Entenda o que é a síndrome das pernas inquietas, a fisiopatologia do quadro, como diagnosticar e tratar seu paciente. Bons estudos!
A síndrome das pernas inquietas é um distúrbio pouco discutido, mas que merece ser bem investigado e suspeitado pelo médico. Por isso, é muito importante que o médico esteja familiarizado com o quadro e abordagem ao paciente.
O que é a Síndrome das Pernas Inquietas?
A Síndrome das Pernas Inquietas (SPI) é um distúrbio de movimento, também conhecida como síndrome de Ekbom.
É caracterizada por alterações da sensibilidade, além de uma agitação motora involuntária, envolvendo membros superiores e inferiores. O que leva a SPI ser tão desconfortável é prevalência dos movimentos durante o sono, levando a um descanso ineficiente.
A SPI é uma entidade pouco conhecida pela maioria dos profissionais da saúde, apesar de sua elevada prevalência. Como vimos, pode causar um grande impacto na qualidade de vida de seus portadores, merecendo ser melhor abordada.
Epidemiologia da síndrome das pernas inquietas
A SPI de qualquer gravidade tem prevalência de 5-15% dos adultos em estudos que incluem principalmente populações caucasianas.
Os países do norte da Europa tendem a ter as estimativas de prevalência mais altas. Em seguida, países germânicos/anglo-saxões e, por fim, os países mediterrâneos.
As mulheres têm taxas mais altas de SPI do que os homens. Isso é corroborado pelo aumento na prevalência de SPI durante a gravidez, sendo que a diferença entre os sexos é mínima ao comparar mulheres nulíparas com homens. Além disso, a prevalência aumenta com o avançar da idade, sendo que em crianças são cerca de 50% mais baixas do que em adultos.
Fisiopatologia: o que leva ao quadro da síndrome das pernas inquietas?
Infelizmente, a compreensão sobre a síndrome das pernas inquietas ainda possui importantes lacunas científicas.
Algumas evidências sugerem uma disfunção do sistema nervoso central (SNC) como causa da SPI. A alteração do SNC mais consistentemente implicada em pacientes com SPI é a redução dos estoques centrais de ferro. Isso ocorre devido a diminuição na concentração de ferritina e aumento de transferrina no líquor de pacientes com SPI. Outras condições associadas são uremia, neuropatia, doença da medula espinhal e gravidez.
Há também possíveis alterações nos sistemas dopaminérgicos, pois observou-se que na maioria dos casos da SPI há melhora com drogas dopaminérgica. Além disso, alterações na fisiologia circadiana, função talâmica e outros neurotransmissores como glutamato e ácido gama-aminobutírico (GABA) foram implicados.
Quadro clínico da síndrome das pernas inquietas
O sintoma característico da síndrome das pernas inquietas (SPI) é uma necessidade muitas vezes desagradável ou desconfortável de mover as pernas, que é aliviada pelos movimentos. Esses sintomas pioram no decorrer do dia ou à noite, interferindo na qualidade do sono.
A sensação pode ser difícil para os indivíduos caracterizarem e as descrições subjetivas podem ser bastante variadas e sugestionáveis. Os pacientes referem:
- Sensações disestésicas, descritas como agulhadas
- Prurido interno
- Necessidade de se mover
- Cãibras, que melhoram com uma atividade motora intensa, com movimentos vigorosos das pernas em flexão, extensão ou cruzamento.
Pode ser útil fazer perguntas que visam outros aspectos importantes da sintomatologia de SPI sintoma, como:
- Sente vontade de mexer as pernas?
- O sintoma melhora durante o movimento?
- A necessidade de movimentação piora à noite ou à noite?
Algumas medicações foram implicadas como causadores de exacerbações dos sintomas, incluindo anti-histamínicos, antagonista do receptor de dopamina e antidepressivos.
Insônia no início do sono, despertares noturnos, depressão e ansiedade são consequências comuns na SPI. Como já foi mencionado, outras características clínicas típicas da SPI incluem a tendência de os sintomas piorarem gradualmente com a idade e melhora com tratamentos dopaminérgicos.
Como diagnosticar a síndrome das pernas inquietas?
A síndrome das pernas inquietas (SPI) é um diagnóstico clínico. Deve ser suspeitado em pacientes que se queixam de necessidade de mover as pernas. A queixa acompanha quando estão deitados na cama ou sentados, principalmente se o sintoma ocorrer predominantemente à noite.
Os critérios diagnósticos mínimos de acordo com o Grupo de Estudos Internacionais da Síndrome das Pernas Inquietas (International Restless Legs Syndrome Study Group – IRLSSG) e da Classificação Internacional dos Transtornos do Sono de 2005 são:
- Necessidade de mover as pernas acompanhada de sensação:
- Parestésicas desagradáveis nas pernas entre o tornozelo e o joelho. Às vezes, a vontade de se mover está presente sem as sensações desconfortáveis e, às vezes, os braços ou outras partes do corpo estão envolvidos além das pernas;
- De desconforto, que começa ou piora durante períodos de repouso ou inatividade, com o paciente sentado ou deitado;
- Parcial ou totalmente aliviadas pelo movimento, como caminhar ou alongar-se, pelo menos enquanto a atividade continuar.
- Apresenta uma característica circadiana surgindo ou piorando no final do dia e à noite. As queixas são geralmente mais leves durante o dia do que à noite e ocorrem picos de intensidade na madrugada.
- Os sintomas não são explicados exclusivamente por outra condição médica ou comportamental, como cãibras nas pernas ou batidas habituais nos pés.
O diagnóstico é feito pela história e não requer exames adicionais. Além disso, pode ser feita uma avaliação dos estoques de ferro em todos os pacientes e da uréia e creatinina séricas quando houver suspeita de uremia.
Manejo não farmacológico do paciente com síndrome das pernas inquietas
Os objetivos da terapia são reduzir ou eliminar os sintomas da SPI e melhorar a função diurna, o sono e a qualidade de vida. Deve ser instituído quando os sintomas são graves durante o dia ou interferem no sono.
Pensando em pacientes com sintomas mais leves, essa abordagem pode ser suficiente. As intervenções abaixo são embasadas em alguns pequenos estudos e na experiência clínica:
- Atividades de alerta mental, como palavras cruzadas, em momentos de descanso ou tédio;
- Evitar fatores agravantes, como retirar medicações que podem ser gatilho;
- Exercício regular moderado;
- Teste de abstinência de cafeína e álcool;
- Caminhar, andar de bicicleta, massagear as pernas para alívio sintomático.
Os pacientes devem ser aconselhados a evitar drogas agravantes e substâncias como a cafeína. Atividades de alerta mental, exercícios, massagem nas pernas e aplicação de calor geralmente ajudam na SPI.

Abordagem farmacológica do paciente com síndrome das pernas inquietas
Em casos mais graves, além da terapia não farmacológica, o uso de medicações também deve ser recomendado para os pacientes. Para um uso intermitente, as opções de medicação incluem carbidopa-levodopa, benzodiazepínico ou agonista do receptor de benzodiazepínico e um opioide de baixa dose.
Na maioria dos pacientes com SPI persistente crônica, sugerimos terapia inicial com um ligante de canal de cálcio alfa-2-delta, como a Cabergolina e Pergolida, em vez de um agonista da dopamina, como a Levodopa e Pramipexol. O Pramipexol é uma droga eficaz nos casos mais graves, é bem tolerada e tem sido usada mais amplamente.
Quando os sintomas de SPI são refratários à terapia de primeira linha com um ligante de canal de cálcio alfa-2-delta ou um agonista da dopamina, as opções de tratamento incluem terapia combinada e opióides.
Pacientes com deficiência de ferro sérico ou estoques de ferritina (isto é, nível de ferritina sérica < 75 mcg/L) a terapia de reposição de ferro oral está indicada. Além disso, deve ser avaliado quanto à causa subjacente, que pode incluir perda de sangue gastrointestinal. Essa causa se refere especialmente para adultos com mais de 40 a 50 anos.
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Perguntas frequentes
- O que causa a Síndrome das Pernas Inquietas (SPI)?
A compressão acerca da SPI ainda não é completa. Por isso, exige do médico uma perspicácia no reconhecimento dos sintomas e manejo. - A SPI afeta que grupos?
Mais comum em mulheres, adultos e aumentando de prevalência com o avançar da idade. - Quais abordagens não farmacológicas podem ser tentadas ao paciente com SPI?
Manutenção do alerta mental, atividades físicas e abstinência de álcool e cafeína apresentam benefícios.
Referências
- MASUKO, Alice Hatsue, et al. Síndrome das Pernas Inquietas. Rev. Neurociências. 2004.
- ONDO, William G. Clinical features and diagnosis of restless legs syndrome and periodic limb movement disorder in adults. Post TW, ed. UpToDate. Waltham, MA: UpToDate Inc.
- Síndrome das pernas inquietas: diagnóstico e tratamento. Opinião de especialistas brasileiros. Arquivos de Neuro-Psiquiatria [online]. 2007, v. 65, n. 3a, pp. 721-727.