A síndrome do intestino irritável (IBS – Irritable Bowel Syndrome) é uma alteração do sistema gastrintestinal que se caracteriza por dores ou desconfortos abdominais crônicos, acompanhados por mudanças no hábito intestinal por, no mínimo, três meses.
Trata-se de uma condição gastrintestinal comum, que acomete entre 10 a 20% da população mundial, e seu diagnóstico deve ser considerado de exclusão.
Eixo
cérebro – intestino
Por não ser facilmente explicada por anormalidades estruturais, histológicas ou bioquímicas, a patogenia da IBS permanece sendo objeto de estudo.
O que se sabe é que há uma via bidirecional que comunica o sistema nervoso central com o sistema entérico, sendo que essa relação pode ser influenciada tanto por fatores fisiológicos (alterações neuroendócrinas, mecanismos imunológicos, composição da microbiota intestinal), como por fatores psicossociais (alimentação, estresse psicológico, ansiedade e depressão).
Esses
fatores, em conjunto ou individualmente, levam ao aumento da sensibilidade
visceral, contribuindo para o desenvolvimento dos sintomas da doença, como
aumento no número de evacuações.
O
papel da alimentação – FODMAPs
FODMAPs
é a sigla utilizada para agrupar oligossacarídeos,
dissacarídeos, monossacarídeos e polióis fermentáveis (Fermentable
Oligo-, Di- and Mono-saccharides and Polyols), descritos pela primeira vez em 2005. Estudos recentes
mostram que após a ingestão de alimentos com alto teor de FODMAPs, as pessoas
com síndrome do intestino irritável podem apresentar uma exacerbação dos
sintomas da patologia.
Assim, o excesso de ingestão desses alimentos,
aliado à redução da sua absorção na parte distal do intestinal delgado e na
parte proximal do intestino grosso, promove o supercrescimento bacteriano e o
aumento da osmolaridade intestinal, elevando a permeabilidade do epitélio
intestinal, o que, por sua vez, acarreta em efeitos epiteliais, neuronais e
hormonais no conteúdo do lúmen intestinal e na sua distensão.
O mecanismo de atuação desses carboidratos fermentáveis seria através da estimulação de mecanorreceptores no intestino delgado, como uma resposta à combinação do aumento de água luminal (efeito osmótico) e à liberação de gases oriundos da fermentação de oligossacarídeos e da má absorção de frutose, lactose e polióis.
Assim, os FODMAPs atuam como substrato para o crescimento bacteriano, acarretando no aumento da permeabilidade intestinal.
Sobre os efeitos provocados no cólon, há relatos de aumento da produção de mucina, o que poderia provocar lesões ou irritações naquela região.
Além disso, a fermentação rápida e excessiva de carboidratos na parte proximal do intestino grosso pode contribuir para o aumento das concentrações de ácidos graxos de cadeia curta e de ácido lático no lúmen, atrapalhando, por sua vez, a barreira mucosa existente.
Quanto aos efeitos sistêmicos provocados pelo excesso de FODMAPs, as evidências indicam que há possibilidade de piorar os refluxos gastroesofágicos e de causar dispepsia, alterações na função imunológica e nas células endócrinas, além de promover alterações na motilidade intestinal.
Essas alterações, associadas ao aumento da quantidade de água luminal, provocam diarreia. Já o aumento da fermentação intestinal resulta em inchaço, distensão e flatulência, sintomas clássicos da síndrome do intestino irritável.

É importante dizer que tais sintomas são bastante parecidos com aqueles apresentados por um paciente com intolerância à lactose, o que pode dificultar o diagnóstico.
Por essa razão é que a realização da anamnese e do exame clínico de forma adequada, além de estabelecer uma relação médico-paciente confiável, permite a indicação terapêutica mais apropriada para a condição clínica do paciente.
Mas afinal, quais são os alimentos
que mais contém FODMAPS?
Como
dito, FODMAPs é sigla que reúne carboidratos de cadeia curta altamente
fermentáveis. Nesse conceito estão incluídos: frutose e lactose mal absorvidas,
polióis, como manitol, sorbitol e xilitol, fruto-oligossacarídeos (frutanos) e
galacto-oligossacarídeos (rafinose).
Para exemplificar os alimentos onde podem ser encontrados tais elementos, será feita uma divisão com base no tipo alimentício:

Dieta com baixo teor de FODMAPs (BFM)
Em 2005, a dieta com baixo teor de FODMAPs
(BFM) foi analisada em um estudo como forma de tratamento de pacientes com
Doença de Crohn. Desde então, outros estudos têm mostrado que a mesma dieta tem
sido benéfica para aliviar os sintomas da síndrome do intestino irritável.
No entanto, é certo que dietas restritivas devem ser devidamente acompanhadas por profissionais médicos e nutricionistas, em especial a dieta pobre em FODMAPs, já que a restrição alimentar pode ser muito grande.
A proposta dessa dieta pode sofrer variações, mas sua principal abordagem é a retirada gradual e progressiva de determinados alimentos (ou grupos de alimentos) da rotina alimentar do paciente, até que haja alívio dos sintomas.
A maior parte dos estudos existentes sobre o tema concentra a dieta na fase de eliminação dos alimentos ricos em FODMAPs, que dura entre duas e seis semanas.
Ao final desse período, é feita uma análise a respeito da melhora dos sintomas e, se houver uma boa resposta terapêutica, os pacientes passam por uma fase de reintrodução estruturada.
Nessa etapa, os alimentos serão reintegrados à rotina alimentar até que os sintomas retomem, criando-se, dessa forma, uma dieta BFM individualizada.
Diante disso, faz-se necessário ressaltar novamente que é fundamental um acompanhamento nutricional durante a realização dessa dieta tão restritiva e personalizada, uma vez que em função dessas características, pode-se alcançar deficiências nutricionais que comprometam o bom funcionamento do organismo e, ainda, intensifiquem os sintomas inicialmente observados.
Confira o vídeo:
Autoria: Virgínia Costa Marques