A síncope pode ser descrita como perda súbita de consciência (consequência de um prejuízo no fluxo cerebral) seguida por sua rápida recuperação. Epidemiologicamente é esperado que 3% de toda a população sofra, ao menos, um quadro de síncope
Uma boa abordagem diagnóstica é fundamental, pois além de ser um sintoma presente em quadros clínicos importantes, há vários diagnósticos diferenciais de elevado valor clínico, tais quais o de epilepsia e hipoglicemia. Como diferenciá-la então? A seguir temos algumas dicas!
Epilepsia = acompanha estado pós-ictal;
Histeria/ Conversão = não há amnésia, é possível observar movimento de pálpebras, pode ser excessivamente prolongada;
Hipoglicemia = valores alterados de glicemia e sinais de hipoglicemia (sudorese, tremores, vertigens, fadiga, palidez).
Classificação
Cardíaca
É a segunda mais prevalente, principalmente em jovens. Têm como principais etiologias as arritmias (bradicardia sinusal, bloqueio sinoatrial, BAV de 3o grau, BAV intermitente, taquicardia ventricular e supraventricular), síndrome do QT longo, síndrome do QT curto, síndrome de Brugada, mau funcionamento de marcapasso, além de doenças cardíacas estruturais e cardiopulmonares.
Hipotensão Ortostática
Ocorre com a mudança de posição pelo paciente, que é acompanhada com queda de PA sistólica de, no mínimo, 20 mmHg ou queda da diastólica em um valor de, no mínimo, 10 mmHg. Pode estar relacionada com mal funcionamento de mecanismos compensatórios (falha na ativação dos barorreceptores) ou hiporreflexia.
Observação! Esse é um diagnóstico de exclusão para pacientes de baixo risco. Já para pacientes predispostos, ou seja, gestantes, diabéticos, idosos e usuários de vasodilatadores, é um diagnóstico que deve ser considerado no início.
Neuromediada
Tipo mais comum, pode ser subdividida em vasovagal (relacionada com fatores desencadeantes como estresse, calor, entre outros), a mais comum em jovens; situacional (relaciona-se com situações de micção ou defecação, por exemplo); por hipersensibilidade do seio carotídeo, mais comum em idosos.
Um fator que auxilia a diferenciá-la dos outros tipos é a presença de pródromos: tontura, náuseas e êmese, sudorese, cefaléia ou sentimento de calor.
Diagnóstico
O diagnóstico envolve os seguintes passos:
- Anamnese = avaliar se ocorreram pródromos; a situação/posição na hora da síncope; presença de comorbidades. Também devemos questionar a existência de quadro semelhante anterior e a duração do episódio atual. Procurar por sintomas associados e fatores desencadeantes.
- Exame físico = importante realizar uma boa avaliação cardiovascular. Nunca esquecer de realizar PA em duas posições. A massagem de seio carotídeo pode ser feita em indivíduos com mais de 40 anos e com síncope de etiologia não especificada. Se há uma pausa sinusal > 3s ou queda da PAS em um valor de no mínimo 50 mmHg, podemos identificar hipersensibilidade .
- ECG = avaliar sobrecargas, bloqueios, arritmias ou isquemias.
O risco é estratificado de acordo com a presença ou ausência dos seguintes itens: síncope supina durante esforço; síncope acompanhada de palpitações; BAV II ou III graus; bloqueio de ramos; bradicardia persistente; elevação de ST em V1, V2 e V3; taquicardia supraventricular.
Tratamento
Envolve a estratificação do risco = estamos diante de um quadro inocente postural ou de uma quadro de etiologia cardíaca?
Se a síncope é neuromediada:
- Orientar sobre fatores de risco/ gatilhos e como evitá-los;
- Orientar sobre manobras preventivas de contrapressão, usadas na presença de pródromos. Exemplo: levantar as pernas, cruzar as pernas, apertar uma mão contra a outra.
- Esclarecer riscos relacionados a algumas atividades cotidianas, como direção, em casos de síncope frequente (> 1 vez/semana).
- Terapia farmacológica reservada para quadros refratários às medidas não farmacológicas.
Se a síncope é por hipotensão ortostática:
- Manter hidratação adequada.
- Orientar sobre manobras de compressão física. Exemplo: uso de meias elásticas.
- A terapia farmacológica pode ser adicionada se necessário maior controle de episódios. Opção farmacológica: fludrocortisona e midrodine.
Se a síncope é cardíaca:
- Investigar etiologia (ECO, Holter, Teste de Esforço).
- Tratar de acordo.
Dosagem de fludrocortisona = 0,1 mg, VO, 2 vezes/dia.
Observações = exames complementares.
A ecocardiografia é útil em pacientes com síncope de etiologia não especificada que possuam um ECG normal na ausência de histórico patológico cardíaco.
O teste ergométrico é indispensável para aqueles pacientes com quadros de síncope durante esforço físico.
O holter permite identificar arritmias relacionadas.
Posts relacionados para aprofundar-se no assunto:
Síncope: definição, epidemiologia, fisiopatologia e mais! https://www.sanarmed.com/sincope
Síncope na Emergência: https://www.sanarmed.com/sincope-na-emergencia
Abordagem diagnóstica da síncope: https://www.sanarmed.com/abordagem-diagnostica-da-sincope-posme
Referências:
MALLET, Ana Luisa Rocha. Síncope: abordagem diagnóstica. Rev. Socerj., Rio de Janeiro, v. 1, n. 12, p. 422-429, mar. 1999. Disponível em: http://sociedades.cardiol.br/socerj/revista/1999_01/a1999_v12_n01_art11.pdf.
SOUZA, Larissa de Oliveira; MOREIRA, Henrique Turin; SALGADO, Ana Marta Antunes. Síncope na emergência. Revista Qualidadehc, São Paulo. 2018. Disponível em: https://www.hcrp.usp.br/revistaqualidade/uploads/Artigos/203/203.pdf. Acesso em: 21 set. 2021.
BOFF, Celine de Oliveira; SCHUCH, Thiéle Fonseca; BODANESE, Luiz Carlos. SÍNCOPE: abordagem diagnóstica. Brasília: 2018.
Autora: Maria Clara Lopes de Castro
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