1.A tecnologia e o
brasileiro
Mais do que uma
ferramenta ocasional, a tecnologia é hoje uma parte importante da vida de
muitos. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2019, cerca de 134 milhões de
brasileiros acessam a internet, e dentro desse grupo 90% fazem uso dela
diariamente (1).
Contudo, não
pense que tal uso se restringe aos aplicativos de mensagens, redes sociais e
vídeo chamadas, pois muitos já adotaram a internet para verificar serviços de
saúde, fazer transações financeiras, se aprimorar profissionalmente, além de
muitas outras atividades não relacionadas com o lazer (1).
E quando falamos
da forma de acesso, os smartphones se tornam esmagadoramente mais populares e
democráticos, pois são usados por 99% daqueles com acesso à internet, em
comparação aos 42% de uso dos computadores. Desse modo, pode-se dizer que todo
esse avanço está “na palma da mão” e disponível para nós 24 horas por dia (1).
2. Conceitos: uso nocivo e dependência
Estamos
familiarizados com tais conceitos quando se fala de substâncias psicoativas,
tanto as lícitas quanto as ilícitas. De acordo com o CID-10 (Classificação
Internacional das Doenças), o uso nocivo (ou prejudicial) de substâncias pode
ser percebido quando o padrão de uso causa um dano real à saúde física ou
mental do usuário, sem que sejam preenchidos os critérios de dependência.
Podemos dizer que o uso nocivo representa o abuso de substâncias (2).
Já quando falamos
da dependência propriamente dita, é necessário que nos últimos 12 meses tenham
sido exibidos 3 ou mais critérios dentre cerca de 6 descritos. Para fim de
discussão no presente texto, citaremos apenas alguns deles (2):
- Forte desejo ou senso de
compulsão para consumir a substância; - Dificuldades em controlar o
comportamento de consumir a substância, em termos de início, término e níveis
de consumo; - Abandono progressivo de prazeres
e interesses alternativos, em favor do uso da substância psicoativa. Aumento,
também, da quantidade de tempo necessário para obter ou ingerir a substância,
assim como para se recuperar de seus efeitos.
E qual a relevância de revisar esses conceitos quando
falamos sobre tecnologia?
Apesar de não haver diagnóstico oficial, o uso da
tecnologia, principalmente dos smartphones, tem o potencial de gerar vício.
Muitas pesquisas têm identificado que os clássicos sintomas de dependência
podem ser aplicados ao uso excessivo desses aparelhos, como perda de controle
do tempo que passamos ao celular, sintomas de abstinência e prejuízos na vida
social e laboral (3).
Trabalhos relatam que muitos usuários afirmam não poderem
viver sem seus celulares, enquanto outros sentem as vibrações de seu celular
mesmo na ausência de notificações. Alguns fazem o que é chamado de “uso
compensatório”, no qual utilizam os seus aparelhos para fugir de problemas,
deveres e emoções negativas do mundo real, o que não representa exatamente uma
forma de uso problemático, porém torna clara a motivação para o comportamento
descrito (4).
Ainda não está completamente resolvido se a dependência e
uso abusivo estão relacionadas ao smartphone em si ou se ele é apenas um meio
pelo qual os indivíduos acessam suas fontes de vício, como aplicativos de
chats, jogos ou compras (3).
3. E como esse problema nos afeta no dia a dia?
O uso excessivo
da tecnologia já apresenta várias consequências possíveis de serem enxergadas
no cotidiano. Basta sair de casa para notar diversas pessoas com seus
smartphones, e isso se reflete no número de atropelamentos, já que mais
pedestres atravessam as ruas completamente distraídos. O mesmo vale para os
motoristas, cuja atenção acaba sendo constantemente desviada do trânsito para
digitar mensagens ou falar em ligações, levando a acidentes por vezes com
gravidade (4).
Dores no pescoço
e ombros, assim como disfunção nas mãos podem ser facilmente encontradas nos
usuários mais assíduos dos celulares, para os quais o mundo virtual já
comprovadamente atrapalha também as performances acadêmicas e de
condicionamento físico (3,4).
A produtividade
no trabalho, apesar de se utilizar a tecnologia, sofre muito com as
interrupções também causadas por ela, o que dificulta a aquisição do estado
chamado flow at work, quando se está
completamente absorvido pela atividade, esquecendo até sobre espaço e tempo,
requerendo além da habilidade, muitos minutos de pura e ininterrupta
concentração (3).
A necessidade de
estar conectado 100% do tempo, da qual sofrem muitas pessoas, também já possui
nome, Fear of missing out (FoMO),
isto é, a relutância em perder informações e checar o que as outras pessoas
estão fazendo e postando nas redes sociais, o que favorece o uso excessivo de
tecnologia (4).
4. Conclusão e perspectivas
Sabe-se que a
tecnologia é parte integrante e fundamental da vida das pessoas, sendo uma
tendência que essa característica apenas se acentue com o passar dos anos.
Desse modo é importante não culpabilizá-la inteiramente, já que ainda
precisamos ampliar seu acesso de modo a democratizar oportunidades.
Estudos já finalizados até agora têm demonstrado associação dos smartphones com ansiedade, depressão e estresse, enquanto trabalhos ainda em andamento procuram desvendar os modelos psicológicos das vias que determinam a depressão de forma a poder melhor intervir e implementar um uso mais saudável da tecnologia (4).
Autoria: Heloisa Sanders
- Instagram: @helogsanders
- E-mail: helosanders@msn.com
- LinkedIn: https://linkedin.com/in/heloisa-garcia-sanders-196758178/