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Sinal do orvalho sangrante: o que significa? | Colunistas

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CONCEITOS INICIAIS

O sinal do orvalho sangrante é um dos sinais semiológicos mais indutivos que existem. Ele indica a presença de uma doença crônica de pele, que tem aumentado em incidência ao longo dos anos. Você sabe de qual doença estamos falando?

A doença é de caráter autoimune, desencadeada por infecções, medicamentos ou traumas. Nós estamos falando da psoríase.

A psoríase atinge cerca de 2% da população, e apesar de parecer uma doença rara, acomete milhões de pessoas sendo altamente impactante para seu portador.

ANATOMIA

Antes de adentrarmos ao tema específico, precisamos revisar conceitos sobre a anatomia do maior órgão do corpo, a pele.

Figura 1. Camadas da pele. 
AZULAY, 2017

A pele é um órgão facilmente acessível e é um dos melhores indicadores da saúde geral; por isso, é importante sua observação durante o exame físico. É incluída no diagnóstico diferencial de quase todas as doenças. Possui funções de proteção, termorregulação, contenção de estruturas, sensibilidade, síntese e armazenamento de vitamina D. É composta por glândulas sudoríparas e sebáceas, folículos pilosos e receptores de vibração, táteis e de sensibilidade.

É a pele que indica a presença do sinal do orvalho sangrante, um sensível indicador da psoríase.

O QUE É PSORÍASE?

Como falamos, a psoríase é uma doença autoimune, bastante debilitante, que acomete a primeira barreira de proteção humana, a pele. Possui vários tipos diferentes, e se manifesta com sintomas sistêmicos, como artralgia, febre, astenia, etc.

Por ser autoimune, possui caráter cíclico, variando entre períodos de atividade e de remissão. Em períodos de atividade, percebe-se maior abstenção no trabalho e lazer, devido ao impacto na qualidade de vida do indivíduo. 

As variantes são diversas: artrite psoriásica, psoríase gutata, pustulosa, vulgar, eritrodérmica, acrodermatite. Atinge homens e mulheres numa proporção semelhante, na idade entre 20 e 50 anos de idade. Pode ser desencadeada pelo estresse, álcool, coçaduras, escoriações e uso de fármacos. Ao contrário do que muitos pensam, não é uma doença contagiosa, e portanto, permite o livre contato sem qualquer risco de transmissão.

COMO DIAGNOSTICAR?

O diagnóstico é feito por meio da observação de alguns sinais clínicos. Estes sintomas dependem também do tipo de psoríase presente. Pode haver o tipo com múltiplas lesões e a psoríase estável crônica, com apenas uma única lesão.

As lesões são geralmente escamas lamelares frouxas com prurido associado. Pode haver lesões espalhadas por todo o corpo ou contidas em um determinado local.

Figura 2. Psoríase vulgar. Recebe o nome vulgar, por ser o tipo mais comum.
FITZPATRICK, 2019

No tipo de múltiplas lesões, como é o caso da psoríase gutata, é possível observar lesões descamativas, pruriginosas (mais comumente no couro cabeludo e região anogenital), com aspecto eritematoso. Já no tipo de placa estável, vemos placas bem demarcadas, vermelho-escuras e branco-prateadas. As escamas podem soltar-se facilmente ou estar intimamente aderidas à pele, se assemelhando ao aspecto de concha de ostra.

Por ter um caráter autoimune, comumente podemos observar a presença de artrite, caracterizando a chamada artrite psoriásica.

A psoríase pode ser desencadeada também por pequenos traumas, como a retirada abrupta de adesivos da pele, deixando lesões bem delimitadas no local; este é o chamado fenômeno de Koebner.

Figura 3. Fenômeno de Koebner.
FONTE NÃO CONHECIDA.

O padrão de disseminação é variado, podendo ser uni ou bilateral. Geralmente, as lesões de cotovelo são bilaterais.

Figura 4. Psoríase vulgar em cotovelo.
FITZPATRICK, 2019
Figura 5. Psoríase estável crônica, com placas branco-acinzentadas.
FITZPATRICK, 2019
Figura 6. Psoríase com acometimento facial.
FITZPATRICK, 2019

Há ainda o padrão menos comum, o pustuloso, com a formação de pequenas bolsas de pus, que podem ser disseminadas por todo o corpo ou apenas em uma região.

Figura 7 e 8. Psoríase Pustulosa
FITZPATRICK, 2019

O diagnóstico da psoríase torna-se mais fácil por conta das lesões geralmente patognomônicas que são encontradas, no entanto, sabemos que a medicina não é uma ciência exata, e que podem haver casos fora do esperado, logo, precisamos estar atentos ao quadro geral apresentado pelos pacientes. Nota-se por exemplo, que os indivíduos portadores de psoríase, possuem síndrome metabólica estabelecida, um ótimo achado para estabelecer o diagnóstico.

O SINAL DO ORVALHO SANGRANTE

O sinal do orvalho sangrante, também chamado de Sinal de Auspitz, ocorre quando o dermatologista ou médico que está cuidando do paciente, se utiliza de uma pequena cureta para extrair parte das escamas contidas nessas placas. Por serem intimamente aderidas à pele adjacente, ao retirar parte das escamas, logo flui sangue das lesões, e por isso o nome orvalho sangrante.

Figura 9. Sinal de Auspitz
Imagens Google.

FISIOPATOLOGIA

A fisiopatologia ainda é pouco conhecida, mas o que se sabe é que as placas psoriásicas formam-se devido reações do sistema imunológico. Mediadas por hiperceratose com uma proliferação aumentada dos queratinócitos, que com o passar do tempo, estabelecem-se as placas branco-acinzentadas.

TRATAMENTO

O tratamento pode ser feito com o uso de medicamentos orais, fototerapia com raios UVB e loções. Os medicamentos orais que podem ser usados são os retinoides, como a acitretina e a isotretinoína que são efetivas para induzir descamação, porém são pouco eficazes na regressão das placas psoriásicas. 

Além destes, há o metotrexato, um dos mais eficientes, pois atua reduzindo a intensidade da resposta imunológica corporal, no entanto, sua resposta é lenta e por isso, este tratamento precisa ser por longo prazo. Também podemos lançar mão da ciclosporina, que inicia-se com doses mais elevadas e vai-se reduzindo conforme nota-se a resposta terapêutica. Ademais, ainda há a opção dos agentes imunobiológicos, como alefacept, infliximabe, adalimumabe e etanercepte.

As loções corporais compostas por corticoides são geralmente a primeira opção, por possuírem um efeito mais imediato, porém não podem ser administradas por longos períodos. Para lesões em couro cabeludo, podem ser usados xampus de cetoconazol, ácido acetilsalicílico e betametasona.

É necessário compreender que a doença possui um caráter cíclico, e portanto, há medicações adequadas para serem usadas nos momentos de remissão e de atividade.

CONCLUSÃO

A psoríase é, portanto, uma doença autoimune caracterizada por lesões descamativas que podem ser uni ou bilaterais. Seu padrão pode apresentar-se com ou sem pústulas, disseminado ou localizado. Possui o sinal do orvalho sangrante como um importante achado semiológico, que deve ser levado em consideração no momento do diagnóstico. Seu tratamento deve ser individualizado, de acordo com a resposta do paciente às terapias. Ainda há muito o que se estudar sobre a patologia, pois esse tema é de suma importância para a prática clínica.


O texto é de total responsabilidade do autor e não representa a visão da sanar sobre o assunto.

Observação: material produzido durante vigência do Programa de colunistas Sanar junto com estudantes de medicina e ligas acadêmicas de todo Brasil. A iniciativa foi descontinuada em junho de 2022, mas a Sanar decidiu preservar todo o histórico e trabalho realizado por reconhecer o esforço empenhado pelos participantes e o valor do conteúdo produzido. Eventualmente, esses materiais podem passar por atualização.

Novidade: temos colunas sendo produzidas por Experts da Sanar, médicos conceituados em suas áreas de atuação e coordenadores da Sanar Pós.


REFERÊNCIAS

Wolff, Klaus. Dermatologia de Fitzpatrick: Atlas e Texto. Disponível em: Minha Biblioteca, (8th edição). Grupo A, 2019.

David, AZULAY, R. Dermatologia, 7ª edição. Grupo GEN, 2017. [Minha Biblioteca].Neto, Cyro, F. et al. Manual de dermatologia. Disponível em: Minha Biblioteca, (5th edição). Editora Manole, 2019.

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