A síndrome de Burnout, ou síndrome do esgotamento profissional como também é conhecida, vem afetando cada vez mais os profissionais da saúde e estudantes da área. Contudo, essa doença ainda é desconhecida para muitas pessoas, a qual, numerosas vezes pode passar despercebida e/ou confundida com outros transtornos pelos próprios profissionais da saúde.
Dessa forma, é estritamente importante o esclarecimento de tal enfermidade, visto que, ratificado, a sintomatologia da síndrome acarreta consequências negativas não só para o indivíduo no nível pessoal, bem como, afeta em níveis sociais e organizacionais. Isto posto, o artigo abordará uma revisão de literatura, com o objetivo de esclarecer sobre a Síndrome de Burnout, salientando os sintomas e fatores de risco associados.
Definição
A Síndrome de Burnout é um processo de prostração resultante de um período prolongado de estresse profissional. É o reflexo da tensão crônica no trabalho, estabelecida a partir do contato direto e excessivo com outras pessoas, em razão da apreensão emocional constante, grande responsabilidade profissional e atenção concentrada. Tal condição foi determinada pelo psiquiatra Freudenberger (1974) que originou a expressão “staff burnout” para retratar uma síndrome composta por exaustão, desilusão e isolamento em trabalhadores da saúde mental.
Segundo Maslach e Leiter (1999) a síndrome de Burnout é captada como um conceito multidimensional, envolvendo três dimensões, são elas: exaustão emocional, despersonalização e a falta de realização pessoal. De acordo com Amaro e Jesus (2010) esta síndroma compreende aspectos importantes em profissões na qual mantém-se uma maior relação humana e elevados graus de cobrança e perfeccionismo.
Quadro clínico
É necessário avaliar o quadro clínico do profissional para diagnosticar a magnitude da síndrome. De acordo com o Ministério da Saúde, o quadro evolutivo possui quatro níveis de manifestação:
1º- Falta de ânimo ou desejo de ir trabalhar.
2º- Sensação de perseguição (evita se relacionar com os outros).
3º- Atenuação da habilidade ocupacional (podendo aparecer doenças psicossomáticas).
4º- Etapa caracterizada pela aparição do alcoolismo, uso de drogas, ideias suicidas, pode instalar doenças graves, como câncer, etc.
Ainda, conforme Ministério da Saúde faz-se necessário estratégias de vigilância dos transtornos mentais e do comportamento relacionado ao trabalho. Devem ser realizados uma série de identificações tais como:
- Reconhecimento prévio das ocupações e locais de trabalho (identificação de riscos);
- Identificação do problema ou dano potencial para a saúde do profissional;
- Implantação de diligências a serem adotadas para eliminar os fatores de risco;
- Realização de campanhas no intuito de educar e informar os profissionais sobre a síndrome.
Fatores de risco
A síndrome de Burnout resulta do estresse crônico, típico da rotina do trabalho, principalmente quando existe demasiada pressão, conflitos, poucas recompensas emocionais e reconhecimento. Um dos principais aspectos da sua ocorrência é a carência de um senso de comunidade nas organizações, tais como a falta de qualidade nas interações interpessoais, falta de suporte, presença constante de conflitos, grupos fechados e dificuldades no trabalho em equipe.
Toda e qualquer atividade pode vir a fomentar um processo de burnout, porém o mesmo foi reconhecido como um risco ocupacional para profissões que envolvem cuidados com a saúde, educação e serviços humanos. Para articulação dos fatores de risco para o desenvolvimento do burnout são levados em consideração quatro dimensões:
- Organização (mudanças organizacionais frequentes, falta de autonomia, burocracia, falta de confiança, ambiente físico e seus riscos);
- Indivíduo (padrão de personalidade, locus de controle externo, super envolvimento, indivíduos perfeccionista, controladores, pessimistas, passivos, com grande expectativa e idealismo em relação à profissão);
- Trabalho (sobrecarga, baixo nível de controle das atividades ou acontecimentos no próprio trabalho, sentimento de injustiça e de iniquidade, trabalho por turno ou noturno, tipo de ocupação, relacionamento conflituoso entre os colegas);
- Sociedade (falta de suporte social e familiar, valores e normas culturais).
Associado a outras doenças
Burnout e suicídio
Em um estudo de ideação suicida, aspectos relacionados ao ambiente de trabalho e tentativa de suicídio, foram relacionados quatro fatores, sendo eles: propensão ao suicídio, ambiente de trabalho negativo, qualidade do trabalho e burnout/depressão. A correlação entre esses fatores sugeriram que o ambiente de trabalho, quando negativo, estava associado a burnout/ depressão, que, por sua vez, estavam relacionados a maior probabilidade de ideação suicida e tentativa de suicídio (Samuelsson et al., 1997).
Burnout e abuso/dependência ao álcool e outras substâncias ilícitas.
Em um estudo com 306 médicos generalistas franceses avaliou-se a extensão do burnout entre eles. Verificou-se elevado nível de burnout em 5% da população avaliada, de cada 3 médicos 1 pensava em se submeter a novo treinamento, 30% usavam psicotrópicos, 5,5% declararam estar bebendo em excesso e 13 pensava em suicídio. A qualidade de vida dos que padecem com burnout foi considerada deteriorada, além disso, traz consequências perniciosas no que se refere aos cuidados prestados aos pacientes (Cathebras et al., 2004).
Conclusão sobre Burnout
A síndrome de Burnout é uma manifestação psicossocial relacionada ao contexto laboral resultante do estresse crônico, típico do cotidiano de trabalho e é caracterizada pela exaustão emocional, despersonalização e falta de realização pessoal. Tem como ocupações de mais riscos aquelas cujas atividades são direcionadas às pessoas e que envolvam contato muito próximo, de cunho emocional. Os sintomas podem ser subdivididos em físicos, psíquicos, comportamentais e defensivos e suas resultâncias podem acometer o indivíduo nos níveis pessoal, organizacional e social.
Os fatores de risco para o desenvolvimento do Burnout estão ordenados em quatro dimensões, que são referentes à organização, o indivíduo, o trabalho e a sociedade. O tratamento da síndrome de Burnout é desempenhado de forma individualizada de acordo com cada caso, mas em geral consiste em psicoterapia, tratamento farmacológico e intervenções psicossociais. Diante da obscuridade da síndrome e de seu poder de comprometimento na vida pessoal, social e ocupacional do profissional da área da saúde, os quais podem levar a imposição de afastamento do trabalho, é fundamental a adoção de medidas individuais e organizacionais para combater e/ou minimizar a síndrome e seus efeitos sobre os profissionais afetados.
Autora: Alana Maia
O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.
Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.
Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.
Referências
- blog psicologia viva
- periodicos ufpe
- scielo
- periódicos unincor