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Síndrome do encarceramento: quando o olhar é a única forma de se comunicar | Colunistas

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A síndrome do encarceramento (Locked-in) é um estado de tetraplegia e anartria com manutenção da função cognitiva. Há perda do movimento do tronco, braços e pernas, e da articulação dos pensamentos através da fala.

Tendo a consciência preservada, o paciente encontra-se aprisionado ao próprio corpo, sem possibilidade de se expressar. A única forma de comunicação são os movimentos verticais dos olhos e, por vezes, piscadas.

O que causa síndrome do encarceramento?

A origem envolve lesões no tronco cerebral resultando principalmente de hemorragia, trauma ou infarto por injúria à ponte ventral. Distúrbios paralíticos, como a síndrome de Guillain-Barré são causas menos frequentes. Neoplasias em fossa posterior e ponte de característica progressiva e irreversível costumam ser fatais.

O comprometimento da Ponte explica a incapacidade de movimentação lateral do globo ocular, restando apenas a verticalização e o piscar. A anartria é causada por paralisia fascio-glossofaringo-laríngea, que se associa à disfagia e limita o uso da expressão facial para comunicação.

Tabela 1. Causas e mecanismos da síndrome de encarceramento.

Causa Mecanismo
Isquêmica   Oclusão da artéria basilar, eventos hipotensivos ou hipóxicos.
Hemorrágica   Hemorragia com origem ou infiltração na ponte.
Traumática   Contusão direta do tronco cerebral ou dissecção do eixo vertebrobasilar.
Neoplásica   Infiltração primária ou secundária da ponte ventral.
Metabólica   Mielinólise pontina central.
Desmielinização   Esclerose múltipla afetando a ponte ventral.
Infecciosa Abcesso infiltrando a ponte ventral, encefalite do tronco cerebral.
Fonte: Smith W, Mark D 3

Funções preservadas

Além da consciência, a audição e a visão, embora com desfoques e diplopias por acomodação prejudicada, encontram-se preservadas.

Como é feito o diagnóstico?

Pacientes em Locked-in podem ser confundidos com comatosos e considerados inconscientes. Dessa forma é preciso atenção e acurácia no seu manejo. Além da incapacidade motora, as manobras de lateralização ocular (manobra dos olhos de boneca e reflexo óculo-vestibular) perdem valor.

Frequentemente percebida pelos entes familiares, a detecção dos movimentos oculares verticais e piscados são essenciais perante a suspeita. Devido a preservação da consciência, é possível estimular o paciente na tentativa de manter uma mínima comunicação.

Os exames de imagem cerebral como tomografias computadorizadas, tomografias por emissão de pósitrons e ressonâncias magnéticas podem descartar causas tratáveis, demonstrar anormalidades anatômicas e avaliar a preservação do metabolismo, que no estado vegetativo está severamente reduzido. O eletroencefalograma geralmente mostra atividade de onda lenta no estado vegetativo, mas atividade normal na síndrome de encarceramento, com preservação do padrão vigília-sono.

Classificação da síndrome do encarceramento

Pode ser dividida em três categorias e cada uma delas é subdividida em formas transitórias e formas crônicas:

  • Clássico: quadriplegia e anartria com preservação da consciência e movimento vertical dos olhos;
  • Incompleto: O mesmo que o clássico, mas com remanescentes de movimento voluntário diferente do movimento vertical dos olhos;
  • Total: Imobilidade total e incapacidade de comunicação, com plena consciência.

Manejo do paciente com síndrome do encarceramento

As condutas iniciais se restringem ao suporte. É necessário prover adequada via aérea, ventilação, nutrição e prevenir moléstias relacionadas à imobilização, tais como: infecções, doenças tromboembólicas, úlceras por pressão e atrofia muscular. Vertigem, insônia e labilidade emocional são complicações constantemente citadas.

A principal causa de óbitos tem origem em complicações pulmonares, demonstrando a importância de fisioterapia respiratória nesses pacientes, incluindo exercícios de respiração profunda, frequentes mudanças de posição, drenagem postural e sucção.

Recuperação e Reabilitação

A recuperação é particular a cada causa e existe forte relação entre precocidade na reabilitação e melhora no prognóstico.

Em situações decorrentes de ataque isquêmico transitório e acidente vascular encefálico por foco na artéria vertebrobasilar, a resolução poderá, em números pequenos frente ao total de acometidos, ser completa. Poderá ser parcialmente reversível quando causada pela síndrome de Guillian-Barré, com um tratamento e reabilitação que podem durar meses. Porém, a maioria dos pacientes progride com instalação crônica da imobilidade.

        Existem fatores indicativos de melhor prognóstico: recuperação dos movimentos laterais oculares, indicando uma melhora no quadro de lesão da ponte; potenciais evocados por estimulação do córtex motor.

Melhoras na qualidade de vida estão atreladas às formas de comunicação desses pacientes. O encaminhamento precoce a um serviço especializado na reabilitação pode permitir que os pacientes voltem a viver com suas famílias.

Na tabela 2, está representada uma forma analógica de comunicação com o paciente. O assistente chama as cores e o paciente sinaliza a cor desejada com um movimento dos olhos para cima. O assistente então chama sequencialmente as letras dessa linha. As letras escolhidas são escritas para formular uma frase, pergunta ou declaração.

O avanço na reabilitação está na transformação dos movimentos oculares em texto e voz. Antes feito mecanicamente, hoje com possibilidade de uso de interfaces cérebro-computador, que atreladas a um sintetizador possibilitam a exposição dos pensamentos, tomadas de decisão e controle do ambiente ao qual se está inserido.

Autor: Yan Porto, estudante de medicina


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


Referências:

Bruno MA, Nizzi MC, Laureys S, Grosseries O. Chapter 12 – Consciousness in the Locked-In Syndrome. The Neurology of Conciousness (Second Edition). Academic Press, 2016. Pages 187-202

Kenneth M. Síndrome de encarceramento. Manual MSD, 2019. Acesso em 2021, disponível em: https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-neurol%C3%B3gicos/coma-e-consci%C3%AAncia-prejudicada/s%C3%ADndrome-de-encarceramento#:~:text=A%20s%C3%ADndrome%20de%20encarceramento%20(locked,por%20c%C3%B3digos%20mediante%20movimentos%20oculares.

Smith W, Mark D. Clinical review Locked-in syndrome. BMJ. National Rehabilitation Hospital. Ireland; Dublin, 2005.

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