Definição
A síndrome de Li-fraumeni clássica (LFS), descoberta em 1969 pelos americanos Frederick Li e Joseph Fraumeni, é uma herança autossômica dominante caracterizada por uma mutação germinativa no gene TP53, que é responsável por produzir a proteína P53. Como essa proteína é essencial para reparar erros no DNA e evitar que o câncer ocorra, os indivíduos com LFS possuem mais chance de ter diversos tipos de cânceres em idade precoce. Os tipos mais comuns são câncer de mama em mulheres na pré-menopausa, sarcomas de tecidos moles e osteossarcomas, tumores cerebrais e carcinoma adrenocortical.
Sindrome de Li-Fraumeni-Like (LFL)
Esse nome é usado para designar pacientes que também apresentam tumores em idade precoce muito similarmente ao que acontece na LFS, mas que possuem mutações diferentes no gene TP53 da forma clássica.
No Brasil, uma das mutações que podem ocorrer no gene TP53 é chamada de R337H, que garante um risco menor de desenvolver câncer em relação a forma clássica.
Além disso, o que também foi detectado é que a associação dessa mutação com a do gene XAF1 garantem menor agressividade à síndrome.

O gene P53
Está Localizado no braço curto do cromossomo 17 (17p13.1), sendo definido por alguns autores como “guardião do genoma” por ser um gene supressor de tumor, responsável por reduzir proliferação celular, induzir apoptose e reparar erros no DNA.
Por isso é importante o estudo de mutações nesse gene como forma de entender mais sobre os tumores e diagnosticá-los rapidamente, mesmo que o seu sequenciamento ainda não seja rotineiro e dependente de alguns centros de pesquisa.
Epidemiologia: Por que estudar a síndrome de Li-Fraumeni?

Por que ela é tão comum no Brasil?
A possível causa é a disseminação do gene mutado trazido por um tropeiro português no século XVIII, pois a rota dos tropeiros coincide com as cidades com maior número documentado de casos. Outra possibilidade é que a mutação R337H tenha sido subdiagnosticada em outros países.
Como identificar essa síndrome?
Critérios clássicos da síndrome de Li-Fraumeni:

Os critérios de Birch ou de Eeles também são utilizados na prática clínica para aqueles que não preenchem os critérios clássicos e os critérios de Chompret foram mostrados como mais sensíveis para identificar pacientes com mutação do p53.
Casos reais
Caso 1: Uma mulher de 65 anos que já havia tido 3 cânceres (de mama, peritônio e na outra mama), apresentava novamente outro câncer, dessa vez de pulmão. Todos os tumores eram independentes entre si, ou seja, primários. Essa situação chamou atenção da graduanda de medicina Maria Isabel Achatz em 1998, que foi responsável por averiguar que essa síndrome era comum na região.
Caso 2: Duas mulheres da mesma família apresentavam câncer de mama. Em dois anos, uma das mulheres passou a ter um tumor de útero, além de outros cânceres encontrados na família, incluindo uma criança de 4 meses com ganho de peso excessivo devido ao acometimento das adrenais, que pode seguir o seu desenvolvimento normal após a retirada do tumor. Caso não houvesse o diagnóstico correto da síndrome, a criança poderia ter uma demora na detecção do tumor, assim, é visível a importância do acompanhamento familiar de pessoas portadoras da mutação para reduzir os danos.
O rastreamento de pacientes portadores da LFS deve ser realizado com o foco principal no diagnóstico precoce. Um grande problema, entretanto, é a falta de recursos disponíveis nos hospitais, principalmente na região Sul, para realizar o acompanhamento periódico de tantas pessoas.
Quais são os problemas sociais relacionados?
Medo de ter câncer a qualquer momento
Medo de se relacionar ou ter filhos
Abandono dos companheiros(as)
Medo de aumento do preço de convênios médicos
Sentimento de culpa por transmitir os genes
Autora: Isabelle G. Holosback
Insta: @isabelle.g.holosback
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências:
Hoff, Paulo Marcelo Gehm (ed). Tratado de oncologia. SÃO PAULO: ATHENEU, 2013
Assakawa, Mauricio Akira Gonçalves. “Análise de mutação germinativa p. R337h no gene TP53 em portadores de carcinoma de células renais tipo células claras.” (2017): 33-33.Disponível em:https://accamargo.phlnet.com.br/MESTRADO/2017/MauricioAAssakawa/MauricioAAssakawa.pdf .Acesso em 19-09-2021
https://revistapesquisa.fapesp.br/hist%C3%B3rias-de-fam%C3%ADlia/
https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1470204509700890 Conteúdo de forma simplificada: https://www.youtube.com/watch?v=gek7AFxNLb4