais, estima-se que o mapa cortical também é responsável pela sensação de partes do corpo que não estão mais lá porque elas ainda têm representação no cérebro. Com o tempo, essa representação pode encolher e o membro fantasma pode encolher com ele.

Homúnculo motor

No homúnculo motor, as áreas do córtex motor responsáveis por controlar a boca, a língua, o polegar e os dedos das mãos ocupam uma grande porção, pois associam-se a movimentos delicados e precisos. Em contrapartida, regiões como as nádegas e as pernas, que realizam movimentos mais amplos e menos refinados, correspondem a áreas bem menores do córtex.

Homúnculo sensorial

Já no homúnculo sensorial, por sua vez, as partes do corpo com maior sensibilidade, como os lábios, as bochechas e as pontas dos dedos, ocupam áreas mais extensas do córtex somatossensorial, devido à alta concentração de receptores sensoriais por centímetro quadrado nessas regiões.

Dor fantasma 

Define-se a dor como uma sensação desagradável originada por estímulos que indicam lesão tecidual e possui componentes cognitivos, sociais e físicos.

Por sua vez, a sensação dolorosa do membro amputado apresenta-se como compressão, ardência e queimação. Além disso, associa-se não só aos aspectos físicos, como também aos psíquicos, apesar de atualmente ser melhor sustentada a “teoria fisiológica” no caso dos amputados.

No período crítico, ou seja, na primeira semana após a amputação, todos os pacientes referem dor. Esse quadro pode desaparecer e retornar após meses ou anos, sendo comumente localizado na região distal dos membros.

Existem alguns fatores de agravo da dor, tais como toque no coto, pressões fortes na região, alterações de temperatura, reflexos, dores de outras origens ou ainda o período de adaptação ao uso das próteses. Por outro lado, os fatores de melhora, que proporcionam alívio, são o repouso, distração, elevação do segmento e massagem terapêutica no coto. 

Quando ocorre a secção de um conjunto de nervos periféricos, as informações sensoriais tornam-se completamente ausentes, o que promove um hiperativação dos neurônios pertencentes ao sistema nervoso central. A reorganização do córtex pela superposição das representações dos segmentos do corpo se relaciona com a intensidade da dor que determinado membro apresenta. Assim, o processo de neuroplasticidade está envolvido com a referida reorganização e é um mecanismo chave para a reabilitação no pós-operatório de amputação.

Sinais e sintomas 

Os principais sintomas incluem:

  • Queimação;
  • Situações ilusórias da existência do membro;
  • Parestesia;
  • Câimbras. 

Além disso, em casos específicos de comprometimento do plexo braquial, pode-se perceber: 

  • Estiramento da mão irradiando para a região do cotovelo;
  • Constrição do pulso;
  • Impulsos elétricos e espasmos nas mãos;
  • Sensação subjetiva de desaparecimento de porções do membro.

Um caso raro e bastante curioso, mas também possível, é a duplicação de membros, no qual indivíduos relatam a presença de um membro fantasma e de um membro paralelo.

Variações de membro-fantasma 

Há algumas manifestações dessa síndrome, as quais evoluem de modos diferentes dependendo das condições em que o paciente se encontra. 

A tetraplegia, por exemplo, que ocorre em pacientes que foram vítimas de trauma raquimedular, pode desencadear a síndrome do membro fantasma nos quatro membros, levando a situações de grande desconforto.

Além desta, outra condição que leva a sensação fantasma é a mastectomia radical. No caso da mastectomia, as pacientes relatam perceber ainda a presença dos seios mesmo após o procedimento, referindo dor e até mesmo acreditando que houve alguma falha no procedimento cirúrgico devido aos sintomas intensos e persistentes. 

Tratamento da dor fantasma

O tratamento para a dor fantasma normalmente requer uma combinação de fisioterapia, medicamentos para o tratamento da dor, próteses e tempo. 

Fisioterapia

O tratamento fisioterapêutico envolve:

  • Cinesioterapia ativa e resistida;
  • Uso de vários objetos com participação ou não da visão;
  • Dessensibilização da região do coto;
  • Enfaixamento do coto;
  • Reeducação postural;
  • Adaptação de meias compressivas em conjunto com a prótese;
  • Exercícios ativos domiciliares;
  • Escolha correta de calçados.

Tratamento farmacológico

Quanto ao tratamento farmacológico, utiliza-se analgésicos opioides endógenos e fármacos anestésicos locais. Os primeiros são benéficos em dores neuropáticas, a exemplo das provenientes do câncer e da neuralgia pós-herpética. Já os anestésicos podem diminuir o quadro álgico pós-amputação. 

Substâncias que possuem evidência de efeitos benéficos no controle da dor proveniente do membro fantasma incluem:

  • Morfina;
  • Quetamina;
  • Cloridato de Tramadol;
  • Memantina;
  • Toxina botulínica.

Terapia de caixa de espelho

Utiliza-se uma técnica denominada terapia de caixa de espelho no desenvolvimento da amplitude de movimento que foi perdida, com o objetivo de reduzir a dor no membro fantasma.

Essa técnica consiste no seguinte procedimento: o paciente coloca o membro fantasma numa caixa atrás de um espelho e o membro intacto na frente do espelho, o que o faz ver dois membros idênticos dos dois lados e isso “engana” o cérebro, projetando a sensação de ter ambos os membros intactos. 

Outros tratamentos

Cientistas estão desenvolvendo tratamentos de realidade virtual, que fazem a experiência de terapia de caixa de espelho ainda mais realista.

As próteses também podem criar um efeito semelhante. Muitos pacientes relatam dor, principalmente quando removem sua prótese à noite, mas com a realidade virtual os membros fantasmas são vistos como extensões do corpo devido a projeção que ocorre.

Alguns estudos demonstraram que o tratamento com realidade virtual pode resultar em redução na intensidade e percepção da dor no membro fantasma e, como consequência, melhora na qualidade do sono, redução no uso de medicação para alívio da dor e melhor desempenho nas atividades cotidianas diárias.

Portanto, é notório que a amputação não significa a exclusão de uma pessoa do meio em que ela está inserida, assim como de suas atividades normalmente exercidas, mas sim uma nova fase de desafios que precisam ser enfrentados e vencidos. 

Autora: Walérya Siqueira 

Instagram: @waleryasb 


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

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