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Síndrome de DiGeorge: manifestações clínicas, condutas médicas e prognóstico

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A Síndrome de DiGeorge, também conhecida como síndrome da deleção 22q11.2, representa uma das síndromes de microdeleção cromossômica mais comuns na prática médica. Devido à sua ampla heterogeneidade fenotípica, o diagnóstico e a condução clínica exigem atenção multidisciplinar e abordagem individualizada. Dessa forma, esta síndrome envolve múltiplos sistemas orgânicos, o que implica em desafios clínicos significativos desde o período neonatal até a vida adulta.

Etiologia e fisiopatologia da Síndrome de DiGeorge

A síndrome de DiGeorge é causada, em mais de 90% dos casos, por uma microdeleção hemizigótica no braço longo do cromossomo 22, especificamente na região 22q11.2. Assim, esta deleção afeta genes essenciais para o desenvolvimento das estruturas derivadas das bolsas faríngeas, notadamente o timo, as paratireoides e o conotrúnco cardíaco. Como resultado, pacientes podem apresentar desde imunodeficiência até malformações cardíacas e hipocalcemia.

Adicionalmente, o gene TBX1 tem papel central na fisiopatologia da síndrome, uma vez que regula o desenvolvimento de diversas estruturas embriológicas. Sua haploinsuficiência está diretamente associada às anomalias cardiovasculares, faciais e imunológicas observadas nos pacientes.

Manifestações clínicas

Embora o quadro clínico seja altamente variável, há um conjunto de sinais e sintomas que, frequentemente, despertam suspeita clínica, principalmente no período neonatal. As manifestações clínicas mais prevalentes incluem:

Alterações cardíacas congênitas

Cerca de 75% dos pacientes com DiGeorge apresentam cardiopatias congênitas, em especial aquelas do tipo conotruncal. Entre elas, destacam-se:

  • Tetralogia de Fallot
  • Truncus arteriosus
  • Interrupção do arco aórtico tipo B
  • Defeito do septo ventricular (DSV) associado a anomalias do arco aórtico

Tais malformações são, muitas vezes, a primeira manifestação clínica a motivar investigação genética.

Hipocalcemia e hipoparatireoidismo

Na síndrome de DiGeorge, a hipocalcemia está frequentemente associada ao hipoparatireoidismo, condição resultante da aplasia ou hipoplasia congênita das glândulas paratireoides. Essa disfunção leva à produção insuficiente do hormônio paratireoideo (PTH), responsável pela regulação dos níveis séricos de cálcio. Como consequência, os recém-nascidos com essa síndrome podem apresentar hipocalcemia já nos primeiros dias de vida, com manifestações clínicas que variam conforme a gravidade da deficiência de cálcio.

Os sintomas incluem desde sinais neuromusculares sutis, como:

  • Irritabilidade
  • Tremores
  • Hiperreflexia
  • Até manifestações mais graves, como tetania e crises convulsivas.

Assim, em casos severos, a hipocalcemia pode evoluir com laringoespasmo e risco de parada respiratória. O diagnóstico deve ser confirmado por meio da dosagem de cálcio iônico e PTH, além da investigação da causa genética subjacente, como a deleção 22q11.2. Além disso, a abordagem terapêutica envolve a reposição de cálcio e, quando necessário, vitamina D ativa (calcitriol), visando estabilizar os níveis séricos e prevenir complicações neurológicas. O monitoramento laboratorial frequente é essencial para ajustar o tratamento e evitar tanto a hipocalcemia recorrente quanto a hipercalcemia iatrogênica.

Imunodeficiência

A hipoplasia ou aplasia tímica pode resultar em imunodeficiência variável, geralmente com linfopenia T. Embora a maioria dos pacientes apresente uma forma leve e transitória, casos mais graves podem se assemelhar à imunodeficiência combinada grave (SCID), exigindo cuidados imunológicos rigorosos.

Alterações faciais e craniofaciais

A dismorfia facial inclui hipertelorismo, orelhas de implantação baixa, fendas palatinas (incluindo úvula bífida e palato ogival), micrognatia e nariz com base larga. Ainda que sutis, esses sinais podem ser importantes para o diagnóstico precoce.

Fonte: Hegner, 2016.

Alterações neuropsiquiátricas e do desenvolvimento

Ao longo do crescimento, muitos pacientes desenvolvem:

  • Atrasos no desenvolvimento neuropsicomotor
  • Déficits de aprendizagem
  • Transtornos do espectro autista
  • Transtornos de humor, incluindo esquizofrenia na adolescência ou vida adulta.

Portanto, é fundamental o acompanhamento neuropsicológico contínuo desses pacientes.

Outras manifestações

Adicionalmente, podem ocorrer:

  • Alterações renais: agenesia renal unilateral ou bilateral, duplicações pieloureterais, rins ectópicos ou em ferradura
  • Aplasia ou hipoplasia do timo: visível em exames de imagem, podendo associar-se a imunodeficiência variável
  • Distúrbios endócrinos: hipotireoidismo congênito é o mais comum, mas outras disfunções hormonais também podem ocorrer
  • Anomalias auditivas: perdas auditivas condutivas, neurossensoriais ou mistas, com necessidade de triagem precoce
  • Alterações oftalmológicas: incluem microftalmia, coloboma, estrabismo, catarata congênita e erros refrativos.

Essas manifestações podem ser isoladas ou múltiplas, exigindo avaliação especializada individualizada.

Diagnóstico da Síndrome de DiGeorge

O diagnóstico da Síndrome de DiGeorge é, preferencialmente, realizado por meio de testes genéticos específicos. O método padrão é o FISH (hibridização in situ fluorescente), embora atualmente a técnica de microarray cromossômico (CMA) ofereça maior sensibilidade e abrangência.

Do ponto de vista clínico, a suspeita deve ser levantada diante da presença de duas ou mais das manifestações descritas, sobretudo em recém-nascidos com cardiopatia congênita associada a hipocalcemia ou dismorfias faciais.

Condutas médicas

A abordagem médica da Síndrome de DiGeorge requer, necessariamente, a atuação de equipe multidisciplinar. Os principais eixos de conduta incluem:

Cardiologia pediátrica

A cardiologia pediátrica dedica-se ao diagnóstico e manejo das cardiopatias congênitas, que variam amplamente em gravidade anatômica e funcional. Essas condições exigem uma abordagem individualizada, podendo incluir cirurgias corretivas ou paliativas, conforme a complexidade do defeito cardíaco.

O acompanhamento contínuo é fundamental, sendo a ecocardiografia o principal para monitoramento da função cardíaca e evolução clínica ao longo do tempo. Assim, a intervenção precoce e o seguimento especializado são determinantes para a sobrevida e para manter a qualidade de vida das crianças afetadas.

Endocrinologia

O manejo da hipocalcemia deve ser imediato e pode envolver suplementação com cálcio intravenoso e calcitriol, sobretudo nos casos sintomáticos. O controle eletrolítico deve ser rigoroso nas fases iniciais da vida.

Imunologia

A imunodeficiência requer avaliação funcional dos linfócitos T, profilaxia contra infecções oportunistas e, em casos severos, transplante de medula óssea ou transplante de tecido tímico.

Fonoaudiologia e otorrinolaringologia

Pacientes com fenda palatina ou alterações auditivas devem ser acompanhados para evitar atrasos na linguagem e dificuldades escolares. Assim, a intervenção precoce é decisiva para o bom desenvolvimento da comunicação.

Neurodesenvolvimento

O acompanhamento com neurologistas, psicólogos e terapeutas ocupacionais é indicado desde os primeiros meses de vida. A estimulação precoce e os programas educacionais adaptados são fundamentais para promover autonomia.

Genética médica

Além do diagnóstico, o aconselhamento genético é essencial, pois a síndrome pode ter herança autossômica dominante em cerca de 10% dos casos. A avaliação dos pais, inclusive com análise genética, deve ser considerada.

Prognóstico

O prognóstico da Síndrome de DiGeorge depende diretamente da gravidade das manifestações iniciais, especialmente das cardiopatias e da imunodeficiência. Apesar disso, muitos pacientes alcançam uma vida adulta funcional com suporte terapêutico adequado.

Embora alguns indivíduos apresentem comprometimento intelectual leve, outros conseguem inserção social plena e autonomia profissional, especialmente quando recebem intervenção precoce.

Cabe ressaltar, porém, que o risco aumentado de desenvolver doenças psiquiátricas graves, como esquizofrenia, demanda acompanhamento contínuo durante a adolescência e vida adulta.

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Referências bibliográficas

  • MONTEIRO, D. L. M. et al. Síndrome de DiGeorge: abordagem clínica e diagnóstico diferencial. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, São Paulo, v. 28, n. 2, p. 214-220, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.7322/jhgd.152138
  • McDONALD-MCGINN, D. M. et al. 22q11.2 deletion syndrome. Nature Reviews Disease Primers, v. 1, p. 1-18, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1038/nrdp.2015.16
  • SCARANO, G. et al. The 22q11 deletion syndrome: a review. Italian Journal of Pediatrics, v. 37, n. 1, p. 1-8, 2011. Disponível em: https://ijponline.biomedcentral.com/articles/10.1186/1824-7288-37-27
  • HEGNER, Christina Cruz; BARCELOS, Fernanda Lavagnoli; FERREIRA, Juliana Neves; SMIDERLE, Roberta Petroni; ALMEIDA, Patrícia Casagrande Dias de. Diagnóstico tardio de síndrome de DiGeorge em criança hipocalcêmica: relato de caso. Revista Médica de Minas Gerais, Belo Horizonte, v. 26, supl. 2, p. S22-S25, 2016. Disponível em: https://rmmg.org/artigo/detalhes/1950. Acesso em: 02 de Abril de 2025.

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