Caso clínico Síndrome de Wernicke-Korsakoff – abordagem diagnóstica, manifestações neurológicas e estratégias de tratamento em pacientes com deficiência grave de tiamina.
A Síndrome de Wernicke-Korsakoff (SWK) representa uma condição neurológica grave associada ao déficit de tiamina (vitamina B1), frequentemente relacionada ao etilismo crônico. Embora classicamente descrita como duas entidades distintas — a encefalopatia de Wernicke e a psicose de Korsakoff —, ambas compõem um espectro da mesma doença, sendo a primeira fase aguda e reversível, enquanto a segunda é crônica e muitas vezes irreversível.
Caso clínico: paciente com quadro neurológico progressivo e etilismo crônico
Identificação e queixa principal
M.A.B.R., sexo feminino, 60 anos, branca, viúva, natural e residente em Salvador-BA, foi encaminhada ao serviço de emergência após uma queda em domicílio, com queixa de dor no punho esquerdo.
História pregressa
Segundo relato do irmão, a paciente apresenta quadro depressivo crônico há cerca de vinte anos, desencadeado pela perda do cônjuge. Desde então, houve um aumento significativo no consumo de álcool, que se tornou progressivo e diário. Além disso, ele relatou episódios frequentes de confusão mental, perda de memória e distorções de eventos passados, sugerindo amnésia retrógrada. Nos últimos dois anos, a paciente perdeu 18 kg, referindo hiporexia e padrão alimentar irregular.
Embora estivesse abstêmia no momento da queda, o irmão relatou sintomas como tontura, incoordenação motora e lentificação da marcha, além de dificuldade para realizar tarefas simples, como escrever ou lavar louça.
Caso clínico Síndrome de Wernicke-Korsakoff: exame físico
No exame clínico, observou-se uma paciente em mau estado geral, apática, embora alerta. Estava orientada no espaço, mas apresentava desorientação temporal. Assim, durante a anamnese, elaborava confabulações ao tentar explicar como ocorreu a queda.
Os principais achados incluíram:
- Diplopia, nistagmo e estrabismo convergente bilateral
- Ataxia de marcha
- Amnésia retrógrada
- Parestesias em membros inferiores
- Hipotensão postural
- Taquicardia (FC = 140 bpm)
Exames complementares não foram realizados imediatamente, mas a suspeita clínica foi fortemente sugestiva de encefalopatia de Wernicke, com provável progressão para psicose de Korsakoff.
O que é a Síndrome de Wernicke-Korsakoff?
A Síndrome de Wernicke-Korsakoff é composta por duas fases:
- Encefalopatia de Wernicke (EW): fase aguda e reversível, com tríade clássica de confusão mental, ataxia e alterações oculomotoras (nistagmo, oftalmoplegia).
- Psicose de Korsakoff: fase crônica, caracterizada por amnésia anterógrada, confabulação e deterioração cognitiva persistente.
Embora a tríade clássica esteja presente em apenas 10% dos pacientes, a presença de um ou mais sintomas neurológicos em paciente desnutrido ou etilista deve sempre levantar suspeita clínica.
Caso clínico Síndrome de Wernicke-Korsakoff: entendendo a fisiopatologia
A tiamina (vitamina B1) é um cofator essencial na produção de energia celular. Ela participa de reações importantes no ciclo de Krebs e na via das pentoses fosfato. Além disso, em sua ausência, ocorre acúmulo de ácido lático e estresse oxidativo, levando à morte neuronal.
As áreas mais afetadas incluem:
- Corpo mamilar
- Tálamo dorsomedial
- Hipotálamo
- Hipocampo
- Cerebelo (vermis)
Essas regiões são altamente dependentes de metabolismo aeróbico e, portanto, sensíveis à deficiência de tiamina.
A deficiência de tiamina ocorre principalmente em:
- Etilistas crônicos (maior causa)
- Pacientes com desnutrição
- Cirurgias bariátricas
- Síndromes de má-absorção
- Hiperalimentação parenteral sem suplementação vitamínica
Portanto, em qualquer cenário de hipovitaminose associado a alterações neurológicas, a hipótese de SWK deve ser considerada.
Manifestações clínicas
As manifestações podem variar, mas usualmente envolvem:
Encefalopatia de Wernicke
As manifestações clínicas da encefalopatia de Wernicke podem variar de paciente para paciente, mas, de modo geral, envolvem um conjunto clássico de sinais e sintomas neurológicos que indicam disfunção cerebral aguda. Essa condição é decorrente da deficiência de tiamina (vitamina B1), frequentemente associada ao alcoolismo crônico, desnutrição ou síndromes de má absorção.
Os principais sinais da encefalopatia de Wernicke incluem:
- Confusão mental aguda: o paciente pode apresentar desorientação no tempo e no espaço, dificuldade de concentração, prejuízo da memória recente e alterações cognitivas importantes. Em alguns casos, a progressão pode levar à apatia e à dificuldade de interação com o ambiente
- Ataxia: caracterizada por uma marcha instável, desequilíbrio postural e incoordenação motora, especialmente em membros inferiores. A ataxia pode dificultar a deambulação e aumentar o risco de quedas
- Nistagmo e paralisia dos músculos oculares: o nistagmo é um movimento involuntário e repetitivo dos olhos, geralmente horizontal. Pode estar acompanhado por oftalmoplegia, com paralisia parcial ou total de músculos oculares, resultando em diplopia (visão dupla) ou estrabismo súbito
- Hipotermia e hipotensão: devido à disfunção do sistema nervoso autônomo, o paciente pode apresentar temperatura corporal abaixo do normal e pressão arterial reduzida, sinais de gravidade que exigem monitoramento rigoroso
- Apatia ou sonolência: em casos mais avançados, a resposta emocional do paciente pode estar diminuída, com rebaixamento progressivo do nível de consciência, podendo evoluir para coma se não houver intervenção precoce.
A identificação rápida desses sinais é essencial para evitar sequelas neurológicas permanentes.
Psicose de Korsakoff
- Amnésia anterógrada (incapacidade de formar novas memórias)
- Amnésia retrógrada (perda de memórias antigas)
- Confabulação (criação de histórias falsas)
- Preservação da linguagem e inteligência geral
- Comportamento desinibido em alguns casos
Esses sintomas podem surgir de forma insidiosa, especialmente quando a EW não é tratada precocemente. Por isso, a transição entre as fases pode passar despercebida.
Diagnóstico
O diagnóstico da Síndrome de Wernicke-Korsakoff é principalmente clínico. Não existem exames laboratoriais específicos para o déficit de tiamina em tempo real. No entanto, exames complementares ajudam na exclusão de outras causas.
Caso clínico Síndrome de Wernicke-Korsakoff: critérios clínicos úteis
- Presença de 2 dos 4 critérios de Caine:
- Dieta pobre em tiamina
- Alteração oculomotora
- Ataxia cerebelar
- Distúrbio de confusão ou prejuízo de memória
Caso clínico Síndrome de Wernicke-Korsakoff: exames complementares possíveis
- RM de crânio: pode mostrar lesões nos corpos mamilares e tálamo, mas não é essencial para iniciar o tratamento
- Dosagem de tiamina: não é amplamente disponível em serviços de urgência
- Exames laboratoriais gerais: para avaliar disfunções hepáticas, desnutrição, ou déficits eletrolíticos.
Dessa forma, dado o risco de progressão irreversível, o tratamento com tiamina deve ser iniciado imediatamente, sem aguardar exames.
Tratamento
O tratamento da SWK é uma urgência médica. A reposição de tiamina deve ser iniciada antes da glicose, pois a glicose sem tiamina pode agravar o quadro neurológico.
Esquema recomendado:
- Tiamina 500 mg EV 3 vezes ao dia por 2 a 3 dias, seguido de 250 mg por 5 dias.
- Após estabilização, transição para tiamina VO (100 mg/dia).
- Suporte nutricional e abstinência alcoólica completa.
- Correção de distúrbios hidroeletrolíticos.
Com o tratamento adequado, os sintomas da encefalopatia de Wernicke podem regredir em poucos dias. Entretanto, a psicose de Korsakoff raramente é revertida, mesmo após tratamento agressivo.
Prognóstico e prevenção
A mortalidade da encefalopatia de Wernicke não tratada pode chegar a 20%. Além disso, cerca de 80% dos pacientes evoluem para a forma crônica da síndrome, com comprometimento cognitivo irreversível.
A melhor forma de prevenção é a identificação precoce dos grupos de risco e a suplementação profilática de tiamina em situações críticas, como:
- Internações por etilismo
- Desnutrição grave
- Cirurgias gastrointestinais
- Terapia parenteral prolongada
Portanto, o reconhecimento clínico rápido e o tratamento precoce são fundamentais para evitar sequelas neurológicas permanentes.
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Referência bibliográfica
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- GROPPER, M. A.; STROM, B. L. Overview of the chronic neurologic complications of alcohol. UpToDate. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/overview-of-the-chronic-neurologic-complications-of-alcohol. Acesso em: 24 jun. 2025.